Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > ‘TAL CUAL’

Jornal opositor é vítima do cerco à imprensa na Venezuela

Por Catalina Lobo-Guerrero em 03/03/2015 na edição 840
Reproduzido do El País, 27/2/2015; título original “Jornal opositor ‘Tal Cual’ é vítima do cerco à imprensa na Venezuela”, intertítulo do OI

“Olá Hugo”, foi a grande manchete em letras negras da primeira edição de Tal Cual, que circulou na segunda-feira, 3 de abril de 2000. O jornal de opinião, provocador e crítico, nasceu como resposta às primeiras tentativas do então presidente Hugo Chávez de silenciar quem se revelava incômodo. E Teodoro Petkoff, da direção do jornal El Mundo, era um aborrecimento permanente. Foi demitido por pressão do Governo, mas três meses depois, graças ao apoio de um grupo de investidores, lançou o Tal Cual. “Aqui estamos, outra vez. Acreditaram que iam nos calar. Bem, não conseguiram”, dizia o editorial de estreia. Mas nesta sexta-feira publica seu último número como jornal diário para passar a ser semanal.

Falar do Tal Cual é falar de Petkoff. O símbolo do jornal é uma caricatura do venezuelano, com suas lentes quadradas e seu bigode característico, e o lema da publicação resume o estilo de seu fundador, “claro y raspao”, algo como “sem rodeios”. Economista e militante de esquerda, ex-guerrilheiro, fundador do partido Movimento para o Socialismo (MAS), deputado do Congresso e ministro do Governo, Petkoff foi um dos homens mais influentes na vida nacional. Seus editoriais, inicialmente publicados na capa do vespertino, eram lidos como uma bússola para saber em que rumo ia o país, tanto por governistas, como opositores.

Mas nos últimos meses Tal Cual perdeu força. A saúde de Petkoff, de 83 anos, começou a deteriorar-se ao mesmo tempo em que os anunciantes, afetados pela crise econômica, mas também pelas pressões do Governo, foram retirando seus anúncios. “Os números não estão no vermelho, estão no roxo”, diz o chefe de redação Xabier Coscojuela, que tomou as rédeas do processo de conversão de jornal diário em semanário, em um esforço por salvá-lo. A edição diária circula pela última vez na quinta-feira e 75% dos funcionários, que ganhavam salário mínimo, irão para casa.

A versão digital, a cargo de Omar Pinedo, antigo companheiro de luta de Petkoff desde o MAS, continuará sendo atualizada diariamente. Pinedo recorda com nostalgia que o jornal chegou a ter 42 páginas e uma equipe de quase 100 repórteres que davam manchetes denunciando e criticando medidas do Governo e também da oposição. “Teodoro tinha a visão de que, em relação ao poder, o jornal devia ser como uma mosca no lombo de um cavalo e esse espírito foi captado pela geração de jornalistas que tivemos”.

Como um viveiro de jornalistas, assim recorda Valentina Lares a redação dos primeiros anos de Tal Cual. “Era uma confraria bem bonita. Éramos muito próximos, todos e todas éramos papito para Petkoff”, diz sobre o apelido carinhoso do diretor.

“Sentido para a vida”

Depois do golpe contra Chávez em 2002 e da paralisação petroleira contra o Governo, a que Petkoff se opôs – o que levou setores da direita a rotularem-no de chavista, o jornal sofreu seu primeiro revés econômico, do qual nunca mais se recuperaria. Depois vieram as investigações do fisco, os processos judiciais, que segundo o advogado do Tal Cual, Humberto Mendoza de Paola, são nove. Esteve a ponto de quebrar também quando foi multado por causa de uma carta escrita pelo humorista Laureano Márquez a Rosinés Chávez, filha mais nova do falecido presidente, em uma coluna em novembro de 2005. Mas, graças ao apoio popular, conseguiram levantar os fundos para pagar a multa.

Para os leitores, a ausência de Petkoff, que desde o início do ano não escreve suas colunas, e a transformação em semanário representam mais uma baixa para o jornalismo impresso venezuelano, que sofreu as consequências de ser crítico ao Governo de Maduro. “É uma retirada tática, para usar a linguagem do Governo. O jornal continua resistindo”, diz Laureano Márquez.

No ano passado, escritores e jornalistas organizaram um ato de solidariedade ao Tal Cual depois de o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, processar um colunista, Petkoff e toda a diretoria, argumentando que atribuíram a ele uma frase que não tinha dito. Proibidos de sair do país pela juíza que cuida do caso, estão submetidos ao regime de apresentação semanal enquanto se adianta o julgamento. Mais magro que de costume, mas com a mesma voz robusta, Petkoff se dirigiu a seus amigos na tarde de quinta-feira: “o Tal Cual não é um jornal, é uma política, um sentido para a vida que nos mobiliza. Sinto-me orgulhoso do papel que pouco a pouco acabou desempenhando na vida venezuelana”.

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Catalina Lobo-Guerrero, do El País, em Caracas

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