Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CADERNO DA CIDADANIA > ECOS DO TERROR

Um ataque calculado contra a democracia

Por ‘FT’ em 13/01/2015 na edição 833
Reproduzido do Valor Econômico/Financial Times, 8/1/2015; intertítulo do OI

O ataque sangrento à revista Charlie Hebdo só pode provocar a mais profunda repulsa. Essa foi uma atrocidade terrorista terrível que já custou a vida de pelo menos 12 pessoas inocentes.

Nossa primeira reação deve ser lamentar as vítimas, quatro das quais eram bem conhecidos cartunistas da revista e dois eram policiais. Mas isso foi mais do que uma tragédia humana. Foi um ato calculado de intimidação, um ataque à liberdade de expressão que é o pilar de qualquer sociedade democrática. Foi idealizado para semear uma forma insidiosa de autocensura. Isso precisa ser condenado firme e desafiadoramente.

Quase uma década se passou desde que um jornal dinamarquês atraiu a ira de muçulmanos devido à publicação de caricaturas satirizando o profeta Maomé. O que começou com protestos pacíficos e boicotes de consumidores logo virou violência. Essa não é a primeira vez que o Charlie Hebdo foi atacado por publicar seus próprios cartuns satirizando o Islã.

Mas os acontecimentos de ontem assinalam um novo e sinistro passo na escalada do conflito entre a fé e a liberdade de expressão. A visão de três homens mascarados empunhando fuzis no meio de uma capital europeia, atirando em policiais e varrendo os escritórios da revista em busca de suas vítimas, deverá, compreensivelmente, repercutir em todo o Ocidente.

Para os serviços de segurança na França e em toda a Europa, o ataque suscitará muitas perguntas. Não sabemos se os atacantes estavam no radar das autoridades francesas e se eram ajudados por grupos militantes no exterior.

Um espetáculo terrível

Muitos dos ataques jihadistas recentes – em Sydney e Ottawa – foram realizados por “lobos solitários”. A natureza concertada do ataque de ontem – e também a fuga dos atacantes da cena, em vez de recorrer a táticas de cerco e suicídio – sugere um modus operandi menos familiar.

Nos próximos dias, muitos estarão observando o impacto na sociedade francesa. Num momento de profundo mal­estar político e econômico, a Frente Nacional anti­imigrantes de Marine Le Pen poderá beneficiar­se de uma nova explosão de sentimento anti­islâmico. O ataque é um problema para as autoridades, que agora precisam encontrar os atacantes e levá­los aos tribunais. O desafio mais amplo, porém, é no sentido de os políticos e a opinião pública aderirem aos valores seculares fundamentais da França e expressarem vigorosa reação sem alimentar as chamas de uma vingança cega.

Em qualquer sociedade democrática, deve sempre haver espaço para um debate civilizado sobre os limites de bom­gosto e decoro quando se trata de zombar de qualquer fé religiosa. Mas o que não pode ser contestado é o direito fundamental de todos os cidadãos se expressarem livremente dentro da lei.

Numa época caracterizada pelo crescimento em crenças religiosas e maior politização da fé, toda religião deve estar aberta a opiniões, análises e sátiras.

No último quarto de século, houve muitas tentativas de recorrer à intimidação para silenciar a sátira e o dissenso. O regime iraniano criou o precedente, ao decretar uma fatwa contra o escritor Salman Rushdie, em resposta ao seu livro Os Versos Satânicos. A Coreia do Norte valeu­se de violência cibernética para impedir a distribuição de um filme ridicularizando seu líder, Kim Jong un.

Agora temos o espetáculo terrível em Paris. A resposta do mundo livre a isso necessita ser inflexível. O Charlie Hebdo pode ser uma publicação muito distinta da nossa, mas a coragem de seus jornalistas – e seu direito de publicar – não pode ser posta em dúvida. Uma imprensa livre nada vale se seus praticantes não se sentirem livres para falar.

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