Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > ENTREVISTA / LYNN POVICH

‘Precisamos do feminismo; ainda há muito a fazer’

Por Angela Pimenta em 04/11/2014 na edição 823

Feminista assumida desde a juventude, em 1970 a jornalista americana Lynn Povich liderou um grupo de 46 colegas mulheres da redação da revista Newsweek em um processo trabalhista histórico por discriminação sexual. Contratadas como pesquisadoras, raramente Povich e suas colegas eram promovidas a redatoras, repórteres ou editoras. Cinco anos depois, ela tornou-se a primeira editora sênior na história da revista.

Em 2012, Povich resolveu contar a história desse motim feminista no livro The Good Girls Revolt. Sem previsão de lançamento no Brasil, o livro é uma crônica inteligente, bem humorada e inspiradora sobre os remotos desafios do século 20, mas traça paralelos importantes para a agenda de igualdade de gênero atual. Ex-diretora de redação da revista Woman e da operação do site MSNBC na costa leste dos Estados Unidos, desde que publicou o livro ela se dedica a educar mulheres sobre seus direitos e a tentar engajar os homens na mesma causa (conheça aqui o seu site). Povich falou por telefone ao Observatório da Imprensa. A seguir, os principais trechos da conversa.

Gostaria de começar parafraseando uma pergunta feita pela jornalista Jessica Bennet na introdução de seu livro: nós mulheres ainda precisamos do feminismo em 2014?

Lynn Povich – Para dar uma resposta curta, a resposta é sim: precisamos do feminismo hoje. Creio que a melhor definição para feminismo é a busca de oportunidades iguais para homens e mulheres. E ainda estamos tão distantes disso. Se olharmos particularmente para o jornalismo, vemos muito progresso desde os anos 1970. Mas ainda há várias áreas em que as mulheres jornalistas não têm o sucesso que deveriam ter. Certamente há mulheres em postos de alta chefia e trabalhando em áreas que não lhes eram permitidas nos velhos tempos, cobrindo guerras, dirigindo páginas editoriais e cobrindo o presidente e não apenas a primeira-dama. Mas quando você olha para o topo da liderança, o nível mais alto, ainda há muito poucas mulheres lá. E se você olha para o número de fontes e de matérias assinadas, e o número de pessoas citadas nas matérias, seja nos jornais ou no meio online, as mulheres são provavelmente um terço das fontes e das matérias assinadas. Logo, ainda há muito trabalho a fazer, seja para jornalistas ou as demais carreiras, pelo menos nos Estados Unidos.

Como você compara a luta das mulheres por igualdade de gênero nos anos 1960, durante a época retratada em seu livro, e agora? Por que o movimento que você liderou deu certo, vencendo uma causa trabalhista contra a revista Newsweek?

L.P. – Naquela época a discriminação existente no mercado de trabalho e especificamente na Newsweek era sistemática, porque as mulheres eram contratadas apenas para determinadas funções. Isso também acontecia na Time. Não se tratava apenas de uma mulher, mas de um grupo de 46 jornalistas entre redatoras e pesquisadoras. Resolvemos nos organizar para enfrentar essa forma sistemática de discriminação. E posteriormente o editor da Newsweek me disse que ainda que eles fossem muito liberais em relação aos direitos civis e fossem contra a guerra do Vietnã, eles próprios passaram a reconhecer que estavam discriminando uma classe inteira de pessoas no ambiente de trabalho. Acho que em grande medida fomos bem sucedidas porque movemos um processo conjunto contra a revista. Se fosse um processo movido por apenas uma pessoa, ela seria muito mais vulnerável, correndo riscos maiores de ser punida. Além disso, as mulheres eram muito ativas naquela época em reivindicar seus direitos. O movimento feminista apareceu em seguida às manifestações pelos direitos civis e antiguerra do Vietnã. E nos beneficiamos da defesa da igualdade de direitos, da pauta dos direitos civis, e do questionamento à autoridade, presente no movimento antiguerra do Vietnã. Logo, todo esse caldo político ajudou as pessoas a entenderem nosso movimento mais rapidamente.

De que forma a revolução digital tem impactado a carreira das mulheres jornalistas nos Estados Unidos?

