Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

CADERNO DA CIDADANIA > ECOS DO TERROR

O esboço de políticas violentas de alteridade

Por Roberto Vinicius P.S. Gama em 13/01/2015 na edição 833

Mais um atentado terrorista neste acelerado, complexo, globalizado, multicultural e obcecado breve século 21. O alvo não foi uma instalação militar, um arranha-céu econômico, um edifício oficial político. Desta vez, um órgão de imprensa destacado pela atuação satírica, misturando arte visual e crítica política. Novamente, como de praxe, o foco é virado para o grupo criminoso: quem são, como planejaram o ato, quais são suas motivações, pretendem novos alvos? O principal é investigar e perseguir o inimigo, mostrar reação severa a ele, superar seu recado político com uma narrativa de frustração e desumanização desse outro. Nesse circo mambembe com uma disputa de “verdades” equilibristas, é importante levantar a lona. Do ato às leituras e apropriações do fato, muito se perde na tradução.

O conteúdo que segue leva em conta as ruínas, escombros e cascalhos do desastre, busca contribuir um pouco na recuperação de visões e leitura menos condicionadas pela reação imediata aos ataques criminosos, contudo sem esquecer de mais uma leva de esqueletos empilhados na história recente da (ainda em voga, de modo difuso e mais discreto) disputa entre “guerras santas” e “guerra ao terror”. Para isso, tomará como guia algumas temáticas articuladas que provocarão exercícios reflexivos.

Contexto [ou “A revista faz parte da sociedade”]

Imprensa livre não equivale a imprensa desarticulada de contexto sócio-político, livre de censura e outras restrições não significa livre de localização espaço-temporal. Uma revista que se destaca na produção de cartuns e charges políticas, inclusive em referência aos mundos árabe e islâmico, em uma potência ocidental que integrou a coalizão anti-”Eixo do Mal” na “Guerra ao Terror” (pós-11 de setembro de 2001), e que no século vigente esteve envolvida em polêmicas e críticas quanto à forma e caráter de seu secularismo (tipo de Estado laico), ao tratamento público da religião (e de algumas religiões em particular) e à política referente a imigrantes (em especial aqueles provenientes do mundo árabe e do mundo islâmico), não é um periódico qualquer no contexto da política internacional contemporânea. É uma publicação que apresenta e representa.

Representação [ou “A vítima imaterial”]

O ataque ao semanário Charlie Hebdo, na superfície, é no fundo um ataque à cultura política francesa da atualidade e sua relação com um imaginário coletivo anti-islamita e pró-alteridade deletéria, fruto da criação de discursos anti-terror. Nesse sentido, o periódico constituía um ícone de uma ideologia adversária à visão de mundo de grupos extremistas terroristas – mesmo que a publicação não tenha o terrorismo como objeto único ou principal de suas críticas satíricas. As vítimas são pessoas físicas (policiais, jornalistas, cronistas, chargistas, cartunistas), o alvo é imaterial. Aparte a inocência das vítimas, e quanto ao alvo?

Atuação [ou “Atos políticos em tempos de guerra”]

A revista e os valores embutidos/incrustados em sua produção crítica não são inocentes. Em tempos de guerra (latente ou pungente) ao terror, a satirização e a ridicularização do “inimigo” pode razoavelmente ser entendida como ato político com parentesco (mais ou menos próximo) à propaganda de guerra. E a relação “especial” com o Estado francês, que fornecia segurança específica à sede da publicação e em uma ocasião [conforme mencionado na cobertura televisiva brasileira do atentado] chegou a pronunciar que o conteúdo da revista não representava a política do país – discurso que acaba por comunicar o contrário, devido à situação extraordinária (não usual) de uma autoridade política nacional enfatizar algo que já é uma premissa, notadamente que publicações particulares refletem opiniões e visões particulares (de seus editores e autores) e não de um governo ou país –, apenas adiciona pólvora ao barril contextual.

