Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CADERNO DA CIDADANIA > VIOLÊNCIA URBANA

Balas perdidas não fazem barulho

Por Marcilene Forechi em 10/03/2015 na edição 841

Tauanny Jesus de Paula tem três anos. Vive na comunidade de Pedreiras, em Costa Barros, na zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Foi baleada nas costas, na noite do dia 27 de fevereiro, quando estava sentada com a mãe o irmão na porta de casa. Ninguém sabe de onde veio o tiro. Todos sabem que se trata de uma bala perdida. Em reportagem da GloboNews, no sábado, dia 28/2, a versão da polícia para o episódio dá conta de que criminosos trocavam tiros na comunidade quando a criança foi baleada. A mãe disse não ter ouvido barulho de tiros quando a menina foi atingida. De acordo com a reportagem “a menina estaria sentada à porta de casa”, e estaria “com a bala alojada na coluna”.

A madrinha de Tauanny afirmou na reportagem que ela precisava ser transferida para outro hospital, pois no Salgado Filho, no Méier, local para onde tinha sido levada, não havia vagas para realizar a cirurgia de retirada da bala. A reportagem termina com a apresentadora narrando a versão oficial de que não havia necessidade de fazer intervenção, apesar da bala alojada na coluna, e que a menina passava bem. Ao escrever esse texto, não sei qual o estado de saúde de Tauanny, pois não encontrei mais informações sobre o caso na imprensa. Também não sei se a bala “supostamente” alojada na coluna oferece algum tipo de risco, pois não me recordo de ter sido ouvido a versão do médico que a atendeu ou do hospital.

Já no caso de Larissa de Carvalho e Asafe Ibraim, sabemos o desfecho da história. Os dois, ela com três anos e ele com nove, morreram após terem sido atingidos por balas perdidas. Larissa, no dia 17 de janeiro, quando saía com os pais de um restaurante em Bangu; Asafe, no dia 18 de janeiro, quando se divertida no Sesi de Honório Gurgel, também na zona Norte do Rio. As vítimas de bala perdida no Rio de Janeiro têm sido apresentadas pela imprensa numa sucessão de casos lamentáveis em meio às comemorações pelo aniversario de 450 anos da cidade.

Não há associação entre os mortos e feridos por balas perdidas com o fenômeno da violência que assola não só a cidade maravilhosa, mas todo o país, e que está longe de merecer atenção devida de autoridades ou dos veículos de comunicação. Até o dia 31 de janeiro, já haviam sido contabilizadas 26 vítimas de bala perdida na cidade do Rio de Janeiro (esse número consta de reportagem no R7, publicada no dia 26 de janeiro). O silêncio da imprensa sobre a violência é sutil e ganha forma nas narrativas que tornam banal o fato de alguém receber um tiro simplesmente pelo azar de viver em meio a uma região tomada pelo tráfico.

Importância e relevância

No jornalismo declaratório praticado, quando o assunto é violência pública as versões oficiais sempre fecham as questões e as reportagens. O verbo condiciona e “a menina estaria com a bala alojada na coluna”, “o jovem estaria portando uma arma”, “a mulher teria algum envolvimento com o tráfico”. O trabalho de apuração parece tão frágil quanto as balbuciantes explicações dos policiais e das autoridades. Como mediadora das diversas realidades que se entrelaçam no país, a imprensa deixa de estabelecer conexões e veste a fantasia da indignação, como se indignar-se na frente das câmeras fosse parte do espetáculo.

Alguns casos parecem merecer ocupar mais espaço, como ocorreu com Ricardo dos Santos, assassinado na frente de casa no litoral de Santa Catarina, com o cinegrafista Santiago Andrade, atingido por um rojão durante ataque da polícia a manifestantes, ou com o atentado que matou os jornalistas do Charlie Hebdo, em Paris. Casos de violência que chocaram e deixaram feridas. Mas balas perdidas não são suficientes para quebrar o silêncio quando há muitos pesos e muitas medidas a determinar os critérios de noticiabilidade no nosso jornalismo. Há várias formas de se indignar, vários motivos para silenciar ou se fazer ouvir.

As vítimas da violência cotidiana nas grandes cidades brasileiras tornaram-se algo banal que não se traduz em novidade, critério tão caro ao jornalismo. Entre 2009 e 2013, foram contabilizados 53.646 homicídios no Brasil segundo a 8ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada no final do ano passado. Desse montante, 11.197 foram mortos pela polícia. Os dados fazem o Brasil ocupar o primeiro lugar em números absolutos de homicídios, com uma taxa de 65,1 mortos por grupo de 100 mil habitantes. Não é possível nomear tanta gente e, assim, a imprensa segue cumprindo outro de seus atributos, que é a seleção a partir da importância e da relevância.

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Marcilene Forechi é jornalista

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