Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > ECOS DO TERROR

As lições do massacre para a América Latina

Por Catalina Botero em 13/01/2015 na edição 833
Reproduzido do Globo.com, 10/1/2015; intertítulo do OI

A sátira ácida de “Charlie Hebdo” não era particularmente do gosto de muitas pessoas. No entanto, não há dúvida de que eles sabiam revelar os limites e a intrínseca contradição do fanatismo político ou religioso. Sua arma era a irreverência. O fanatismo precisa da reverência. É incompatível com a desobediência, a exposição ao ridículo, a chacota. O riso mina a base de medo e disciplina sobre a qual se sustenta toda forma de domínio autoritário. Por isso, buscam eliminar os que fazem que as pessoas riam do poder.

De imediato, a França foi para as ruas. Quem saiu indignado não o fazia por ser leitor do semanário. Algumas pessoas achavam desnecessária ou inclusive contraproducente a sátira desta natureza. Mas saíram em sinal de respeito aos que foram assassinados por exercer sua liberdade e para defender o direito a se expressar sem medo como base de uma sociedade democrática.

Várias lições surgem do devastador massacre. Em primeiro lugar, nenhuma das duas soluções extremas propostas é útil para frear esta forma de violência. Nem aumentar descomunalmente a segurança e debilitar as liberdades pode evitar ataques terroristas seletivos, nem proibir este tipo de sátiras às ideias ou às instituições vai gerar uma melhor e mais forte democracia. Pelo contrário, estas reações histéricas de uma sociedade dominada pelo medo são justamente o que busca o fundamentalismo. Estas opções terminam por aumentar sua base de apoio, por trair os princípios nos quais se baseia uma sociedade aberta.

Com medidas como estas, Putin encarcerou as Pussy Riot; o governo do Equador ordenou que Bonil, um importante caricaturista, “retificasse” uma caricatura “ofensiva” e cobrou do jornal vários milhares de dólares por não censurá-la; importantes caricaturistas venezuelanos têm sido submetidos a processos penais ou demitidos; e o governo totalitário da Coreia do Norte ameaçou com “represálias sem piedade” por um -péssimo – filme que considerou ofensivo.

Muitos artigos têm saído sobre o fundamentalismo islâmico e sobre o debate em torno da blasfêmia. No entanto, este pensamento fundamentalista, não liberal e antidemocrático é lamentavelmente mais generalizado do que aparenta. Basta ver a violência gerada pelos movimentos fascistas e xenófobos na Europa. Daí surge uma segunda lição.

Valores republicanos

Esse mesmo fundamentalismo se manifesta em nossa região quando é assassinado um membro da comunidade LGBTI. Ou cada vez que um líder político divide as sociedades entre cidadãos “decentes” que estão com o partido do governo e “os outros”, identificados como inimigos e excluídos da narrativa oficial. Os casos da Colômbia, com o assassinato durante décadas de líderes de esquerda por paramilitares, ou de Venezuela e Equador, com a violência física e institucional contra os opositores e meios independentes, são justamente manifestações dessa gravíssima forma de fundamentalismo antidemocrático.

Hoje em não poucos países, os governos tentam construir identidades mais em torno destas ideias fundamentalistas “amigo-inimigo” que em torno de uma ética civil, republicana e democrática, fundada no pluralismo, na liberdade e na igualdade. Valores primordiais de qualquer sistema democrático, pelos quais a França saiu às ruas na quarta-feira, e sairá novamente amanhã.

Se os defensores da democracia e dos mínimos valores republicanos que permitem a proteção das liberdades, a defesa das minorias e os controles de poder, não forem capazes de articular globalmente em defesa destes valores universais, estarão alimentando por omissão o germe fundamentalista.

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Catalina Botero foi relatora da OEA para Liberdade de Expressão de 2008 a 2014

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