Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > ENTREVISTA / MAUD CHIRIO

Historiadora teme que ‘obsessão racista tome conta da sociedade’

Por Mário Magalhães em 13/01/2015 na edição 833

Reproduzido do blog do autor, 9/1/2015; título original: “Historiadora francesa teme que ‘obsessão racista tome conta da sociedade’”

“O perigo é muito grande.”‘ Essa é a análise da historiadora francesa Maud Chirio sobre a possibilidade de que o sentimento contra imigrantes recrudesça em seu país depois do atentado terrorista que matou 12 pessoas na quarta-feira. Existe um “perigo gigantesco de amálgama entre muçulmanos e fanáticos islâmicos”, disse ela em entrevista ao blog. “Que não caiamos, enquanto nação, nessa armadilha monstruosa.”

Maud, de 34 anos, é professora associada da Universidade Paris-Est Marne-la-Vallée. Sua especialidade é história contemporânea do Brasil. Obteve o doutorado na Universidade Paris I (Panthéon-Sorbonne) com a tese “A política dos militares: Mobilizações e revoltas de oficiais sob a ditadura brasileira (1961-1978)”. O trabalho resultou no livro publicado aqui como A política nos quartéis (Zahar, 2012). A historiadora é coautora de um livro lançado na França em 2013 pela editora Belin, Révolutions: Quand les peuples font l’histoire (Revoluções: Quando os povos fazem a história).

Além de compartilhar suas considerações sobre o que acontece na política da França, Maud deu um depoimento comovente sobre o impacto das mortes na alma dos franceses. Falou da “impressão de ter perdido vizinhos, amigos, parte da nossa cultura, da nossa infância e da nossa formação política e humana”. Cabu, no noticiário, era um grande cartunista. Para a geração de Maud, era também o apresentador de um programa infantil a que ela cresceu assistindo na TV.

“Eu não sei se meu pensamento está sereno o suficiente nesses dias, pois esses assassinatos me abalaram muito. Estou, de um lado, cercada de medos, às vezes contraditórios. Medo de que a obsessão racista acabe tomando conta da sociedade, que a democracia francesa conheça uma deriva de segurança parecida com a evolução repressiva da democracia americana após o 11 de setembro, que o fanatismo religioso manipule mais e mais crianças francesas que a sociedade não conseguiu integrar, que nosso modelo de laicidade não sobreviva a isso… Mas não consigo, por outro lado, não ter a esperança de que esses eventos sejam a ocasião de lembrarmos – sejamos nós muçulmanos, cristãos ou ateus, filhos, netos ou bisnetos de imigrantes – que queremos mesmo viver juntos aqui, numa sociedade livre e tolerante.”

Leitora há 15 anos do jornal satírico Charlie Hebdo, cuja redação foi dizimada, a historiadora escolheu duas primeiras páginas que pensa resumirem bem o espírito da publicação.

Elas estão no pé da entrevista, feita por e-mail e com Maud Chirio escrevendo perfeitamente em português e me poupando de barbeiragens de tradução do francês.

“Um ataque indiscutível à liberdade de imprensa”

Qual o impacto nas ruas, no cotidiano da população francesa, do atentado contra o Charlie Hebdo?

Maud Chirio – No início houve um sentimento de incredulidade e estupor. As pessoas ficaram penduradas às rádios, aos sites de notícias, às redes sociais, descobrindo aos poucos o número de mortos, a violência e a eficácia trágica do atentado. Só se falava disso nos cafés, nas ruas, no metrô. Eu estava na capital, mas imagino que o ambiente estava parecido no resto do país.

As pessoas se ligavam para trocar informações. Em Paris, para saber se um amigo morando perto do prédio de Charlie tinha ouvido alguma coisa, se tal conhecido tinha sido ferido. No meu caso, também para não me sentir só.

Tentando analisar o ambiente geral e as minhas próprias reações, acho que a enormidade do choque veio, primeiro, da amplitude do atentado, um massacre como a França não tinha vivido havia meio século. Segundo, do fato de um jornal ter sido o alvo, ameaçando simbolicamente a liberdade de imprensa. Não que Charlie seja um dos principais jornais franceses, longe disso. É um jornal de esquerda, provocador, que não se dirige a um público muito amplo. As caricaturas de políticos, artistas e figuras religiosas que povoam suas páginas, humorísticas e muitas vezes pseudo-pornográficas, incomodam e desagradam a muita gente.

