Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > MANIFESTAÇÕES DE RUA

Os media ‘extremamente politizados’ e os ‘midiotas’

Por Hugo Torres em 16/03/2015 na edição 842
Reproduzido do Público (Lisboa), 15/3/2015; intertítulo do OI

O índice de popularidade de Dilma Rousseff está a aproximar-se dos mínimos históricos de Fernando Henrique Cardoso. Reeleita em Novembro, a Presidente contabiliza 21 pontos negativos no índice. O que aconteceu em tão pouco tempo? À esquerda, a resposta é uma só: a imprensa.

“A grande mídia brasileira está extremamente politizada e toda concentrada em uma região do espectro ideológico, que vai do centro à direita”, explica ao PÚBLICO João Feres Júnior, investigador da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e coordenador do Manchetômetro. Este projecto é um watch dog dos principais meios de informação do país, onde se analisa diariamente o noticiário e a opinião produzidos na Folha de S.Paulo, no EstadãoO Globo e na TV Globo.

O desequilíbrio entre as peças negativas para o Governo “petista” e as favoráveis tem sido gritante. Há dias em que nada de positivo é publicado. Sendo certo que um Executivo está sob constante escrutínio, a leitura de Feres Júnior, doutorado em Ciência Política, rechaça a tese da normalidade e aponta as manifestações de Junho de 2013 como o ponto de viragem no jornalismo de massas brasileiro.

No estudo que está a desenvolver sobre a cobertura mediática desses acontecimentos – que tiveram repercussão internacional –, o investigador notou que “a cobertura começou extremamente negativa, mas aos poucos foi mudando e em menos de duas semanas se reverteu totalmente”. Porquê? “Quando a mídia entendeu que aquelas manifestações podiam ser reinterpretadas como um ataque directo à Presidente e ao Governo do PT, passou a apoiá-las.”

“Cobertura equilibrada”

Crítica recorrente aos media em relação aos protestos deste domingo [15/3] foi a publicitação dos pontos de encontro e dos horários das manifestações, assim como o destaque dado a acções “preparatórias” como a que reuniu no Rio de Janeiro, na quarta-feira [11], 39 pessoas. O promotor do encontro pífio com impacto nos noticiários nacionais foi o grupo Revoltados Online, que defende uma intervenção militar no país (apelo que é ilegal no Brasil).

“Obviamente não há razão para tanto destaque. Jornalisticamente, é uma aberração. Mas pode-se entender isso quando se sabe que a imprensa actua como partido político, faz o papel que a oposição não consegue fazer”, considera Sylvia Debossan Moretzsohn, professora de jornalismo da Universidade Federal Fluminense e colaboradora do Observatório da Imprensa, ao PÚBLICO.

Moretzsohn chama a atenção para uma situação ainda mais curiosa: a decisão de antecipar o jogo do Palmeiras, de forma a não coincidir com o protesto em São Paulo, por questões de segurança. “O estádio é longe da Paulista [7 quilómetros], o adversário do Palmeiras não tem torcida na capital [estadual]. Isto revela, além do apoio à manifestação, uma articulação entre o governo paulista e a Globo, que transmite o jogo e não permitiria mexer na grade [programação] a não ser por um motivo de força maior, que é o empenho em derrubar o Governo.”

A história deste braço-de-ferro tem origem na eleição de Lula da Silva, em 2002. É a opinião de Luciano Martins-Costa, que há mais de uma década faz análises diárias da imprensa brasileira para o Observatório da Imprensa. Este experiente jornalista costuma até usar um termo nada simpático para qualificar quem consome e propaga acriticamente informação propalada pelos media: “midiotas”.

“Midiota é o indivíduo que compra pelo valor de face o noticiário e as opiniões da mídia, sem reflectir nos aspectos controversos que contém”, explica ao PÚBLICO. Existem ainda “os midiotas de alta renda”: os “abestados abastados”. Esses são, segundo Martins-Costa, os que culpam Dilma e o PT de tudo o que corre mal no país, ainda que o problema seja municipal, estadual ou mesmo casuístico.

O jornalista acusa os órgãos de comunicação social de contribuírem para o caos, em vez de esclarecerem os leitores. Martins-Costa lamenta mesmo o fim de “uma antiga tradição que dividia a imprensa brasileira entre os diários de qualidade e o que chamamos de ‘imprensa marrom’ – a mídia popular e irresponsável”.

O PÚBLICO pediu na sexta-feira [13/3], por e-mail, comentários ao directores dos principais jornais visados (FolhaEstadão e O Globo), mas não obteve resposta. À provedora do leitor da Folha, Vera Guimarães Martins – que na sua crónica deste domingo escreve em tom crítico sobre este assunto –, a secretaria de redacção defende que o jornal tem feito “uma cobertura equidistante e equilibrada”.

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Hugo Torres, do Público

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