Imagem & Ação [ou “A pena é mais forte que a bala”]

Um ato de fala via imagem é geralmente transmitido de forma mais direta e impactante; “uma imagem vale mais que mil palavras”. Nisto, e na habilidade de condensar uma mensagem em uma só composição visual, residem o poder comunicativo dos cartuns e charges. Ao exacerbar, de forma satírica, a alteridade entre “nós” e “outros” (o muçulmano, por exemplo, sendo considerado um “outro” ameaçador), o desenho reforça a arbitrária antítese entre determinada noção de “ocidental” (civilizado, democrático, de cultura judaico-cristã etc.) e outra de “árabe” (bárbaro, autoritário, de cultura muçulmana, etc.). Tal discurso é próximo ao oficial, traduzindo em imagens alguns ditos e termos utilizados em pronunciamentos oficiais em referência ao inimigo terrorista – ex. o atual presidente francês, após o atentado, caracterizou os responsáveis disparando palavras como “barbárie” e “obscurantismo”. Assim adentra-se a narrativa do “choque de civilização”, ou melhor [pra pior], do choque entre “civilizado” e “não-civilizado”, discurso que batalha contra a narrativa fundamentalista “islâmica” (de grupos terroristas) que enfatiza o choque entre “fiéis” e “infiéis”. Nesse contexto, da sátira à jihad, revigora-se a farsa das Cruzadas. No embate imagético, quem vê caricatura não vê coração, e corre o risco da armadilha da dimensão.

Redução [ou ‘Falácia de escopo’]

Uma questão importante, passível de ser limítrofe (para alguns) da sátira e do humor, é quanto à dimensão ou proporção da caricatura, isto é, da abrangência da representação. Uma crítica de humor a partir da figura de uma autoridade política, um chefe ou líder religioso atual, um santo ou profeta auxiliar (secundário) não tem a mesma dimensão do que lidar com figura fundadora de uma gigante religião monoteísta – ex. Abraão (um dos patriarcas) no judaísmo, Jesus Cristo no cristianismo, e Maomé no islamismo. É uma questão de reducionismo, não nos termos do caminho do macro para o micro, mas no sentido filosófico-científico de movimento rumo à compilação de unidades e sistemas em categorias (redução de constelação de elementos a uma “categoria guarda-chuva”). Utilizar figuras fundadoras para exprimir uma sátira político-religiosa amplia as proporções de comunidades e pessoas potencialmente ofendidas.

Efeito colateral [ou ‘Desenho pela culatra’]

No caso do combate ao “terrorismo islâmico”, apresentar anacronicamente Maomé como um líder do terrorismo contemporâneo é um ato simbolicamente semelhante a uma bomba que dispersa fragmentos ao redor: projéteis irregulares atingem tudo quanto é lado. A política estatal de combate ao terrorismo e discurso antiterror é (direta ou indiretamente) reforçada; a própria sociedade (francesa, stricto sensu, e ocidental, lato sensu) recebe a carapuça de intolerante e xenófoba; a outra sociedade (árabe-muçulmana) leva o insulto da sátira de uma figura político-religiosa fundamental; os “inimigos diretos” (terroristas) são criticados ao mesmo tempo em que têm sua justificativa reforçada, pois o entendimento de uma sátira generalizada ao Islã via seu principal profeta – é tênue a linha da sátira imagética contra terroristas islâmicos e contra islâmicos em geral, especialmente com o recurso a uma figura comum a ambos (vale lembrar que o termo “maometano” é utilizado como sinônimo de “islâmico”) – mostra uma visão negativa da cultura muçulmana por parte da cultura ocidental e pode servir de convite ao ódio antiocidental (“infiéis”) e promover adesão à visão extremista de grupos islâmicos que pregam uma “guerra santa” em nível mundial.

Essa argumentação não quer justificar o atentado, os homicídios, a violência e a covardia. O acontecimento é lamentável, as mortes são motivo de tristeza e indignação – assim como as perdas de outro atentado ocorrido no mesmo dia, em ataque a uma academia de polícia na capital do Iêmen, com número maior de vítimas (mortos e feridos) e volume bem menos expressivo de repercussão midiática (comparado com o ataque ao “mundo civilizado”). Além disso, o atentado na capital da França poderá ter repercussões na defesa de valores como a liberdade de expressão. No entanto, representa um aviso de “choque do sagrado”: a sacralidade da livre expressão de uma pessoa, grupo particular ou sociedade geral é mais sagrada que a imagem do principal profeta de uma comunidade político-religiosa?

Em Cartas Persas, Montesquieu lembra um dito: se triângulos concebessem deuses, lhes dariam três lados…

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Roberto Vinicius P.S. Gama é mestrando e bacharel em Relações Internacionais

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