Mas está claro para a esmagadora maioria das pessoas que Charlie tem um papel fundamental na nossa democracia, que é fazer uso da liberdade de expressão também quando o resultado incomoda certos setores da sociedade e não é consensual.

O fato de as religiões serem alvos privilegiados das piadas e caricaturas desse tipo de imprensa é algo que não é sempre fácil de entender e aceitar para quem é de fora. Mas vem de uma longa tradição nossa, desde as Luzes, que colocaram religiões não só como um sentimento íntimo, mas também com dogmas que podiam ser criticados e instituições de poder que se podia combater. Daí nasceu uma tradição anticlerical e às vezes antirreligiosa, que frequentemente utilizou a arma do humor para se expressar.

Às 14 horas da quarta-feira, começaram a ser divulgadas as identidades das vítimas. Isso foi provavelmente o maior choque emocional: quem tinha morrido eram pessoas muito famosas e populares, que constituíam referências políticas, culturais e até afetivas para diversas gerações de franceses, em particular de esquerda. Assim, Cabu, de 77 anos, era não só um caricaturista político, autor de quadrinhos humorísticos e crônicas sociais, mas também o apresentador de um programa infantil extremamente popular nos anos 80, na televisão pública. Eu mesmo fui criada com ele, assim como qualquer pessoa que tem entre 30 e 45 anos hoje. Wolinski, de 80 anos, grande figura contestatária dos anos 70. Bernard Maris, 69, um dos principais economistas críticos na cena midiática francesa. Tignous e Charb, cartunistas mais novos, que retomavam aquela tradição de troça radical, alegre e impertinente oriunda do movimento de 68.

O espanto, a dor, o choque que estamos sentindo são, acho, consequência de tudo isso: o banho de sangue, o ataque indiscutível à liberdade de imprensa, e também a impressão de ter perdido vizinhos, amigos, parte da nossa cultura, da nossa infância e da nossa formação política e humana.

“Um produto do obscurantismo e da violência fascista”

Você acredita que o morticínio fará aumentar o sentimento contra imigrantes e árabes na França?

M.C. – Acho que o perigo é muito grande. O clima político na França já está muito pesado. Os imigrantes, africanos e/ou muçulmanos em particular, são apresentados como os bodes expiatórios sistemáticos por um partido em ascensão eleitoral fulgurante, a Frente Nacional, de Marine Le Pen (partido mais votado nas últimas eleições europeias).

Grupos políticos sempre mais violentos, “intelectuais” e jornais conservadores contribuíram muito para esse clima nojento. Até alguns anos atrás quem votava pela FN dificilmente confessava isso em público. Agora, quase em todo o território, a fala está liberada, e os discursos xenófobos e racistas podem ser feitos em praça pública.

Os árabes e os muçulmanos já estão sendo acusados por essas correntes de roubar os empregos dos “franceses da gema” e de desnaturar a cultura gaulesa: só faltava convencer o eleitor que existe, também, um perigo terrorista no próprio solo por causa deles.

Acho (ou espero) que a maioria da classe politica não compactua com as teses da Frente Nacional. Que o mundo associativo e sindical, a melhor parte da mídia tomem consciência do perigo gigantesco deste amálgama entre muçulmanos e fanáticos islâmicos. E que não caiamos, enquanto nação, nessa armadilha monstruosa.

Quem falou muito bem disso foi o advogado e intelectual francês Robert Badinter, que foi o ministro da Justiça que aboliu a pena de morte em 1981. Ele escreveu nesta quinta-feira [8 de janeiro] no jornal Libération: “Devemos pensar nessa hora na armadilha política em que os terroristas querem que nós caiamos. Aqueles que gritam Allahou akbar [Deus é o maior] assassinando outros homens estão traindo por fanatismo o ideal religioso que reivindicam. Eles esperam também que a raiva e a indignação que sublevam a nação encontrem, em certas pessoas, sua expressão numa rejeição e numa hostilidade contra todos os muçulmanos da França. Isso criaria um abismo entre os muçulmanos e os outros cidadãos. Acender o ódio entre os franceses, suscitar pelo crime a violência intercomunitária, isso que é o objetivo deles, além da pulsão mortífera que leva esses fanáticos a matar em nome de Deus. Recusamos o que seria sua vitória, os amálgamas injustos e as paixões fratricidas.”

