Quarta-feira, 24 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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CADERNO DA CIDADANIA >

Jornalismo ‘guilhotina’: éramos todos macacos

Por Taís Teixeira em 23/09/2014 na edição 817

“Somos todos macacos”, campanha iniciada nas redes sociais pelo jogador brasileiro de futebol Neymar, atual camisa 10 da seleção brasileira e do time espanhol Barcelona, espalhou-se de forma viral. O atleta aparece comendo uma banana, junto com o filho, que está com uma “banana de pelúcia”, onde repudia com veemência o episódio sofrido pelo colega de profissão e de time Daniel Alves, alvo de ato racista no jogo contra o Villarreal, time da cidade d e Villarreal, na Província de Castellón, em abril de 2014.

Porém, essa não foi a primeira manifestação racista no futebol neste ano. Em fevereiro, o volante Tinga, do Cruzeiro, time mineiro, foi hostilizado por torcedores do Real Garcilaso, do Peru, durante o segundo tempo da partida contra o Cruzeiro, em Huancayo. No caso de Tinga, cada vez em que ele tocava na bola, torcedores reproduziam sons fazendo alusão ao barulho emitido pelo macaco. O clube peruano foi multado no valor de cerca de R$ 28 mil sob a ameaça de interdição se houver novas expressões desta natureza. Já o torcedor que ofendeu o Daniel Alves, teve a sua carteira de sócio do estádio El Madrigal cancelada, além de ser proibido de entrar no local pelo resto da vida.

Podemos ver nessas situações alguns aspectos da mídia. Um deles é a percepção sobre a campanha liderada por Neymar, que indica um fator corriqueiro na mídia: a capacidade das pessoas públicas, que se destacam no exercício da sua atividade, de começar e liderar movimentos em prol de uma ideia ou de uma causa. A adesão social a determinados temas é reforçada pela inserção de líderes carismáticos. Essa relação revigora a máxima de que a construção midiática projetada sobre pessoas previamente estabelecidas reflete-se na empatia gerada no contexto societário. Essa pessoa/personalidade pública extrapola a unicidade como pessoa e passa a representar o movimento, que se fortalece e expande-se à medida que aumenta o número de pessoas atingidas por compactuarem com os conceitos que permeiam tal iniciativa. Já dizia Max Weber (p. 99, 1963), em Ensaios da Sociologia, que “há autoridade do dom da graça (carisma) extraordinário e pessoal, a dedicação absolutamente pessoal e a confiança pessoal na revelação, heroísmo ou outras qualidades da liderança individual. É o domínio “carismático”, exercido pelo profeta […]”.

Momento de vingança

Neste prisma, classificamos nesta situação Neymar como líder carismático que, num gesto que fez referência ao ato de racismo sofrido pelo seu colega, assume o lugar de defensor da opressão racial imposta pelo agressor. As redes sociais configuram-se como espaços que legitimaram essa causa, que eleva Neymar, que já é consagrado na sua área de trabalho (jogador de futebol), a líder “justiceiro” e mais: implanta a ideia de homogeneidade racial, com a frase “Somos todos macacos”.

Em agosto, vivemos o terceiro capítulo de 2014, que veio à tona pela via midiática, da série “Atos de racismo no futebol”, protagonizada dessa por uma gaúcha, na Arena, em Porto Alegre. O jogo era entre Grêmio e Santos. O time gaúcho perdia. O goleiro do time adversário, conhecido como “Aranha”, é negro. Como estava exercendo o seu trabalho de defesa no gol, passou a ser xingado de “macaco” por torcedores gaúchos. Uma estudante, dessa vez é uma mulher, foi flagrada por uma câmera de televisão aos gritos de “macaco” deferidos contra o goleiro. Ora, alguns animais foram “contemplados” com a atribuição de ofensa entre pessoas. Evidentemente, o animal escolhido para o xingamento, “macaco”, revela que foi para insultar a sua cor. Se fosse uma suposta ignorância, seria chamado de “burro”. Se fosse por um comportamento de estupidez, seria “cavalo”. Se fosse por uma índole de infidelidade amorosa, seria “cachorro”, e assim pro diante. Mas ela escolheu “macaco”.

A equipe de jornalismo da transmissão do jogo escolheu colocá-la na tela enquanto ela entoava o xingamento. E assim começou o seu julgamento e massacre social. Nesta reflexão, não nos ateremos à atitude dela, nada louvável, de desqualificar alguém pelo tom da pele. Nem entraremos na discussão sobre a sequência de crimes de que está sendo vítima depois de ter sido denunciada pelas câmeras. O esculacho, o repúdio, o dilaceramento social e humano a que essa jovem está sendo submetida revela que a atrocidade faz parte das nossas relações humanas. A educação que exigimos das escolas e que desejamos dar aos filhos que orientamos para a formação de vínculos e solução de conflitos com diálogo e sem violência, torna-se utopia diante de tal selvageria. Nossa educação ainda é primitiva.

