Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > MANIFESTAÇÕES DE RUA

13 notas provisórias

Por Thiago Mattos em 16/03/2015 na edição 842

Passado o circo, os cartazes delirantes, a demonstração pública de ignorância histórica, ficam algumas questões. Tentarei resumir, o que talvez abra margem para mal entendidos. Mas, como escreveu Baudelaire, é pelo mal-entendido que a gente se entende.

1. Rir dos cartazes é inevitável. Não é todo dia que vemos manifestantes com cartazes como “Chega de Paulo Freire”, “Sim ao feminicídio”, “Military intervention already”. Mas isso não basta. Dizer que a elite desceu da sacada pode ser mais complicado do que parece. Para além dos sujeitos sociais, o que é elitista é o discurso, a posição no discurso, não os sujeitos em si. Há professores estaduais, desempregados, metalúrgicos, atendentes de supermercado… Não será surpreendente se o próximo panelaço tiver barulho no Itaim Bibi e no Itaim Paulista. O perfil dos manifestantes era do típico cidadão de classe média e classe média alta (Salvador, a cidade mais negra do Brasil, teve uma manifestação majoritariamente branca, fazendo lembrar os cordões de isolamento do carnaval). A questão, no entanto, é mais complexa do que qualificar manifestantes de coxinhas, apesar de ser inevitável e, admitamos, divertido. Há pessoas muito longe de ser elite participando de tudo isso. A direita não é composta só por ricos, rentistas e banqueiros. Ser trabalhador não significa que não posso assumir a posição discursiva do patrão.

2. Denunciar a parcialidade da Globo, da Folha, da Veja, do Estadão é muito importante, mas é da ordem da evidência. Ou alguém esperava algo diferente? Alguém ainda espera que milagrosamente essas empresas (porque são empresas, há quem esqueça) deixem de ser um partido político, ou um quarto poder, e voluntariamente se pautem em critérios mínimos de honestidade intelectual, profissional etc.? A saída é democratizar a mídia, algo tão bolivariano e comunista que países como Portugal, França e Alemanha já fizeram. É saudável e útil continuarmos denunciando o modo absurdo como a informação, ou certo modo de informar, é monopolizado. Mas a denúncia deve ser um meio (para a democratização), não um fim em si.

3. Refém de um limitado (e contraditório) pacto social, que já naufragou desde o final do segundo mandato do Lula e que só foi se agravando, o PT está perdido, tentando segurar as pontas de duas cordas que vão se afastando. Parece que ainda julgam possível agradar o baronato nacional e a classe trabalhadora. A tensão histórica, que mesmo nos melhores tempos do lulismo esteve sempre subjacente, estourou. Os donos do poder (que não é o PT, mas os agentes econômicos donos das democracias ocidentais) sabem que o melhor nesse contexto é um governo sangrando por quatro anos, imóvel, entregando anéis, dedos, calças, braços, com um espectro de impeachment no horizonte e com ocasionais acenos de trégua para reencenar os apertos de mão e as garantias de inércia.

Nacionalismo e paranoia higienista

4. Sabemos que o PT desmantelou a maioria das ferramentas da esquerda; despolitizou a política, despolitizou o cotidiano, despolitizou o trabalhador, levou o crédito (e, por conseguinte, o consumo) para um grupo de trabalhadores que, despolitizados, viram no crescimento do seu padrão de consumo uma meritocracia difusa. Enquanto as elites históricas do Brasil aumentavam seus lucros (nunca os bancos lucraram tanto), os trabalhadores compravam TV de tela plana, carro com IPI reduzido e parcelavam a viagem em 12 vezes. Mas o fluxo de dinheiro acabou, o pacto de todo mundo ganhando não é mais possível, e é preciso fazer escolhas. Como enfrentar os ricos se a base de apoio popular foi despolitizada? Como enfrentar os ricos quando numa campanha política você vira à esquerda, conquista apoio de movimentos sociais e, retomado o governo, faz (quase) tudo que dizia que o outro, antagonista cada vez menos antagônico, faria? Sabemos das conquistas do PT nesses quase 13 anos, principalmente em relação aos mais emergencialmente vulneráveis (não é pouco tirar o Brasil do mapa da fome), sabemos que um saque de 500 anos não vai terminar em 13, que dívidas sociais históricas não serão resolvidas em três mandatos. Mas a sensação de que o acordo com os poderosos falou e fala mais alto é inevitável, percebe-se na prática governista, no fisiologismo PMDBista, na falta de enfrentamento, na opção por não contrariar interesses e, assim, contrariar movimentos sociais, setores populares, grupos sociais progressistas.

