Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
Menu

CADERNO DA CIDADANIA >

A Wikipédia do Planalto

Por Pedro Doria em 19/08/2014 na edição 812

Ainda não sabemos se foi uma ou se foram mais pessoas. Tampouco conhecemos seus nomes. Mas, entre novembro de 2004 e abril deste ano, alguém ligou-se à rede WiFi pendurada no endereço 200.181.15.10 e dedicou-se com afinco à edição de artigos na Wikipédia, a enciclopédia livre da internet. Tudo foi feito de dentro do Palácio do Planalto. Na semana passada, o repórter Paulo Celso Pereira revelou aqui no GLOBO que entre as vítimas das mudanças estavam os colunistas Míriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg. Seus perfis ganharam adições em alguns casos falsas, todas para denegrir. Se não conhecemos as identidades de quem editou as páginas, ao menos sabemos em que artigos lhes interessou mexer.

Em vários momentos as mudanças visam os artigos referentes a políticos do governo. Na biografia do ex-ministro Alexandre Padilha, hoje candidato ao governo de São Paulo, o usuário do Planalto deletou um bom naco onde estavam as queixas de entidades médicas contra a contratação de doutores estrangeiros. No do vice-presidente Michel Temer as alterações foram mais singelas. Referem-se todas a Marcela, sua mulher. Detalhes como o fato de que ela é “42 anos mais jovem”, que “trabalhava como recepcionista” ou que foi “candidata a miss Paulínia” foram extirpadas.

Um usuário do Planalto se envolveu em pelo menos um duelo de edições na enciclopédia. É o que trata da paupérrima cidade de Ourinhos, no interior de São Paulo. Do IP 200.181.15.10 partiu a inclusão de alguns parágrafos sobre o afastamento por fraude do ex-prefeito tucano Toshio Misato. Entre 13 e 14 de maio de 2013, mesma época em que houve a alteração no perfil de Míriam Leitão, fez 25 adições e subtrações no artigo Ourinhos, enquanto outro usuário da Wikipédia o interceptava e repunha os textos originais.

Lições de Faoro

Nem só de picuinhas políticas e ataques a jornalistas vive a máquina de edição do Palácio. No ano passado, tirou um momento para comentar o show do músico e surfista americano Donavon Frankenreiter em Florianópolis, no início de 2011. “Foram dois dias mágicos”, comentou. E a frase foi rapidamente apagada pelos moderadores responsáveis. Sobre a Copa Libertadores da América de 2008, achou por bem comentar que o time argentino River Plate era “o melhor de todos”. Do futebol à música, encontrou ainda tempo para alterar verbetes como “Assessoria de Imprensa”, “Marcha das Vadias” e “Segurança da Informação e Comunicações”.

Algumas das mudanças fazem sentido. São precisas a respeito de como funcionam setores do governo. Cabe ao Estado informar sobre suas atividades. Algumas flertam com a adjetivação. E, claro, há muita propaganda política e cuidados com a vaidade dos chefes.

Entre 2005 e 2008, o endereço chegou a ser banido pelos moderadores da Wikipédia. Chamaram-lhe a atenção por vandalismo (no caso da Libertadores) e, mais de uma vez, por apagar conteúdo considerado válido.

Raymundo Faoro chamava isso de patrimonialismo. Usar a máquina do Estado para seus interesses pessoais, para a preservação de quem está no poder. Entra governo, sai governo, o Brasil não muda.

Em uma das modificações, alguém no Planalto achou por bem definir tecnicamente o que é integridade de informação. “Quando uma pessoa é íntegra”, afirmou, “não há lugar para ilegalidade, falsidade, enganação, modificação ou destruição.” Pois é.

******

Pedro Doria, do Globo

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem