Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

CADERNO DA CIDADANIA > ENTREVISTA / MICHAEL LÖWY

Quem ri por último?

Por Juliana Sayuri em 13/01/2015 na edição 833
Reproduzido do suplemento “Aliás” do Estado de S.Paulo, 11/1/2015

2015 estourou feito tiro de AK-47 – e seus estilhaços ricochetearam a partir do 11º arrondissement parisiense, na manhã de 7 de janeiro, quando três terroristas abriram fogo contra a redação do Charlie Hebdo. Entre 11 feridos e 12 mortos – incluindo Stéphane Charbonnier (o Charb, diretor do semanário satírico desde 2009), Georges Wolinski (“o” Wolinski), Jean Cabut (Cabu) e Bernard Velhac (Tignous) –, manifestações de solidariedade marcaram as páginas internacionais nos últimos dias. Além de vigílias Paris afora, tributos proliferaram internet adentro: primeiro, je suis Charlie, em homenagem aos cartunistas assassinados; no paralelo, not in my name, vindo de jovens muçulmanos, criticando as motivações dos autores do atentado – que teriam ligações com a Al-Qaeda no Iêmen.

Difícil dizer quem riu por último. Lembrada como uma revista provocativa, satírica, “subversiva”, anticlerical e às vezes antirreligiosa, Charlie Hebdo ironicamente foi quase “sacralizada” como símbolo da liberdade de imprensa. Ironicamente, a última charge rabiscada por Charb trazia um jihadista e a provocação: “França segue sem atentados. Atenção, esperemos até o fim de janeiro para desejar feliz ano-novo”. Ironicamente, Ahmed Merabet, o policial executado por terroristas na Rue Nicolas Appert, era muçulmano, detalhe que evocou nas mídias digitais as palavras atribuídas a Voltaire: “Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-la”. Ironicamente, saiu pela culatra a tentativa de silenciar um semanário polêmico, que se tornou alvo da fúria religiosa por publicar charges de Maomé: dos 60 mil habituais, a próxima edição saltou para 1 milhão de exemplares, graças a uma vaquinha milionária feita por Le Monde, Radio France, The Guardian, entre outros. Ironicamente, no dia 7 era lançado Soumission, controverso romance do escritor francês Michel Houellebecq, que retrata uma França transformada num Estado islâmico após a vitória de um novo partido em 2022 – muitos críticos consideraram o livro islamofóbico.

Entre tantas ironias, Michael Löwy destaca outra: o atentado contra um semanário de esquerda (lembrado por traços satíricos, mas progressistas, libertários e democráticos, herdeiros da esquerda francesa, hostis a extremismos) “instrumentalizado” a ponto de favorecer a extrema direita, acirrando ainda mais campanhas discriminatórias e islamofóbicas. “São dois males. Por um lado, um crime contra a liberdade de imprensa, de fundo fundamentalista religioso. Por outro, uma ultradireita a manipulá-lo. Muito foi dito a respeito do atentado, mas acredito que o importante a destacar é que se trata de uma revista de esquerda, num contexto de direitização europeia muito forte”, critica.

Diretor do Centre d’Études Interdisciplinaires des Faits Religieux (CEIFR) na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) e diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), o sociólogo franco-brasileiro conversou com o Aliás na quinta-feira. Instalado no 13º arrondissement, Löwy lamentou profundamente as mortes. O intelectual lia episodicamente o semanário, mas não raro encontrava suas caricaturas reimpressas noutras publicações, folheando livros e folhetins trotskistas – e conhecia pessoalmente Charb, que ilustrou o livro Marx, Manual de Instruções (Boitempo, 2013), de seu amigo Daniel Bensaïd, com quem assinou Marxismo, Modernidade e Utopia (2000).

Autor ainda de Walter Benjamin: Aviso de Incêndio (2005) e Lucien Goldmann ou a Dialética da Totalidade (2009), Löwy considera o momento perigoso, polarizado por extremos, ideológicos e religiosos: “É uma armadilha”. Sua impressão pessoal: “Um clima de tristeza profunda e de indignação”. Sua palavra final? “Infâmia”.

Prof. Löwy, pela primeira vez um atentado à redação de Charlie Hebdo foi levado às últimas consequências, provocando 12 mortes. Como interpretar o que aconteceu?

Michael Löwy – Neste momento, só uma palavra me vem à mente para descrever o que aconteceu: infâmia. Foi um crime odioso, contra a liberdade artística, a liberdade de imprensa, a liberdade de pensamento. Para mim foi tanto mais odioso, pois as vítimas eram artistas e jornalistas conhecidos na esquerda francesa, extremamente antirracistas, antifascistas, anticolonialistas. Minha última lembrança, que agora me volta à memória, é a recente participação desses cartunistas num álbum em homenagem aos argelinos anticolonialistas assassinados pela polícia francesa na década de 1960 (no dia 17 de outubro de 1961, uma manifestação pacífica se tornou palco de um massacre brutal de mais de 200 argelinos na capital francesa). Por isso, considero especialmente “infame” e revoltante que eles tenham se tornado alvo desse atentado, que levou a intolerância religiosa às últimas consequências, absurda e irracionalmente. O crime é absurdo, mas é igualmente absurdo atribuir a responsabilidade a milhões de muçulmanos, que vivem sua religião pacífica e tranquilamente. É uma armadilha – e precisamos lutar para que o mundo não caia nela. Se o presente nos indigna, o futuro nos preocupa.

A mídia internacional focou a questão a partir de duas perspectivas principais: a liberdade de expressão e o fundamentalismo religioso. Muito se lembrou o caráter satírico de Charlie Hebdo, famoso por críticas a diversas religiões – não só a islâmica. Entretanto, eu queria abordar o caráter político da revista. O que marcava a linha da publicação?

