Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CADERNO DA CIDADANIA > ENTREVISTA / DANIEL COHN-BENDIT

Jornal foi alvo por ir até as últimas consequências

Por Rodrigo Vizeu em 13/01/2015 na edição 833
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 8/1/2014

O jornal Charlie Hebdo foi alvo de terroristas porque “ia até o fim”, afirma o ícone do Maio de 1968 francês Daniel Cohn-Bendit, 69. Hoje deputado no Parlamento Europeu, o franco-alemão Cohn-Bendit, um dos líderes do movimento estudantil dos anos 60, era amigo de alguns dos cartunistas assassinados.

Ele saudou as vítimas por sua capacidade de expor as contradições sociais e criticou o que chamou de “fascismo” do islamismo radical. Segundo o político, é preciso um combate de convencimento de muçulmanos europeus radicalizados.

Como o sr. recebe esse ataque, primeiramente de um ponto de vista pessoal?

Daniel Cohn-Bendit – Pessoalmente, é um choque terrível que esse atentado possa ter ocorrido em uma Redação de jornal em Paris. Nos sentimos totalmente desamparados diante da selvageria.

Dois deles, Cabu e Wolinski, eram próximos do sr.

D.C-B. – Sim, nos acompanharam na maior parte de nosso percurso político. São pessoas que encontrava com frequência, com quem confraternizei, que lutavam o mesmo combate antinuclear, antimilitarista, anticlerical. Tinham a capacidade, com suas canetas e lápis, de mostrar as contradições da sociedade. Eram antinacionalistas, antinucleares, ecologistas, libertários. É preciso entender que Charlie Hebdo foi alvo por ser um jornal no qual os fundadores eram anticlericais, antirreligiosos, eles iam até o fim. Jornalistas que se consideravam no espírito de 68, no senso crítico, de uma radicalização do pensamento, da rejeição da religião, do autoritarismo.

O sr. acredita que de alguma forma Charlie Hebdoexagerava nas piadas?

D.C-B. – Era a concepção deles, um jornal satírico onde o exagero era parte de sua ideia. Se você diz que eles exageram, diz que eles não têm razão de ser. Estavam convencidos de que a liberdade de expressão é atacar de Cristo a Maomé. Era a concepção de liberdade deles. Pode-se achar isso babaca ou bom. Mas é parte do jogo. Uma sociedade livre é justamente aquela que suporta o excesso.

Como vê o ataque do ponto de vista político?

D.C-B. – Creio que há no movimento islâmico terrorista e radical um momento fascista. São forças, pequenos grupos fascistas. Isso não quer dizer – e a elite política e todo mundo na França sublinhou isso bem hoje – que se deva confundir esse fascismo que se faz em nome do islã com os muçulmanos em geral.

Como combater isso?

D.C-B. – Existe um combate militar-policial, como contra o Estado Islâmico. Não é com boas palavras e pedindo o dia todo que você vai derrotá-lo. Além disso, na sociedade, é preciso demonstrar aos muçulmanos europeus que eles são cidadãos europeus e como tal devem combater o extremismo.

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Rodrigo Vizeu, da Folha de S.Paulo

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