Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CADERNO DA CIDADANIA > HORROR EM TLATLAYA E IGUALA, MÉXICO

O silêncio e o massacre

Por Jorge Ramos Ávalos em 18/11/2014 na edição 825
Reproduzido do Canal Ibase, 10/11/2014, publicado originalmente no jornal mexicano Reforma; intertítulo do OI

“No creo que las imágenes puedan mentir. He visto noticieros, fotografias…” (Octavio Paz, La Noche de Tlaltelolco)

Não se pode esconder os mortos do México. Os massacres de Tlatlaya e Iguala revelam o pior do país: os militares matando civis e policiais matando estudantes. O México é a barbárie. E o governo do presidente Enrique Peña Nieto quase mudo, paralisado, passa como se a culpa não fosse sua.

Após o desaparecimento dos 43 estudantes em Iguala, Peña Nieto convocou uma entrevista coletiva com a imprensa mexicana e não permitiu que repórteres fizessem algumas perguntas. Na verdade, ele não deu uma única entrevista coletiva (do tipo aberta, sem perguntas combinadas) desde que chegou ao poder. Erro e medo.

O silêncio é a política oficial. O governo tem uma estratégia de comunicação absurda e não fala publicamente sobre os crimes ou sobre narcotráfico. Portanto, esta é uma crise criada pela presidência. Quase dois anos foram gastos escondendo números e dizendo que nada estava errado. Em seguida, eles (o governo) exploram esses massacres e valas comuns com corpos em todos os lugares aparecem. Esconder a cabeça na areia não apaga a realidade.

E a realidade é que em termos de segurança, as coisas são piores com Peña Nieto do que com seu antecessor, Felipe Calderón. Há mortos e crimes em todos os lugares.

Incompetente, negligente

Dois detalhes: em 2013, o primeiro ano de Peña Nieto na presidência, mais famílias foram vítimas de crimes (33,9%) do que nos últimos dois anos de Calderon (32,4% em 2012 e 30,4%, em 2011). A mais recente pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Estatística e Geografia (INEGI) é aterrorizante: 10.700.000 domicílios tinham pelo menos uma vítima do crime. Além disso, em 2013, 131.946 sequestros – 25% a mais do que foram relatados em 2012. Isso não é para salvar o México.

Peña Nieto quis se vender, dentro e fora do país, como um presidente reformista. Mas a capa da revista Time com a manchete “Saving México” foi tão prematura quanto dar a Barack Obama o Prêmio Nobel da Paz antes dos atentados à Síria. Enquanto assassinato e sequestro mexicanos, não importa quantas reformas proponha Peña Nieto.

Peña Nieto tem problema de legitimidade. Muitos mexicanos acreditam que ele ganhou a presidência com armadilhas, com muito mais dinheiro do que os seus adversários e, por isso, não merece estar em Los Pinos. A única maneira de combater essa falta de legitimidade é com resultados, é governar bem. Mas, obviamente, ele ainda não conseguiu.

Como atrair empresas estrangeiras para investir em petróleo e telecomunicações no país quando o exército e a polícia, em vez de cuidar de seus cidadãos, mata-os? Dinheiro procura segurança, não morte.

O massacre de Tlatelolco, em 1968, e sua total impunidade – ninguém nunca foi preso ou condenado pela matança – só foi possível graças à cumplicidade de muitos “jornalistas” que nunca se atreveram a ser, de fato, jornalistas. Mas, graças a Elena Poniatowska e seu livro A Noite de Tlatelolco nós sabemos o que aconteceu. Hoje existem muitas Elenitas no Twitter, Facebook e Instagram, ao lado de jornalistas corajosos nas mídias comerciais, que não deixarão que os responsáveis pelos massacres de Tlatlaya e Iguala vivam tranquilamente. O silêncio operou em 1968, mas não funciona mais em 2014.

O México apodreceu. Estudantes de todo o país, com passeatas e protestos, já não acreditam nas versões oficiais. As linhas são marcadas: o governo, o exército e a polícia não estão com os estudantes, nem com as vítimas de violência, ou suas famílias. O México foi quebrado em Iguala. Peña Nieto não conseguiu lidar com a questão da real insegurança da população. Antes do massacre, o governo foi incompetente e negligente. Seu silêncio ao invés de comunicação é um sinal de que ele não sabe o que fazer. Qual é o plano para que esses massacres não aconteçam novamente? Não ouço nada.

O silêncio é muitas vezes o pior crime.

******

Jorge Ramos Ávalos, do Reforma (México)

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