O lado trágico dessa história é que um dos maiores inimigos políticos da extrema-direita é, justamente, Charlie Hebdo. Seus jornalistas e cartunistas foram de todos os combates antirracistas, a favor do acolhimento mais humano de imigrantes, contra o imperialismo e o pós-colonialismo. Eram profundamente pacíficos, progressistas, ecologistas, hostis a todos os extremismos e herdeiros de uma cultura esquerdista de contestação das autoridades.

Esse atentado foi, a meu ver, um puro produto do obscurantismo e da tradição da violência fascista contra a filosofia das Luzes e o pensamento livre. A sociedade francesa está, portanto, confrontada com dois extremismos que acabam fazendo o jogo um do outro.

“Num momento histórico, você tem que ir pra rua”

E na Europa, quais devem ser as consequências?

M.C. – Ainda é cedo para saber de possíveis consequências. O que vimos por enquanto foram os movimentos de solidariedade na Europa toda, que nos tocaram muito, em particular porque estão acompanhados da consciência de uma história e de um destino comuns. A ascensão de movimentos populistas e xenófobos, a rejeição de uma imigração de cultura muçulmana por certos setores da população, a tradição de laicidade dos Estados, a liberdade da imprensa e o crescimento dos fanatismos religiosos são fenômenos comuns a diversos países do continente.

A Frente Nacional, da ex-candidata a presidente Marine Le Pen, fica mais forte para as eleições presidenciais de 2017?

M.C. – Tudo que atiça ódios serve a ela, que já estava muito forte. Por isso, estou bastante pessimista. Entretanto, não acho que ela tenha sido muito hábil nas últimas 24 horas. Já propôs o restabelecimento da pena de morte para os responsáveis pelo atentado, que nem foram presos ainda. Foi muito fora de contexto e (felizmente) ela ficou sozinha nessa. Ela também não lidou bem com o fato de não ter sido convidada a se manifestar, no próximo domingo, junto com as outras forças políticas.

Sei que os historiadores gostam de tratar de temas mais pretéritos, mas pergunto: quais são suas impressões taquigráficas, a quente, sobre o impacto do atentado na vida francesa nos próximos anos?

M.C. – Eu não sei se meu pensamento está sereno o suficiente nesses dias, pois esses assassinatos me abalaram muito. Estou, de um lado, cercada de medos, às vezes contraditórios. Medo de que a obsessão racista acabe tomando conta da sociedade, que a democracia francesa conheça uma deriva de segurança parecida com a evolução repressiva da democracia americana após o 11 de setembro, que o fanatismo religioso manipule mais e mais crianças francesas que a sociedade não conseguiu integrar, que nosso modelo de laicidade não sobreviva a isso… Mas não consigo, por outro lado, não ter a esperança de que esses eventos sejam a ocasião de lembrarmos – sejamos nós muçulmanos, cristãos ou ateus, filhos, netos ou bisnetos de imigrantes – que queremos mesmo viver juntos aqui, numa sociedade livre e tolerante.

Pergunta pessoal: o que a fez ir à rua na noite de 7 de janeiro para se manifestar, com milhares de pessoas, aí em Paris?

M.C. – Era um momento histórico, nesse momento você tem que ir pra rua. Eu estava muito triste e precisava compartilhar minha mágoa com outras pessoas. Foi também uma maneira de mostrar minha solidariedade aos sobreviventes do jornal, às famílias e amigos das vítimas, ao mundo do jornalismo que estava de luto. Por fim, foi também, na minha pequena escala, um ato de resistência.

Você gostaria de fazer alguma outra observação?

M.C. – No pasarán.

 


 

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Mário Magalhães é jornalista

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