Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > ENTREVISTA / LAERTE

‘Toda piada contém uma ideologia’

Por Marina Malheiros em 13/01/2015 na edição 833
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 11/1/2015

Enquanto ainda processa a tragédia que matou seu mestre, Georges Wolinski, e outras 11 pessoas na quarta-feira, 7, o cartunista Laerte Coutinho, de 63 anos, reflete sobre a coragem necessária para exercer o próprio ofício. Os cartunistas franceses, lembrou, chegaram a ser decapitados, presos e exilados. “A França tem um contexto cultural que não só comporta como exige a presença de um humor desse tipo”, disse Laerte ao Estado.

Na entrevista concedida por telefone, o autor de Los 3 Amigos e Piratas do Tietê avalia ainda que o objetivo do ataque contra o Charlie Hebdo não era propriamente contra a liberdade de expressão, mas sim para criar um ambiente onde o racionalismo prevaleça. A seguir, a entrevista.

O que você sentiu quando viu ídolos serem assassinados?

Laerte Coutinho – Acho que estupor, que é mais uma reação do que um sentimento. Estupor e confusão. Uma tragédia. Quando contaram que o Glauco tinha sido assassinado, também foi assim, um momento de paralisia total, até você absorver a grandeza da coisa. Wolinski era meu ídolo. O Cabu eu conhecia, mas não era assim tão grande dentro da minha admiração quanto o Wolinski, que é quase um guia.

Você disse que depois do atentado passou a ser atacado no Facebook. Isso já ocorria antes?

L.C. – Ah, me chamar de traveco horroroso e bicha comunista já fazem há muito tempo. Mas a coisa vem recrudescendo, as pessoas estão se sentindo cada vez mais amparadas e estão ultrapassando os limites.

Por que isso vem acontecendo?

L.C. – A direita está se sentindo amparada também. A gente vive um momento em que quase todas as forças estão passando por um grau de maturidade ou imaturidade. As manifestações de junho de 2013 foram um sinal. As formas organizacionais anteriores deram mostras de cansaço. Está ocorrendo uma mudança paulatina, mas explícita, interessante por um lado, mas que permite que forcas fascistoides ganhem corpo. Não há muito como controlar.

Como você vê esse limiar entre política, humor e censura?

L.C. – Sâo três conceitos diferentes. Política é uma coisa, humor está dentro da linguagem e censura está na área da repressão. Censura é uma das políticas possíveis, uma expressão de opressão. É possível manter um nível de controle em relação aos discursos, que eu não chamaria de censura, mas de um acerto sobre o que se diz. Por exemplo: não podemos dizer que vamos matar alguém, porque estaríamos estimulando violência e ódio. Essa é uma questão delicada que nós, no Brasil, ainda não resolvemos. A gente oscila desde a concepção liberal até subir ao púlpito e dizer que homossexuais são uma abominação. Mas, por outro lado, há propostas de controle. O que fazer com isso? Até que ponto proibir? Posso dizer que não gosto? Isso está sendo discutido aqui, mas num contexto violentíssimo. O Brasil é campeão do mundo em ataques à população LGBT. Se você permite que alguém em posição de liderança diga que os outros são uma abominação do demônio, estará permitindo o linchamento.

Há temas sobre os quais deve-se ter mais cuidado?

L.C. – Qualquer tema é passível de ser tratado. O meu amigo Hugo Possolo disse certa vez que qualquer coisa pode ser piada, a questão é saber de que lado da piada você está. E essa frase eu acho de uma beleza muito grande, que exprime que o humor tem, sim, viés ideológico. O discurso humorístico é engraçado e construído de forma especial, mas nem por isso deixa de ser ideológico. Toda piada contém uma ideologia. E a outra é a responsabilidade de quem conta a piada, de quem está produzindo o discurso humorístico.

Por isso perguntei sobre o limiar entre humor e política…

L.C. – O modo como a gente coloca as coisas pode conduzir a um pensamento autoritário, e isso eu não quero. A gente passou uma ditadura muito grande, muito traumática, e ainda estamos pagando o preço por isso. O que os milicos e aliados fizeram com a gente foi criar um caldo de cultura venenoso, do qual a gente ainda não se livrou.

Os cartunistas do Charlie Hebdo foram muito longe?