5. Podemos ficar chocados com o fato de um governo que está fazendo todo o jogo da direita, do mercado financeiro e da grande imprensa (o que não se dá somente no ajuste fiscal, mas em um aceno ministerial aos setores mais fortes da direita nacional) ser atacado exatamente por esses setores. Mas o que está em jogo não é se o governo está tomando ou não as medidas que o candidato natural da direita tomaria. O que está em jogo é que, para grande parte da população, o PT ainda é um partido popular, um governo de esquerda, e, como tal, deve ser aniquilado. O que está em jogo é sangrar a imagem da esquerda por quatro anos, enfraquecer qualquer outra alternativa de esquerda, real (mas o que diabos é real?) ou simbólica.

6. Não interessa se na Avenida Paulista cabem 100 mil, 1 milhão ou 500 mil. O que interessa para a grande imprensa não são os fatos, as manifestações na sua singularidade. O que interessa é se apropriar dos fatos, dar origem a um modo de significar essas manifestações, independente da pauta, se há pauta. Lembrem-se de como começaram a ser significadas as manifestações de junho de 2013; como o quebra-quebra do MPL se transformou numa festa da democracia, tão inofensiva quanto as eleições de 2 em 2 anos. Tudo é absorvido e (re)significado. O contraditório se torna consenso, o político volta a ocupar o lugar do institucional, da legalidade, do democrático, dentro de uma noção capitalista e confortável de democracia.

7. A tarefa da esquerda crítica ao PT (PSOL, MTST etc.) é dificílima. Por enquanto, o que leio são pessoas falando da necessidade de construir ferramentas para politizar essa massa de insatisfeitos. Exatamente o que se falava em 2013. Como mobilizar e politizar pessoas que já vão para as ruas pedindo intervenção militar? Há um grupo que já assumiu seu lado, já sabe o que quer, sempre soube. O que parece mais urgente é chegar a dialogar com essa massa de “insatisfeitos”, avessos ao sistema político atual. Insatisfeitos apolíticos sempre foi o prato cheio da extrema-direita, com seu nacionalismo e sua paranoia higienista. Como disputar essas pessoas com a extrema-direita, amparada por todo um maquinário midiático? Eu não sei, não tenho ideia. E me pergunto se essa massa difusamente insatisfeita, tão identificável em 2013, não é agora uma massa que tomou posição, já se colocou no espectro político e só vai olhar para a tua cara de militante de esquerda se for pra dar um bofete.

O apoio público a um período criminoso

8. Em termos puramente práticos, volto a dizer o que disse dispersamente acima: não vai ter impeachment (mas sabemos que o Brasil não é para principiantes, e eu sou ainda menos que isso); o impeachment é uma ameaça no horizonte, uma coleira. Sangrar o governo por quatro anos, um governo ainda associado pela maioria da população à esquerda, parece a melhor maneira de, em 2018, retomar o controle direto do Estado, sem intermediários, jogando para o mesmo saco todo projeto político associado (independente da “verdade”; estou falando de discurso, de efeitos de sentido, de disputa de sentido, isso que é, afinal, a política) à esquerda.

9. As democracias ocidentais estão falidas. O sistema representativo das democracias capitalistas não dá conta de mais nada. A crise política do Brasil não é algo isolado. Tampouco o ataque direto à mancha política tradicionalmente associada à esquerda. O chavismo está na sua pior crise, o kirchnerismo agoniza a céu aberto, o Partido Socialista francês deve sofrer uma derrota acachapante, abrindo espaço para a extrema-direita delirante do Front National dos Le Pen, de inspiração abertamente nazista. Independente do caráter mais ou menos esquerdista ou progressista desses exemplos (não estou dizendo que Hollande é um sujeito exatamente de esquerda), o que está em jogo é o enfraquecimento das alternativas menos diretamente ligadas ao baronato.

