Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > ECOS DO TERROR

Francisco, por que não te calas?

Por Reinaldo Azevedo em 20/01/2015 na edição 834
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 16/1/2015; intertítulo do OI

Li dia desses o que, parece-me, ambicionava ser um norte moral: deve-se rir do opressor, não do oprimido. Isso é política, não humor. Essa suposta bondade em favor dos fracos é parente da lógica do terror. Ou não é verdade que o terrorista reivindica o lugar do humilhado e diz reagir à agressão do mais forte? Foi a justificativa dada por Amedy Coulibaly, que invadiu um supermercado kosher em Paris e matou quatro pessoas.

O poder das vítimas, um perigoso oximoro, é uma ameaça constante às conquistas da civilização. Os vários fascismos do século passado manipularam com muita habilidade sentimentos coletivos de frustração e de humilhação. As democracias ocidentais se defrontam hoje com o fascismo islâmico – que conta quase sempre com a simpatia das esquerdas.

A melhor cena de humor que conheço está no filme A Vida de Brian, de Monty Python (is.gd/X3YJkD). Ironiza a resistência da Frente Popular da Judeia (oprimidos) aos romanos (opressores). Deveria ser condenada pelo Tribunal das Causas Politicamente Corretas? O humor de boa qualidade desconstrói a doxa e não tem programa de governo. Se tem, o humorista deve disputar eleições. É outro seu picadeiro.

Não gosto do Charlie Hebdo. Não vejo graça numa charge em que Hitler aparece saltitante, dando um alô pra “judeuzada”. Ou em que o papa Bento 16 troca carícias com um soldado da Guarda Suíça. Ou em que um árabe lambe o traseiro de um judeu. Não aprecio a disposição de épater le bourgeois. É o homem médio que faz a grandeza das nações, não o obscurantismo iluminado das vanguardas. O escândalo pelo escândalo é expressão de narcisismo ignorante disfarçado de superioridade intelectual.

Sons distintos

Nota à margem: a onda do humor como ofensa gratuita chegou com tudo ao Brasil. A molecada adora. Falta de repertório e prontidão hormonal para o insulto formam um enorme mercado consumidor e essa parceria é habilmente explorada por expertos (com “x”) e espertalhões. Aqui e alhures, o que fazer? Rir do que tem graça e não rir do que não tem. Na hipótese de um humorista cometer um crime, que arque com as consequências legais definidas pelo Estado democrático. Isso vale para açougueiros, jornalistas e empreiteiros. Sendo engraçado, os limites do humor devem ser os que valem para toda gente. E desenhar a imagem do Profeta não é crime em nenhuma democracia do mundo.

Na quarta, a polícia francesa deteve um delinquente disfarçado de humorista chamado Dieudonné. Seu lugar é a cadeia. E não porque recite discursos de um antissemitismo tarado, mas porque faz a apologia da violência. Qual é o limite? Ele resolveu acrescentar uma palavrinha à frase que virou símbolo de resistência ao terror: “Je suis Charlie Coulibaly”. Como se vê, homenageava o terrorista. Segundo os seus critérios, os judeus são os opressores da fábula…

Para encerrar: Francisco tem cabeça e postura de cura de aldeia, não de papa. Suas entrevistas ambíguas são detestáveis. O jesuíta leu mal São Paulo e não sabe que cítara e flauta têm de soar de modo distinto. Suas opiniões sobre o atentado e a liberdade de expressão são covardes, imprecisas e politiqueiras. Deveria se esconder debaixo da cama com Barack Obama para conversar sobre o nada. Ainda bem que nenhum católico vai tentar me dar mil chicotadas por isso.

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Reinaldo Azevedo é jornalista

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