Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > ECOS DO TERROR

7 de Janeiro

Por ‘FSP’ em 13/01/2015 na edição 833
Editorial reproduzido da Folha de S.Paulo, 8/1/2014; intertítulo do OI

Dizendo ter vingado o profeta Maomé, assassinos encapuzados entram num carro preto e aceleram rumo a um destino desconhecido. No vídeo, logo divulgado, é possível ver a pressa brutal com que fuzilaram um guarda, já caído na calçada, antes de fugir.

Concluía-se assim o atentado que matou 12 pessoas, entre jornalistas, cartunistas e policiais, na sede do semanário satírico Charlie Hebdo, na manhã desta quinta-feira, 7 de janeiro de 2015, em Paris.

A publicação estava marcada havia tempos pelos seguidores do fanatismo islâmico. Em 2011, um incêndio criminoso atingia sua sede, buscando punir os autores de algumas caricaturas do profeta.

Ninguém, na Redação, se intimidou. Ao contrário, seguidas edições se dedicaram a condenar, pelo sarcasmo, a estreiteza e a violência dos fundamentalistas. Seu diretor, Stéphane Charbonnier, constava de uma “lista de procurados” da al-Qaida; hoje está morto, ao lado de um dos mais conhecidos chargistas do mundo, Georges Wolinski, fuzilado aos 80 anos.

Os responsáveis pelo atentado sem dúvida terão percebido o quanto o humor é importante para a defesa da liberdade e da razão.

Luto e esperança

O terrorismo muitas vezes se faz como pura vingança, a exemplo do morticínio de poucos dias atrás numa escola paquistanesa onde estudavam filhos de militares engajados na repressão aos extremistas.

No massacre em Paris, acrescentam-se objetivos diversos. Impunha-se silenciar uma publicação que atuava como fonte incansável de desmoralização do que as religiões podem ter de mais triste, de mais irracional, de mais homicida.

Foi pela zombaria, aliás, que o Iluminismo conseguiu várias de suas brilhantes vitórias contra a intolerância dogmática da Igreja Católica no século 18.

Os panfletos de Voltaire, a sorridente relativização das tradições na pena de Montesquieu, o urbano ceticismo de Hume, tudo contribuiu para que se tornasse mais difícil de sustentar – porque tola, porque inútil, porque cega, porque ridícula – a obediência literal a um sistema de crenças advindo de uma época de medo e ignorância.

A estreiteza católica foi vencida; recuperou-se, da religião cristã, o que sempre teve de pacificador, caritativo e generoso. Hoje, o que possa haver de pacífico, arejado e bom no islamismo se vê, a cada momento, ameaçado por esse exército de bárbaros.

Num ambiente em que alguns jovens ocidentais se sentem fascinados pelo radicalismo muçulmano, o esforço e a coragem exigidos para desarmar o obscurantismo passam, mais uma vez e como sempre, pela liberdade de expressão e – mais do que nunca – pelo talento de troçar, de brincar, de rir.

Neste atentado que, conforme frisam alguns comentaristas, surge como o “11 de Setembro” da imprensa mundial, é ilustrativo que a vítima tenha sido uma publicação satírica.

A indignação, a revolta, o luto e as lágrimas se impõem. Mas que não se perca o sorriso. Tristes são os assassinos. Nosso é o sorriso da liberdade, da esperança e da razão.

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