Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > MANIFESTAÇÕES DE RUA

‘Protesto pacífico’ e uma abordagem diferente da mídia

Por Paulo Vitor Aquino Dal'Col em 16/03/2015 na edição 842

Se é notório que os milhões de brasileiros que foram às ruas no domingo (15/3), em diversos municípios do país, não podem fazer parte da “elite branca” pregada por alguns governistas – por total incompatibilidade numérica –, também fica claro pelas imagens capturadas nos protesto que não se tratava, predominantemente, de representantes da classe mais pobre.

Ressalvadas as devidas exceções, o que pôde ser observado foi um movimento da classe média, com algumas bandeiras divergentes, mas cujo ponto de convergência era justamente o descontentamento com o atual governo. Alguns poderiam afirmar também que neste ponto de convergência estaria incluído o “combate à corrupção”, mas o que diferenciou os manifestantes de sexta-feira (13/3) dos de domingo (15/3) foi justamente o apoio ou a crítica ao atual governo federal, já que o descontentamento com a corrupção foi elencado como bandeira de ambos os protestos.

Nenhuma das demais bandeiras levantadas, desde o impeachment até a intervenção militar requerida por alguns extremistas, foi capaz de aglutinar o mesmo apoio da massa de manifestantes, de tal forma que os gritos que ecoaram uníssonos nas manifestações foram, todos eles, gritos contra o atual governo (alguns generalizados ao PT, outros dirigidos diretamente à presidente – ou presidenta – Dilma Rousseff).

Houve de fato algumas semelhanças com as manifestações ocorridas em junho de 2013, seja pelo grande número de pessoas, pelos atos simbólicos – como a caminhada por cima de pontes, avenidas famosas, e Esplanada dos Ministérios – , ou pela falta, novamente, de um líder a quem se pudesse “dar os créditos” pela mobilização. Alguns personagens, como Bolsonaro e Paulinho da Força, chegaram a tentar colher estes créditos, mas foram impedidos pelos manifestantes até de discursar. Outros, como Aécio Neves, não chegaram sequer a comparecer presencialmente ao ato.

Todavia, a principal diferença entre as manifestações ocorridas em junho de 2013 e as de ontem está na cobertura dada pela grande imprensa. Ao contrário da cobertura de 2013, não se viu na data de ontem nenhuma tentativa de criminalizar o movimento, nem tampouco houve a utilização da mística terminologia “vândalos” – e seus derivados – uma espécie de “subversivos do tempo moderno”.

Tempos de crise

Afirmar que a abordagem diferente dada pela grande mídia se deu pela mudança no comportamento dos próprios manifestantes me parece algo ingênuo, e talvez resultante de uma certa alienação política. Em nenhum protesto popular de tamanho tão expressivo, ainda mais não havendo uma liderança bem definida, será possível controlar o comportamento individual de toda a imensidão de manifestantes. Em outras palavras: por mais que haja o esforço árduo por um movimento pacífico, não há como se controlar a atitude individual de todos os manifestantes.

Vou me ater a um único fato ocorrido ontem, apenas a título de exemplificação. Em Jundiaí (SP) foi ateado fogo à sede do Partido dos Trabalhadores. Ato grave, extremista, que certamente não contava com o apoio da maioria dos manifestantes. Ocorre que em junho de 2013 também ocorreram situações de extremismo, como quebra de cabines de pedágios e destruição de veículos de emissoras de TV, nos quais a abordagem dada pela imprensa foi nitidamente diferente. Então será que o “protesto pacífico” gerou uma diferente abordagem da mídia, ou a abordagem da mídia gerou um protesto pacífico? Nas palavras de Churchill “não existe opinião pública, existe opinião publicada”.

A diferente abordagem dada pela grande imprensa pode ser interpretada por uma infinidade de diversos fatores, só o que não pode é ser ignorada ou subestimada. Seria uma resposta ao pronunciamento da presidente que afirmou que “noticiários confundem mais do que esclarecem”? Um indício de novo posicionamento político de algumas grandes emissoras? Sinal de apoio à oposição? Sinal de apoio ao próprio movimento pró-impeachment?

Qualquer que seja a interpretação dada ao fato, a questão é que tudo indica que dessa vez a presidente não vai contar com a cobertura que lhe foi dada em 2013. Vandalismo parece que não será a chamada mais utilizada durante o Jornal Nacional. Em tempos de crise, parece que desta vez a presidente perdeu o apoio de um aliado tão ou mais forte e traiçoeiro do que o PMDB: a “grande impresa”. Sejamos diretos: a Rede Globo.

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Paulo Vitor Aquino Dal'Col é advogado

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