Chamamos a atenção para o poder da mídia em edificar patronalmente ou levar a morte a alguém em vida. As câmeras que a denunciaram são de um canal de esporte, direcionado para o jornalismo esportivo. Essa torcedora foi decapitada nas redes sociais, nos sites, nos programas de jornalismo e de entretenimento. Ela é um produto de um jornalismo “guilhotina”. A sociedade quer a cabeça dela, incluindo o massacre do seu corpo, já que foi ameaçada de estupro. Um crime não pode justificar e nem abrir precedente para novos. O jornalismo esportivo, a lente da câmara e a decisão de enquadrá-la foram a combinação de fatores decisivos para que ela passasse a representar o momento de vingança de todo os sofrimento discriminatório sofrido pelos negros.

A “descapitalização simbólica”

Isso nos faz pensar que a liberdade de expressão onde há câmeras passou a ser coibida pela ação da vigilância que nos impõe. Se as câmeras forem de veículos de comunicação, o grau de comprometimento sobre nossa conduta passa a ser uma questão de garantia da própria vida. Ou dos homens que estão por trás das câmeras. Ou por quem decide o que irá para a tela. Para as várias telas, da televisão, do computador, do celular, do iPad, que pode ser visto e/ou revisto ao dispor do usuário. A atuação dos profissionais que fazem jornalismo deve ser melhor trabalhada neste sentido. Será que o jornalista tem o direito de destruir com a vida de alguém ao liberar para o mundo o registro de uma manifestação, mesmo que errada? Até onde se saiba, não se tratava de uma meliante e nem uma pessoa que representasse perigo social.

O fato é até onde os “olhos” do jornalismo vão e podem ir em um local público, no caso num evento esportivo, onde há disputa e emoção, para desestruturar a vida de um indivíduo. Por que quando o juiz de futebol tem a sua mãe ofendida ou é chamado de “ladrão”, nada acontece? Por que todos que já ofenderam outros atletas negros não tiveram a suas vidas atropeladas da mesma forma que essa jovem está tendo? A resposta é simples: porque não foram escolhidas pelas câmaras do jornalismo. Nesse contexto, onde todos se voltaram contra o xingamento de “macaco”, surge a pergunta: mas há poucos meses não éramos todos macacos? O torcedor que jogou a banana não cometeu o mesmo crime que essa jovem? Por que contra ele não insurgiu esse ódio? De onde vem esse ódio coletivo contra esse fato isolado sendo que outros do mesmo teor já aconteceram anteriormente? É porque nesse caso, o jornalismo revelou o rosto, a identidade, a origem de quem fez, ofendeu e cometeu o crime de racismo.

Nessa hora, todos passam a ser bons e a se sentir no direito e na obrigação moral de insultar e apoiar o linchamento moral, pessoal e profissional, até físico, já que foi ameaçada, imputado à moça. Ela errou, cometeu o crime e deve pagar dentro do que for determinado pela justiça e não com o está sendo feito. No viés desse “jornalismo guilhotina” onde o algoz é a câmara, ou quem está por trás dela, atribuiu-se à torcedora um capital simbólico que remete ao conceito de poder simbólico de Pierre Bourdieu, que é “o poder simbólico, poder subordinado, é uma forma transformada, quer dizer, irreconhecível, transfigurada e legitimada, das outras formas de poder […] na condição de se descreverem as leis de transformação que regem a transmutação das diferentes espécies de capital em capital simbólico” (BOURDIEU, p.15). Dessa forma, a leitura feita é de que esse capital simbólico carrega todo racismo e preconceito do passado, presente e, talvez, futuro foi transferido à jovem; ou seja, para terminar com essa história de discriminação pela cor da pele, ela precisa ser exterminada da sociedade. Isso que essa retaliação a ela representa: a extinção do racismo edificada em cima de uma pessoa. Neste caso, houve a “descapitalização simbólica” pessoal, uma vez que identidade dela foi destruída e destituída de qualquer abono individual. O caso determinou uma mudança da designação de “macaco”, passou a ser sinônimo de xingamento, que antes estava no nome de uma campanha contra o racismo. Logo, éramos todos macacos.

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Taís Teixeira é jornalista e mestre em Comunicação e Informação

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