Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

CADERNO DA CIDADANIA > ECOS DO TERROR

O Islã é culpado pelas mortes em Paris?

Por Nicholas Kristof em 13/01/2015 na edição 833
Reproduzido do Estado de S.Paulo/The New York Times, 9/1/2015; tradução de Augusto Calil; intertítulos do OI

É preciso tomar cuidado antes de generalizar e apontar toda uma comunidade como responsável pelos abusos de poucos. O semanário satírico francês Charlie Hebdo ridiculariza pessoas de todas as origens e fés. Uma caricatura mostrava rolos de papel higiênico marcados como “Bíblia”, “Torá” e “Alcorão” e a explicação: “No vaso sanitário, todas as religiões.”

No entanto, quando atiradores mascarados invadiram a redação da publicação em Paris na quarta-feira armados com fuzis AK-47, assassinando 12 pessoas no pior ataque terrorista em solo francês das últimas décadas, muitos supuseram imediatamente que os agressores não seriam fanáticos cristãos nem judeus, mas provavelmente extremistas islâmicos.

Quando indignados, cristãos, judeus ou ateus talvez manifestem sua frustração no Facebook ou Twitter. Mas, embora não saibamos exatamente quem foram os responsáveis, supomos que tenham sido extremistas islâmicos os que expressaram seu desagrado com balas.

Muitos questionam: há algo a respeito do Islã que leve inexoravelmente à violência, ao terrorismo e à submissão das mulheres? A pergunta vem à tona porque fanáticos muçulmanos parecem matar em nome de Deus com frequência, desde as bombas nos trens de Madri em 2004, que resultaram em 191 mortos, até o assassinato de reféns num café em Sydney, Austrália, no mês passado. Escrevi no ano passado a respeito de uma crescente tendência à intolerância dentro do mundo islâmico depois que o corajoso advogado paquistanês Rashid Rehman (meu amigo) foi assassinado por defender um professor universitário falsamente acusado de insultar o profeta Maomé.

Parte do terrorismo mais sistemático do mundo islâmico consiste na perseguição diária aos cristãos e outras minorias religiosas, dos bahais até os yazidis, passando pelos ahmadis.

Temos também a opressão às mulheres. Dos 10 países ocupando as últimas posições no relatório de desigualdade entre os gêneros preparado pelo Fórum Econômico Mundial, 9 são de maioria muçulmana.

Tipos distintos

É claro que existe uma tendência de intolerância e extremismo islâmico que forma o contexto por trás do ataque ao jornal Charlie Hebdo. O semanário foi alvo de um ataque incendiário em 2011 depois de publicar uma capa mostrando Maomé dizendo: “Cem chibatadas se você ainda não estiver morrendo de rir”.

Anteriormente, o Charlie Hebdo publicou uma caricatura de Maomé chorando e dizendo: “É difícil ser amado por idiotas.”

Os incidentes de terror levam muitos ocidentais a enxergar o Islã como fé inerentemente extremista, mas isso me parece uma simplificação demasiadamente fácil e redutora. É um pequeno número de terroristas que ganha as manchetes, mas eles não são representantes de uma religião diversa e complexa, com 1,6 bilhão de praticantes. Na quarta-feira, meu perfil no Twitter ficou repleto de muçulmanos denunciando o ataque – destacando que muçulmanos fanáticos prejudicam a imagem de Maomé muito mais do que o mais infame cartunista.

É claro que a grande maioria dos muçulmanos nada tem a ver com a insanidade de ataques como esse, além do fato de serem também as principais vítimas do terrorismo. De fato, os assassinatos na redação do Charlie Hebdo não foram nem mesmo o mais mortífero ataque terrorista da quarta-feira – um carro-bomba explodiu diante de uma academia de polícia no Iêmen, possivelmente colocado pela al-Qaida, resultando em 37 mortos.

Uma das coisas que aprendi no jornalismo é tomar cuidado com a leitura do mundo por meio de narrativas simples, pois isso traz novas informações que são inadvertidamente incorporadas a essas narrativas.

Em minhas viagens da Mauritânia até a Arábia Saudita, passando por Paquistão e Indonésia, convictos extremistas muçulmanos partilharam comigo suas próprias narrativas fantasiosas segundo as quais os Estados Unidos seriam um país controlado por sionistas e dedicado à destruição do Islã e precisamos tomar cuidado para não criar uma imagem distorcida de uma religião com tanta diversidade quanto o Islã.

Vamos, então, evitar os estereótipos religiosos. O cristão médio não teve motivos para pedir desculpas quando fanáticos cristãos na ex-Iugoslávia se envolveram no genocídio contra muçulmanos. Os críticos do Islã não são responsáveis pelo fato de um fanático anti-islâmico ter assassinado 77 pessoas na Noruega em 2011.

Devemos reconhecer também que, frequentemente, as pessoas mais corajosas e amantes da paz que enfrentam o fanatismo islâmico no Oriente Médio são elas próprias muçulmanas. Alguns leem o Corão e explodem escolas para meninas, mas um número muito maior lê o Corão e constrói escolas para meninas. O Taliban representa um tipo de islamismo; a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, Malala Yousafzai, representa o polo oposto.

Demonstrações inspiradoras

Há uma história de humildade, possivelmente apócrifa, na qual alguém teria indagado a Ghandi: “O que acha da civilização ocidental?” Ele teria respondido: “Acho que seria uma boa ideia.”

O grande cisma não está entre as fés. Está entre terroristas e moderados, entre aqueles que são tolerantes e aqueles que estigmatizam o “outro”.

Na Austrália, após a crise dos reféns no café de Sydney, alguns muçulmanos temeram ser atacados em vingança. Então, uma onda de australianos não muçulmanos enfrentou a situação, oferecendo-se para acompanhar muçulmanos e garantir sua segurança, usando a hashtag #IllRideWithYou no Twitter. Mais de 250 mil comentários do tipo foram publicados na rede social – um modelo de compaixão e generosidade em resposta a ataques terroristas.

Bravo! É assim que se faz. Vamos nos solidarizar com o Charlie Hebdo, pois as demonstrações globais de apoio têm sido inspiradoras. Vamos denunciar o terrorismo, a opressão e a misoginia no mundo islâmico – e em toda parte. Mas precisamos tomar cuidado para não responder à intolerância dos terroristas com nossa própria intolerância.

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Nicolas Kristof é colunista do New York Times

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