M.L. – Era um periódico muito lido, principalmente por jovens. É um paradoxo, uma ironia essa agressão acontecer justamente contra personalidades reconhecidamente da esquerda francesa, contrárias ao conservadorismo clerical, ao imperialismo, ao fascismo, ao neocolonialismo. Aliás, o último número da revista trazia uma caricatura do escritor Michel Houellebecq, que lançou um livro por muitos considerado islamofóbico. Noutra página, interna, diversas caricaturas contra a religião católica. Enfim, não era algo contra o islamismo. Eles eram anticlericais, ateístas e às vezes antirreligiosos. Conheci pessoalmente alguns desses artistas. Charb, por exemplo, ilustrou um livro de Daniel Bensaïd sobre Marx. Sim, Charb tinha proximidade com a esquerda francesa radical. Agora, a esquerda também foi muito presente, mobilizando diversas manifestações (Marine Le Pen não foi convidada para a marcha in memoriam marcada para este domingo).

O atentado não favorece o discurso de ódio da extrema direita, que era tão criticada pela revista?

M.L. – Sim, mas é preciso considerar o momento francês, em que uma onda islamofóbica está amalgamando os muçulmanos, misturando os muçulmanos pacíficos e os fanáticos integristas (uma minoria) e os jihadistas (uma minoria ainda menor). Nesse amálgama, “os” muçulmanos todos se tornam acusados da autoria de crimes cometidos por terroristas. É uma campanha antimuçulmana e extremamente racista, com alta repercussão na mídia, com impulso de certos intelectuais, jornalistas e políticos – a Frente Nacional de Marine Le Pen é o maior exemplo. Isso tem estimulado atitudes xenófobas, atitudes negativas contra imigrantes africanos, asiáticos, islâmicos, enfim, os “não europeus”. Quer dizer, vale para alguns europeus: há seculos na Europa, os ciganos também são alvo de discriminação. Manifestações islamofóbicas também marcaram os últimos tempos, com atividades politicamente racistas. No fim, o atentado ao Charlie Hebdo favorece a campanha dessa ala fascista. O crime está sendo instrumentalizado para tal. São duas catástrofes. Por um lado, um crime contra a liberdade de imprensa, de fundo fundamentalista religioso. Por outro, uma ultradireita a manipulá-lo. Muito foi dito a respeito do atentado, mas acredito que o importante a destacar é que se trata de uma revista de esquerda, num contexto de direitização europeia muito forte.

Diversas vozes lamentaram que a liberdade de expressão, um dos valores máximos da civilização ocidental, foi ferida ‘barbaramente’. Volta o discurso d’O Choque de Civilizações, tão martelado após o 11 de Setembro?

M.L. – Justamente. Há quem se interesse por defender a tese do “choque de civilizações” (do teórico americano Samuel P. Huntington, para quem, pós-Guerra Fria, a cultura, as identidades culturais e religiosas seriam o principal gatilho para conflitos no mundo contemporâneo – e não a política ou a economia). Dois polos tentam promover a ideia do choque. Por um lado, radicais e fundamentalistas do Oriente. Por outro, conservadores e reacionários do Ocidente. Os dois têm interesse em acirrar uma guerra de “civilizações”, não só porque corresponde à sua ideologia fascista, mas porque o ódio entre etnias e religiões é o terreno que lhes permite se desenvolver. Há uma espécie de cumplicidade entre eles, o reforço de um conduz ao reforço do outro, numa espiral infernal de intolerância e guerra. Só uma aliança internacionalista de todas as cores, etnias e religiões contra um inimigo comum – o sistema capitalista – pode neutralizar esse processo monstruoso. É importante que as forças progressistas, libertárias e democráticas se oponham a isso, lembrando que o grande confronto de nosso tempo não é entre Islã e Ocidente. O real conflito de nossa época é entre progresso e reação, exploradores e explorados, capital e trabalho.

Religiões têm tabus, às vezes muito fortes. Não respeitar esses tabus pode enfurecer quem neles insiste. Respeitar pode conflitar com outros valores, como a liberdade de expressão. Como navegar entre essas pressões contraditórias?

M.L. – Realmente é uma contradição muito complicada, muito complexa. Em última análise, acredito que a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão devam ser considerados princípios fundamentais. Entretanto, há formas de expressão que realmente resvalam na incitação ao ódio e deve haver leis contra elas. Na França, há. Quer dizer, é crime estimular o ódio contra um grupo religioso ou étnico ou o que seja. Não era o que fazia Charlie Hebdo – uma coisa é incitar o ódio contra religiões, outra coisa é ironizá-las satiricamente. Além disso, as religiões são diferentes. Dentro do judaísmo, do islamismo, do cristianismo há correntes regressivas, reacionárias e intolerantes, que inclusive culminam em crimes. Mas há, sim, correntes progressistas e democráticas – em certos casos, mesmo revolucionárias.

Salman Rushdie, também ameaçado pelos islamitas, disse: ‘As religiões, como todas as outras ideias, merecem críticas, sátiras e, sim, nossa falta de respeito e de medo’. Concorda com o autor d’Os Versos Satânicos?

M.L. – A sátira faz parte da natureza de uma imprensa livre, irreverente, independente. E isso deve valer para qualquer tema. Qualquer um deve poder ser satirizado – o rei, a presidente, o profeta. Charlie Hebdo é herdeiro de uma velha tradição da esquerda francesa anticlerical, antirreligiosa, ateísta. Pessoalmente, confesso que eu não me inquieto nesse combate às religiões. Talvez por minha experiência como brasileiro, vejo a religião com olhos um pouco diferentes dos franceses. De qualquer maneira, é preciso dizer: não é essa a questão.

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Juliana Sayuri, do Estado de S.Paulo

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