L.P. – De forma geral, as mulheres jornalistas nos EUA estão em boa situação. Estamos em todos os setores da sociedade: negócios, política, relações internacionais, todos os temas que não podíamos cobrir antes. A questão principal é incluir fontes que sejam mulheres em matérias de jornal, TV e websites. E também aumentar o número de mulheres editorialistas. E tampouco conseguimos lidar com a questão de imagem das mulheres. Já contamos com um bom número de mulheres líderes em empresas jornalísticas. Por mais que seja difícil chegar ao topo, as mulheres têm mostrado que podem desempenhar essas tarefas.

Mas uma questão importante para mulheres no topo da carreira é que, se você tem filhos, muitas delas que têm boa formação e são inteligentes o bastante para comandar redações, não querem necessariamente o posto porque elas não conseguem enxergar como seriam ao mesmo tempo uma boa chefe e uma boa mãe. E isso acontece em função da forma com esses postos de trabalho são estruturados. Creio que uma das principais questões que enfrentamos, não apenas em jornalismo, mas em toda parte, é a exigência da dedicação permanente, via conexão digital. Acho importante que isso seja repensado para que homens e mulheres possam ter o direito de dar conta do trabalho e de serem bons pais. A tecnologia deveria ter tornado nossas vidas melhores, e não mais piores. Essa é uma das principais questões que enfrentamos.

Como as jornalistas devem combater o preconceito de gênero nas redações hoje? E como se certificar de que uma suspeita sobre baixos salários é de fato discriminação e não o resultado de baixo desempenho?

L.P. – Sempre digo às pessoas que a primeira coisa é entender se há um padrão discriminatório. A questão envolve somente você: seria o caso de uma atitude discriminatória pessoal de seu chefe contra você? Ou será que as melhores pautas iriam apenas para os homens? Será que apenas os homens são promovidos? Será que homens com as mesmas qualificações que as mulheres estão sendo contratados e promovidos [enquanto elas não]? Se existe um padrão, então fica mais fácil de informar a administração da empresa sobre a questão, o que não seria o caso se eu dissesse: “Meu chefe está me assediando ou me discriminando”. Se você acredita em ambas as possibilidades, e você acredita que pode procurar o departamento de recursos humanos – porque a maioria das empresas americanas têm regras antidiscriminação – é o caso de fazer isso. Mas se você for tomar uma atitude individual, o melhor é fazer isso confidencialmente, porque você não quer ser punida por isso.

Se por alguma razão você não confia nos mecanismos internos da sua empresa para lidar com a questão, ou não tem um mentor com quem conversar a respeito, então o melhor é buscar um advogado especializado em causas trabalhistas. E eles podem escrever uma carta para a administração de sua empresa. Talvez eles nem precisem mencionar o seu nome. Talvez eles só precisem dizer: você já notou que das últimas seis promoções, cinco foram para homens? Muitas vezes as pessoas na alta administração de uma empresa simplesmente não percebem o que está acontecendo nos demais níveis. E às vezes a discriminação acontece em níveis médios de gerência, sem que o topo da empresa tenha conhecimento de que está desobedecendo a lei ou as regras internas da empresa.

As mudanças trazidas pelas mídias são mais favoráveis ou prejudiciais às mulheres em relação aos novos formatos e tipo de cobertura?

L.P. – Trabalhei no site MSNBC.com no começo da internet, de 1996 a 2001. Os primeiros sites noticiosos e empresas de internet eram bastante dominadas por engenheiros de computação e tecnólogos. Acho que isso mudou muito e o que acontece agora com o lado tech do jornalismo envolve não apenas aptidões tecnológicas, mas também mídias sociais. E acho que nesse nicho as mulheres podem obter vantagens que não existiam no começo da internet, porque as mídias sociais falam diretamente aos pontos fortes das mulheres, como as questões sociais, de se relacionar em redes e ao hábito de compartilhar informação. Creio que as mulheres estão se saindo melhor em mídias sociais do que no começo do mundo online do jornalismo. Mas uma das questões para as mulheres hoje é aprender habilidades técnicas. Tudo hoje no jornalismo se dá nas chamadas multiplataformas. E é preciso entender toda essa tecnologia. E acho que as mulheres devem estudar e aprender cada vez para se posicionarem melhor no mercado de trabalho. Além de ser um desafio educacional, essas habilidades permitem às mulheres ir além de apenas reportar e editar matérias.