L.C. – Temos de entender o Charlie Hebdo dentro do contexto histórico. Os franceses começaram a fazer charge política na época da Comuna de Paris. Eles arriscaram tudo e nunca foi fácil. Foram decapitados, presos, exilados, sofreram o diabo. E a agressividade do trabalho deles nunca diminuiu. A França não só comporta como exige a presença de um humorismo desse tipo. No Brasil, a gente nunca produziu uma coisa assim. Recentemente, o (grupo de humor) Porta dos Fundos fez alguns esquetes e eles foram ameaçados. Aqui, nunca se fez um programa com a agressividade de Family Guy, South Park ou Os Simpsons. Quando a piada mexe em formigueiros poderosos, o humorista pede desculpas e recua para o seu buraco.

O humor tem carta branca?

L.C. – Como qualquer outro discurso, ele deve ter licença para falar de tudo. Mas, se você está do lado da opressão e vai usar o discurso para criar uma situação ainda mais opressora, acho que esse discurso tem de ser tolhido.

Você compararia algum veículo ao ‘Charlie Hebdo’?

L.C. – Nos EUA, o National Lampoon, na Espanha, El Jueves, mas bem mais fraco. No Brasil, O Pasquim, Movimento. Houve uma época, ainda, que o grupo Falange Pátria Nova, o pessoal do DOI-Codi, atacasse as bancas de jornal. A ideia era criar esse momento de confusão.

Lembra-se de algum cartum ou charge específica que causou polêmica no Brasil?

L.C. – Aqui não é muito comum esse tipo de ousadia, mas me lembro de uma charge do Otávio, nos anos 60, em que ele representou Pelé vestido com o manto de Nossa Senhora Aparecida. Isso porque um dirigente do Santos tinha ido à Aparecida fazer promessa para ganhar do Corinthians. Essa charge provocou uma reação indignada da comunidade católica. Houve passeata em frente ao jornal. E eu fiz uma história uma vez com um personagem chamado Alzheimer Jack, no Los 3 Amigos que provocou queixas e críticas, mais do que ações mais contundentes, como a invasão do jornal. Isso foi nos anos 90. No Brasil, violência contra jornais é perpetrada por gente do governo. Há alguns episódios de censura clara, como foi o caso do Estado com o filho do Sarney. Depois de uma sentença absolutamente injusta e censória, o jornal ficou proibido de mencioná-lo. E isso foi conseguido em um contexto de democracia e não ditadura.

Você nota aqui uma intolerância tão grande quanto na Europa?

L.C. – Nossa, se vejo! No Facebook eu fui ameaçada! Tem uma intolerância crescente aqui. Isso acontece com a população LGBT muito frequentemente. Comigo essa agressividade toda é por questões de opinião. Mas a minha atitude em relação a gênero não tem gerado senão apoio, afeto e algum tipo de estranhamento e ironias e tentativas de ridicularizar, claro.

O ‘Charlie Hebdo’ volta nesta semana a circular com uma tiragem de 1 milhão. O que deveria ser feito para mostrar que jornalistas e cartunistas não se submeterão ao veto que o ataque parecia impor?

L.C. – Eu acho que a agenda desse ataque é outra. O objetivo não é acabar com a liberdade de expressão na França. A agenda deles é criar uma situação onde o irracionalismo prevaleça na Europa. É aproveitar o fato de a direita estar crescendo, assim como o sentimento xenófobo, para que a comunidade árabe na Europa possa ser cooptada para a área do irracionalismo. É trabalhar para dar combustível e motivos para os fascistas se alvoroçarem, como vimos com os ataques às mesquitas. O objetivo desse ataque era criar esse ambiente e arrancar o máximo possível a população de ascendência árabe do bom convívio que conseguem. Acho que esse ataque tem objetivo de trabalhar essa inquietação, conseguir adesões, como o Estado Islâmico no Oriente Médio. Porque se quisessem realmente atacar o anti-islamismo e a xenofobia, atacariam algum reduto fascista. É uma reação que colocará mais tensão entre a extrema direita e setores democráticos da sociedade francesa, aumentará os conflitos com a população estrangeira e criará um caldo de cultura promissor para o irracionalismo.

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Marina Malheiros, do Estado de S.Paulo

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