Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > ECOS DO TERROR

Você é realmente Charlie?

Por Rafinha Bastos em 20/01/2015 na edição 834
Reproduzido da seção “Tendências/Debates” da Folha de S.Paulo, 16/1/2015; intertítulo do OI

“Je suis Charlie”. Você é Charlie? É mesmo? Então me diga uma coisa: onde estava você quando eu tive meu DVD A Arte do Insulto censurado, em 2012? E quando perdi processos judiciais? Quando 300 pessoas picharam frases de ódio e destruíram a porta do meu bar, onde você estava?

Onde você estava quando eu perdi papéis no cinema? E quando eu deixei de ter programas na televisão? O que você era quando eu tentava falar sobre liberdade de expressão, mas era tachado de arrogante, prepotente e babaca? Onde você estava? Eu senti falta de você.

Agora que você se manifestou em prol da liberdade de expressão, deixa eu te contar uma coisa. O que eu vivi foi um momento muito confuso. Quatro piadas minhas foram colocadas fora de contexto e isso quase afundou a minha carreira. Tudo isso ocorreu por um simples motivo: eu não pedi desculpas. E sabe por que eu não me desculpei? Porque acredito que o humorista deve ser livre para arriscar, questionar e provocar. Se eu pedisse desculpas por cada tentativa, em dois meses eu estaria domesticado. Nunca mais eu te surpreenderia. Diria somente aquilo que você queria ouvir. Eu seria querido, amado e totalmente infeliz.

Naquela época – em 2011 –, ninguém estava disposto a conversar comigo sobre a tal liberdade de expressão. Todos só queriam saber quanto dinheiro eu estava perdendo, o que eu achava do CQC, se eu convidaria a cantora Wanessa Camargo para ir ao meu programa e blá-blá-blá. Cheguei a ir ao Roda Viva, da TV Cultura, para debater o tema e até lá a conversa se resumiu a essas curiosidades bobas. Foi desesperador.

Quase quatro anos depois, colegas franceses do jornal satírico Charlie Hebdo são cruelmente assassinados dentro da Redação do semanário. Eles acreditavam que eram livres para provocar.

Agora estou vendo você com essa camiseta com os dizeres “Je suis Charlie” (eu sou Charlie, em francês). Que legal. Você chegou tarde, mas ainda chegou a tempo. Se eu tivesse levado um tiro na cabeça, talvez você tivesse aparecido antes, mas tudo bem, o que importa é que você veio.

Discussão global

Saiba que durante um bom tempo o que eu mais ouvi foi: “Rafinha, o problema das piadas que te deram dor de cabeça é que elas não foram engraçadas. Simples.”

Primeiro: É um crime analisar um texto feito para o palco com base em uma transcrição no papel. É como ler o roteiro de um filme pornográfico. Na reportagem tendenciosa do jornal, a sua leitura não vai reconhecer timing, muito menos a ironia do humorista.

Segundo: as piadas ruins e boas nascem absolutamente do mesmo lugar. Nascem da experimentação. Do risco. Para chegar a uma piada boa é obrigatório passar por algumas ruins. Esse é o processo.

Um comediante com medo de errar é como um jogador de futebol com medo de chutar a bola. É o fim.

Para os cartunistas do Charlie Hebdo a palavra “medo” não fazia parte do vocabulário. Foram provocadores que não deixaram nem que o risco da morte os calasse. Foram loucos que lutaram pela liberdade de expressão até as últimas consequências.

Suas mortes provocaram uma discussão mundial e permitiram que algumas pessoas entendessem melhor o que eu venho tentando dizer há, pelo menos, quatro anos.

Seja bem-vindo de volta. Eu estava com saudades.

******

Rafael Bastos Hocsman é humorista e jornalista

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