Como as mulheres devem lidar com uma face mais benevolente do preconceito de gênero, quando se trata de editores mais velhos protegerem jovens repórteres por seus atributos físicos e não pela qualidade do trabalho jornalístico?

L.P. – Isso aconteceu com a repórter Jesse Ellison, da Newsweek, por volta de 2007. [Um editor da revista disse que ela era tão atraente que deveria “encontrar uma forma de usar sua sexualidade a seu favor”.] Acho que tanto homens quanto mulheres fisicamente atraentes contam com uma vantagem talvez injusta na profissão. Simplesmente as pessoas gostam de estar por perto de quem é bonito. Acho que no caso de Jesse, o que a chateava era o fato de ela se perguntar se iria progredir pelo talento ou pela beleza. Mas acho que a maioria das pessoas atraentes usa tal qualidade em benefício próprio. E não acho que isso seja negativo se esse profissional tem talento genuíno. E esse era o caso de Jesse. Ela se saiu bem porque era uma redatora talentosa. Logo não se trata de uma questão simples, de preconceito ligado à beleza em si, porque de certa maneira é injusto que tanto homens quanto mulheres sejam mais atraentes do que os demais. A questão real é o talento deles. Logo não creio que esta seja uma questão central em termos de preconceito de gênero.

Você acha que mulheres devem ser tratadas igualmente como os homens ao cobrir guerras, em termos de protocolos militares e de exposição ao risco?

L.P. – Acho que sim. E se você ligar a TV, e é nesse meio em que de fato enxergamos a cobertura, há muitas mulheres, sejam repórteres, fotógrafas ou produtoras. E não vejo nenhuma diferença de tratamento em geral. E quando se conversa com mulheres que são correspondentes internacionais, elas geralmente dizem que tentam retratar a face humana em suas coberturas de guerra, talvez mais do que os homens, o que não significa dizer que eles não façam também. Acho que os homens cobrem também esse lado, mas em geral as mulheres querem tratar sobre o que acontece com a vida das pessoas, em contraste com apenas o lado militar ou político.

Em termos dos riscos a que homens e mulheres correspondentes de guerra se submetem, creio que são eles próprios que decidem aonde ir. Se eles não querem ir, eles não vão. Mas se de fato querem, são treinados em questões de segurança para saber como se comportar em situações difíceis. Logo, essas mulheres são correspondentes de guerra porque elas querem estar lá. E as empresas jornalísticas não as tratam necessariamente de forma diferente. São lugares perigosos para todos os sexos. E as empresas vão enviar correspondentes com o mesmo tipo de treinamento para homens e mulheres. Eu me recordo da cobertura da Primavera Árabe em que as mulheres repórteres eram atacadas apenas por serem mulheres. Se as empresas de mídia mudaram sua política em relação a isso, eu não sei.

Você poderia comentar sobre o poder da mentoria e do exemplo para jovens mulheres jornalistas? Me refiro especificamente aos conceitos de “falta de confiança” e de “falta de ambição,” que a autora Sheryl Sandberg menciona no livro Faça Acontecer – Mulheres, Trabalho e a Vontade de Liderare que você comenta em seu livro.

L.P. – Primeiro acho que Sheryl Sandberg deve ser aplaudida por ser uma mulher muito poderosa no mundo corporativo. E ela fala sobre ser feminista e de questões femininas de forma inteligente. Muito poucas CEOs ou diretoras de grandes empresas fazem isso. Logo, sou muito grata a ela. E ela trata dessa falta de confiança. Acho que as mulheres são muito ambiciosas, mas a questão preocupante é a confiança. Não sei bem por quê. Porque muitas mulheres são altamente qualificadas, vão muito bem na escola. Mas quando chegam ao mundo do trabalho, começam a ver obstáculos que nunca tiveram antes na vida. E acho que a Sheryl está certa em dizer que as mulheres devem se pressionar para avançar um pouco mais, que elas devem ser mais afirmativas. Isso significa ser menos tímidas, levantar a mão para aceitar uma tarefa desafiadora e de se sentar à mesa, e não fora dela, quando for participar de uma reunião importante.

