Domingo, 24 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA & PRECONCEITO

Jornalismo e racismo no Brasil

Por Júlio Ribeiro Xavier em 12/08/2014 na edição 811

A condenação do jornal Folha de S.Paulo ocorrida no dia 17 de julho deste ano, motivada por “ofensas racistas”, por parte de seus funcionários, contra um ex-contratado que trabalhava na função de ajudar os jornalistas com seus computadores, passou despercebida no noticiário nacional e local. Para a direção da Folha, que pretende recorrer, a decisão da Justiça do Trabalho foi injusta.

Na verdade, a notícia não “circulou”. O que chama a atenção no fato é a tímida e tardia repercussão na imprensa. Somente no dia 25 de julho é que a notícia veio a público, e mesmo assim sem ocupar qualquer espaço na grande imprensa. Poucos jornais publicaram o fato, apesar da Folha e seus congêneres noticiarem diariamente diversos casos de racismo e injúrias raciais envolvendo PMs, supermercados, lojas de departamentos etc. Mas o caso ocorrido na sede da Folha não teve repercussão, nenhuma notinha de rodapé, nem mesmo alguns segundos no noticiário televiso. Por que as “ofensas racistas” na Folha não se tornaram tema para a imprensa? Nem mesmo os jornalistas “independentes”, que acusam o ministro Joaquim Barbosa, do STF, de ser truculento, arbitrário, “destemperado”, arrogante etc. se manifestaram.

Talvez os nossos órgãos de imprensa estejam aguardando uma confirmação dos fatos, a fim de evitar precipitações que culminariam em erros e que poderiam destruir vidas de cidadãos, como foi o caso ocorrido em 1994 com o senhor Icushiro Shimada, antigo proprietário da Escola Base, ou de Daniele Toledo em 2006, da cidade de Taubaté, que foi acusada de colocar cocaína na mamadeira de sua própria filha.

Temas “não recomendáveis”

A condenação da Folha pelas atitudes racistas de seus funcionários talvez não seja um assunto tão relevante assim que mereça ser repercutido pela nossa mídia. Ainda podemos destacar o caso da angolana Zulmira de Souza Borges Cardoso, uma estudante que foi morta em São Paulo, em 2012, simplesmente por ser africana. Vários veículos de comunicação de países da África e da Europa mencionavam a motivação racista do crime, e o fato de que as testemunhas afirmavam terem presenciado agressões verbais de cunho racista por parte do atirador. Mas a nossa “insuspeita” imprensa nacional preferiu se referir ao caso como uma discussão de bar que terminou em morte.

A grande imprensa tem lutado ferozmente contra as políticas de ações afirmativas e, nessa guerra declarada, a ética jornalística foi deixada de lado. Nesses embates diários, “não é recomendável” abordar temas como racismo, pois lembra negros, que lembra cotas, que lembra exclusão, que lembra a desconstrução do “mito da democracia racial”, que lembra perda de privilégios.

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Júlio Ribeiro Xavier é historiador

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