Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Cerco à livre informação no Egito

Por David Kirkpatrick e Merna Thomas em 04/11/2014 na edição 823
Reproduzido do Estado de S.Paulo/ The New York Times, 28/10/2014, tradução de Celso Paciornik; intertítulo do OI

A pressão do governo egípcio sobre a imprensa livre levou um grupo de jornais a prometer restringir suas críticas a instituições estatais um dia depois de o presidente do Egito, Abdel-Fatah al-Sissi ter advertido sobre uma “conspiração” por trás de um ataque de militantes que matou pelo menos 31 soldados na semana passada [retrasada].

Os editores disseram que condenaram o ataque, que ocorreu na sexta-feira na Península do Sinai, e também se comprometeram a enfrentar a “cultura hostil ao projeto nacional e às bases do Estado egípcio”.

A declaração reforçou a probabilidade de aumentar a restrição às dissensões e pareceu uma tentativa de agradar a Sissi, que endureceu drasticamente seu tom, no sábado, quando tratou da efervescente insurgência islâmica na Península do Sinai, que experimentou uma escalada após o golpe militar, em julho de 2013.

Ao discutir o ataque de sexta-feira [24/10] – o mais mortal contra militares egípcios em muitos anos –, Sissi ficou visivelmente irritado, culpando vagamente conspirações estrangeiras que, segundo ele, pretendiam “passar por cima da vontade do Egito”.

“O Egito está travando uma batalha existencial”, disse ele, acrescentando: “Precisamos conhecer as dimensões da grande conspiração contra nós que pretende derrubar este Estado”. Sissi advertiu que novos endurecimentos virão. “Há luta, sofrimento e sangue”, afirmou, enumerando as centenas de soldados e policiais que foram mortos em ataques de militantes.

Condenação e multa

“A batalha do Sinai está em curso. Ela não terminará em algumas semanas ou meses. Por favor, vamos permanecer firmes e não podemos deixar que ninguém passe por cima da vontade do povo ou do Exército.” Nos últimos dias, instituições estatais e grupos leais ao governo se uniram na condenação ao terrorismo, mas também atuando contra qualquer tipo de dissensão contra o governo.

No sábado [25], o dono de uma importante rede privada de satélites substituiu um apresentador de talk-show, Mahmoud Saad, que havia sido levemente crítico ao governo. Em declaração, a TV Al-Nahar não se referiu a um incidente específico, mas disse que a “liberdade de expressão não pode justificar a ridicularização do moral do Exército egípcio”.

Outros programas de televisão, conhecidos por exibir opiniões de oposição, nos três últimos anos ou mais, saíram discretamente do ar. A mídia noticiosa privada do Egito falou em apoio virtualmente unânime ao governo atual, desde que Sissi, então um general, depôs o presidente Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, no ano passado. As declarações da Al-Nahar e dos editores de jornais pareceram formalizar as políticas de apoio da mídia ao governo.

Também no domingo, um tribunal criminal do Cairo sentenciou 23 ativistas não islâmicos a três anos de prisão, seguidos por três anos de vigilância policial, por organizarem uma manifestação de rua não autorizada, em junho.

Os ativistas estavam protestando contra as rígidas restrições a protestos de rua e outras formas de reunião impostas depois do golpe militar – eles foram condenados por essa mesma lei.

Entre os acusados de maior visibilidade estavam Sanaa Seig, de 20 anos, que integra uma conhecida família de ativistas de esquerda, e a advogada Yara Sallam, de 28 anos, da Iniciativa Egípcia por Direitos Pessoais. Cada condenado foi também multado em US$ 1,4 mil. Outros milhares – incluindo islamistas e outros ativistas – foram encarcerados por protestar.

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David Kirkpatrick é jornalista e Merna Thomas é ativista

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