Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CADERNO DA CIDADANIA > ECOS DO TERROR

Eu não sou ‘Charlie Hebdo’

Por David Brooks em 13/01/2015 na edição 833
Reproduzido do Estado de S.Paulo/ The New York Times, 10/1/2015, tradução de Anna Capovilla

Os jornalistas do Charlie Hebdo estão sendo celebrados como mártires, com todo o direito, em nome da liberdade de expressão. No entanto, encaremos os fatos: se eles tivessem tentado publicar seu semanário satírico em qualquer um dos câmpus universitários americanos nos últimos 20 anos, sua iniciativa não teria durado 30 segundos. Associações de alunos e de professores os teriam acusado de usar um discurso que incitava ao ódio. A governo cortaria sua verba e fecharia a publicação.

A reação ao ataque de Paris revela que grande parte da sociedade se apressa em endeusar os que ofendem o ponto de vista dos terroristas na França, mas é muito menos tolerante com os que ofendem seus próprios pontos de vista em seu país.

Basta olharmos para todas as pessoas que reagem excessivamente a agressões muito menores que ocorrem em um câmpus universitário. A Universidade de Illinois demitiu um professor que dava aula sobre a posição da Igreja Católica na questão da homossexualidade. A Universidade de Kansas suspendeu um professor que usou termos duros em um tuíte contra a Associação Nacional do Rifle. A Universidade Vanderbilt criticou um grupo cristão que insistia que a instituição fosse dirigida por cristãos.

Os americanos talvez elogiem o Charlie Hebdo pela coragem de publicar cartuns que ridicularizam o profeta Maomé, mas, quando a ativista holandesa Ayaan Hirsi Ali é convidada para visitar o câmpus, há frequentes pedidos para impedir que ela fale em público.

Portanto, este deveria ser um momento de reflexão. Embora estejamos profundamente abalados pelo massacre dos cartunistas, nesta hora é importante que tenhamos uma visão menos hipócrita em relação às nossas personalidades controvertidas, provocadores e chargistas.

Acho que a primeira coisa a fazer é considerar que não é correto que a maioria das pessoas declare: “Je Suis Charlie”. De fato, a maioria não se dedica ao tipo de humor deliberadamente ofensivo que é a especialidade do semanário. Talvez a gente tenha começado dessa maneira. Aos 13 anos, parece audacioso e provocador chocar a burguesia, atacando diretamente as autoridades, ridicularizando a crença religiosa dos outros.

No entanto, após algum tempo, isso parece pueril. A maioria das pessoas passa a se preocupar com visões mais complicadas da realidade e a ter uma atitude mais compreensiva em relação aos outros. Ridicularizá-los se torna menos engraçado à medida que adquirimos mais consciência de nossas atitudes ridículas.

Em geral, procuramos mostrar um mínimo de respeito por pessoas de diferentes credos e convicções, e entabular conversações ouvindo e não insultando. Mas, ao mesmo tempo, a maioria sabe que os provocadores e outras figuras de destaque têm uma função pública muito útil. Os chargistas expõem nossa fraqueza e vaidade quando nos sentimos orgulhosos. Eles minimizam o exibicionismo exagerado dos bem-sucedidos.

Nivelam a desigualdade social rebaixando os poderosos. Quando são eficientes, eles nos ajudam a encarar nossas idiossincrasias comunitariamente, pois rir é uma das experiências que mais nos fazem sentir unidos.

Além disso, os que usam a provocação e a sátira expõem a estupidez dos fundamentalistas. Eles são pessoas que levam tudo ao pé da letra. São incapazes de ter pontos de vista variados. São incapazes de perceber que, embora sua religião seja digna do mais profundo respeito, é também verdade que a maioria das religiões é um tanto bizarra. Os chargistas expõem os que são incapazes de rir de si mesmos e ensinam os outros a fazê-lo.

Distinções

Em suma, refletindo sobre os que provocam e insultam, queremos manter os padrões de civilidade e respeito deixando, ao mesmo tempo, espaço para as pessoas criativas, desafiadoras, que não se deixam inibir pelas boas maneiras e pelo bom gosto.

Se tentarmos modificar esse delicado equilíbrio por meio de leis, de normas implícitas do discurso e proibindo a livre expressão, acabaremos aplicando uma censura grosseira e uma conversação estrangulada. Quase sempre é equivocado tentar suprimir o discurso, erigir códigos e desconvidar os oradores.

Felizmente, as boas maneiras são mais maleáveis e flexíveis do que os códigos e as leis. A maioria das sociedades conseguiu preservar padrões de civilidade e respeito, mantendo, ao mesmo tempo, espaços abertos para os que são engraçados, incivis e ofensivos.

As pessoas que leem Le Monde ou os órgãos do establishment, sentam-se à mesa dos adultos. Os piadistas, os fanáticos religiosos e pessoas como Ann Coulter e Bill Maher sentam-se à mesa das crianças. A eles não é concedida total respeitabilidade, mas são ouvidos, pois, à sua maneira, às vezes dizem coisas necessárias que ninguém diz.

Em outras palavras, as sociedades sadias não proíbem o discurso, mas concedem diferentes graus de prestígio a pessoas diferentes. Sábios e ponderados estudiosos são ouvidos com maior respeito. Os chargistas são ouvidos com um respeito meio confuso, enquanto racistas e antissemitas são ouvidos com o filtro da ignomínia. As pessoas que querem ser ouvidas com atenção precisam merecê-lo por sua conduta.

O massacre do Charlie Hebdo deveria ser uma ocasião para acabar com as normas implícitas do discurso. E nos lembrar de que devemos ser legalmente tolerantes com as vozes ofensivas, mesmo que estejamos estabelecendo uma distinção social.

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David Brooks é colunista do New York Times

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