10. Maria Rita Kehl, no início dos trabalhos da Comissão da Verdade, deu uma longa entrevista para a Caros Amigos em que se recordava que a ideia de que a época da ditadura foi um período de sistemática contestação ao regime por toda a sociedade é uma balela pós-redemocratização. A maioria dos jovens e famílias estavam maravilhados nos shoppings recém-inaugurados. A classe média se dividia entre aqueles que apoiavam o regime (o velho hábito de apoiar tudo que é apoiado pela elite, achando que um dia vai fazer parte dela) e aqueles indiferentes a ele. Um grupo formado por uma parte mais ou menos pequena de trabalhadores, intelectuais e artistas é que se opunha à ditadura, fugia de cavalaria, militava, eram exilados. Os apoiadores da ditadura continuam vivos, em muitos sentidos, o que não espanta; o que me (me) espanta é como passaram a manifestar publicamente, tão à vontade, apoio a um período criminoso. As organizações Globo admitiram que foi um erro apoiar o golpe, mas vão apoiar de novo, se houver outro; principalmente um golpe branco.

A dificuldade da esquerda crítica ao PT

11. Essa polarização, simbolicamente representada pelas manifestações dos dias 13 e 15, empobrecem a vida política, porque é esquizofrênica: centrais sindicais precisam ir às ruas para dar apoio, ainda que indireto, a um governo que ataca direitos trabalhistas e põe a crise na conta dos mais pobres; a direita vai às ruas para se opor a um governo que está fazendo tudo que seu candidato natural faria. Mas, nesse caso, não estão se opondo a essas medidas. O que move a direita é a ideia desistoricizada de um “mar de corrupção”, de uma doença que deve ser extirpada. Lacerdistas e míopes históricos. Mas, dada a conjuntura, seria ingenuidade esperar outra coisa.

12. O PT está sozinho. Nem a manifestação do dia 13 foi exatamente pró-governo. A virada à direita, ainda maior do que já foi no primeiro mandato, é imperdoável. O cinismo é imenso. Se o governo não fizer uma guinada radical à esquerda, não sei até quando a pequena base social que ainda o sustenta vai suportar. Ao mesmo tempo, o que as manifestações do dia 15 pedem não é nem de longe uma virada à esquerda, uma reforma política ou qualquer coisa assim, e fazer essa virada nesse momento pode significar, em relação a essa massa insatisfeita, uma radicalização das insatisfações, oxigenadas pelo discurso ultraconservador de viúvas da ditadura, vai-pra-Cuba etc. Se a resposta do PT for chamar os manifestantes de fascistas e assunto encerrado, está lascado. A sensação de que o governo está paralisado, mergulhado nas suas próprias contradições históricas, é geral, de trabalhadores a patrões. A questão é reagir puxando a corda pra que lado.

13. O PT pode ter agradado banqueiros, ruralistas, rentistas. É, ou foi, o tal pacto social, costurado por Lula na sua carta aos brasileiros. Mas a elite não quer nem nunca quis o PT. Os frequentadores de Miami, as pensionistas de pai coronel, as madames de babá no passeio de domingo… sempre vão odiar o PT porque o PT, para eles, é popular. Nossa elite odeia o povo, sempre odiou. O PT ainda é para a maioria um partido popular, de esquerda, defensor de pautas indigestas (quais, não sabemos, mas eles acham que sim). Perder tempo agradando a essa gente é tolice. É preciso ter coragem para governar contrariando interesses. Mas talvez o PT não tenha mais esse capital. Talvez governar contrariando interesses signifique contrariar seus próprios interesses. Essa me parece a dificuldade da esquerda crítica ao PT a partir de então, denunciar os enganos e contradições do PT e, ao mesmo tempo, não dar gás a essa oposição de ultradireita, golpista, arrogante e preconceituosa. Ocupar um intervalo, um silêncio, que se estende abissalmente entre (ou para além de) o governismo e o elitismo.

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Thiago Mattos é mestrando na FFLCH-USP, professor e autor dos livros Teu pai com uma pistola (2012) e Casa devastada (2014)

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