Acho que esse tipo de conselho é muito útil para mulheres mais jovens. Porque as mulheres que já estão há um bom tempo no mercado de trabalho costumam ter confiança. Sheryl decidiu não lidar com barreiras institucionais ou sistemáticas em seu livro – questões sexistas que existem e sobre as quais ela fala – mas resolveu focar nessa área mais pessoal. E ao final do livro existem 20 ótimas páginas dedicadas a pesquisas sobre preconceitos conscientes e inconscientes do mundo corporativo. Em comparação com o que existia na Newsweek no tempo do processo, a diferença é que hoje enfrentamos um tipo de preconceito que é mais inconsciente, mais difícil de detectar e de apontar o dedo contra. Trata-se de atitudes sobre as quais não se pode legislar. E os próprios homens não se dão conta disso.

Qul a sua opinão sobre as celebridades de Hollywood que promovem igualdade de gênero para a ONU, como Emma Thompson? E o que acha do recente discurso dela na Assembleia Geral da ONU chamado “Ele por Ela”, em que conclamou os homens a se aliarem à causa da igualdade de gênero?

L.P. – Sempre acreditei que o movimento das mulheres deveria incluir, e de fato inclui, os homens. Em questões como a licença maternidade, os homens também se beneficiaram com a licença paternidade. No caso de uma jornada flexível de trabalho, os homens também se beneficiam disso. Na minha época, os homens também integravam o movimento feminista e acho que hoje particularmente os homens mais jovens estão muito mais interessados em se envolver diretamente na educação dos filhos do que, por exemplo, o meu pai. Sempre encorajo as mulheres a encampar essas questões trabalhistas não apenas como femininas. Logo, é muito importante ter alianças com os homens. Acho que apenas a questão da gravidez é puramente feminina. E acho que é importante, sobretudo para gente jovem, que estrelas de Hollywood se engajem nesta causa. Elas são muito influentes entre os mais jovens. Acho muito importante o posicionamento de Beyonce e Lena Dunham, todas essas celebridades. Todas elas estão dizendo “sou uma feminista”, o que é uma coisa boa. É uma vergonha que por tanto tempo a palavra feminista não tenha sido uma coisa positiva.

Por que as conquista da igualdade de gênero são tão lentas? A maioria das metas estabelecidas pela ONU durante a IV Conferência Internacional das Mulheres, realizada em Pequim, em 1995, ainda são uma utopia. Elas se referem a questões básicas, como acesso à educação, oportunidades e o controle sobre o próprio corpo e sobre a fertilidade.

L.P. – Novamente estamos falando de questões relacionadas a atitudes em oposição a leis. E em muitos países temos culturas políticas, religiosas e trabalhistas em que mulheres têm alguns papéis determinados. E mudar isso é difícil. É duro para as mulheres nesses países entenderem o que poderiam e deveriam estar fazendo. E depois da Primavera Árabe, alguns países da região [como a Jordânia] fizeram mudanças progressistas, aumentando a participação feminina no Parlamento. Mas em muitos países tem havido uma grande luta para que as mulheres tenham direito à educação, para não dizer ao direito ao trabalho e aos rendimentos. E no caso de países como o Afeganistão, depois da conquista de certos direitos, as mulheres se veem ameaçadas por facções ultraconservadoras como o Talibã.

Ao olhar para o globo é muito difícil enxergar onde estão os compromissos verdadeiros dos países em promover e assegurar direitos femininos. Os Estados Unidos, por exemplo, são um dos poucos países que não assinaram a Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres [CEDAW, na sigla em inglês]. É muito difícil generalizar. E uma coisa importante que a ONU faz é apresentar as ideias, e eles tentam lançar uma agenda com padrões internacionais, o que coloca enormes desafios para todos e para cada país. E isso se transforma numa grande bagunça política.

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Angela Pimenta é jornalista

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