Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CADERNO DA CIDADANIA > MANIFESTAÇÕES DE RUA

Sobre ideologia e mídia

Por Cristiano de Sales em 16/03/2015 na edição 842

Se a ideologia estivesse em crise, seria bom. Afinal, crise, como os pensadores do século 20 pretensamente ligados a uma França intelectual nos ajudaram a enxergar, não é algo de todo ruim. “Criação”, “crítica” e “crise” são palavras que esbarram na mesma fonte etimológica. São também práticas que de alguma maneira se coadunam. Logo, estivéssemos diante de uma crise ideológica (no que tange, reduzidamente, à direita e à esquerda), quem sabe estaríamos também vivendo um momento de reinvenção, de criação, ou de criticidade.

O Brasil testemunhou no domingo (15/3) uma imensa mobilização de pessoas nas ruas, sobretudo em São Paulo. Os números divulgados batem recordes históricos. As pessoas atenderam convocações feitas na internet e foram às ruas manifestar sua insatisfação contra o governo federal. Este é um fato que não pode ser diminuído, estratégia que provavelmente será usada pelos defensores do governo, sobretudo por aqueles das redes sociais.

Diminuir o manifesto consiste em não interpretá-lo e, consequentemente, não dialogar, o que significa violar um dos princípios mais importantes da democracia. Não dialogar, ou não ir a público para dar satisfações claras acerca das medidas políticas e econômicas, pode ter sido um dos motivos da imensa manifestação de domingo. Insistir neste erro pode ser o início do fim dessa hegemonia tão desejada pelo Partido dos Trabalhadores no que diz respeito a dominar o Executivo do país.

A aparição do ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e do secretário-geral da Presidências da República, Miguel Rosseto, no início da noite do mesmo dia 15 para dar uma resposta às manifestações mostra que algo já se conquistou com o protesto: a convocação de homens do governo para conversar sobre o momento de incertezas que o país vive. Ambos os ministros falaram em reformulação política e chamaram a atenção para a necessidade de modificar os financiamentos de campanha (principal entrada da corrupção, segundo Cardozo).

Bom seria se as ruas fossem tomadas em breve para exigir a confirmação desse compromisso. Se a preocupação desse milhão de pessoas que foram às ruas é de fato a corrupção, que a próxima pauta seja a reforma política, único instrumento realmente poderoso para se combater a corrupção.

Ausência da ideologia

O que preocupa, e aqui voltamos o foco para a mídia, é se realmente o povo está nas ruas contra a corrupção. De acordo com a cobertura ao vivo feita pela GloboNews durante o domingo, a manifestação estaria fincada em três bases: contra a corrupção, pela intervenção militar e pelo impeachment da presidente. Segundo a mesma emissora, apesar dessas três bandeiras, o que prevaleceu nas ruas foi a vontade de combater a corrupção no governo. Assim sendo, nada mais urgente para a própria mídia do que mostrar o principal caminho para se combater a corrupção. Mas será isso que tem sido feito?

Não creio que a cobertura jornalística venha colaborando para esclarecer os meandros do combate à corrupção. No caso da GloboNews, contávamos com os comentários em tempo real da jornalista Cristiana Lobo, que a todo momento enfatizava os equívocos da presidente e afirmava a necessidade da mesma aparecer em público para explicar a crise política e econômica. Por mais que não devamos mais acreditar em imparcialidade midiática no que cerca os governos, a flagrante parcialidade com que a GloboNews conduziu a transmissão não estimula o espectador a entender o momento histórico que estávamos testemunhando. Quando se cria na mente do espectador o discurso de que a reivindicação é tão-somente contra a corrupção do governo, anula-se a complexidade do fenômeno, pois todos somos contra a corrupção. Mesmo aqueles que foram às ruas com a camisa da CBF, uma instituição que não deve servir de exemplo de ética.

Quando a mídia, por meio de empresas formadoras de opinião, como a Globo, por meio de seu canal all news, que certamente está ajustado à linha editorial do canal aberto, interpreta de maneira reduzida o acontecimento (sim, pois toda vez que o repórter era chamado diretamente da Avenida Paulista o que se ouvia pelos microfones da empresa era o pedido de “Fora Dilma”, e não de “Fim da corrupção”), ela está não apenas empobrecendo o debate, mas também tirando de seu espectador a oportunidade de entender talvez o pior ponto de nosso momento político: a ausência da ideologia.

E a liberdade de expressão?

O que enfraqueceu, e muito, o apoio que a presidente ganhou das bandeiras mais à esquerda para se reeleger, bem como fomentou a decepção de outros eleitores que apostaram num segundo mandato, é justamente o não enquadramento do governo em uma ideologia bem definida. Não se caminha pela esquerda nem pela direita. Aposta na manutenção e engrandecimento de alguns projetos sociais importantes e, ao mesmo tempo, na política econômica identificada com a direita. Isso gera insatisfação daqueles que a queriam mais à esquerda. Já a insatisfação daqueles que se acreditam à direita se revelaria de qualquer forma.

Mas o que não tem sido abordado pela imprensa em geral (até mesmo pela imprensa alternativa e nas redes sociais), e nem mesmo admitido publicamente pelos governos, é que o conceito de ideologia dividido em direita e esquerda não existe mais na prática dos poderes Executivo e Legislativo. Para quem ainda gosta de discutir política em redes sociais, bares, festas, jornais, revistas e universidades, talvez ainda consiga peneirar resquícios dessa ideologia. Mas no cotidiano do sistema político em que vivemos, os acordos financeiros e de influência no que diz respeito a quem vai mandar e ser mandado estão sempre à frente disso que ainda chamamos de direita e esquerda. Estas não hesitarão em dar os braços quando os tais acordos financeiros e de influência interessarem aos dois lados.

A divisão direita/esquerda interessa a quem está no poder apenas como um campo semântico para alimentar os debates em meio ao povo e na imprensa, mas não necessariamente como formas de governo. Se Dilma Rousseff viesse a público explicar que as políticas econômicas aparentemente de direita em seu governo fazem parte da única alternativa para a enrascada financeira em que o Brasil se encontra, bem como a imprensa parasse de sugerir nas entrelinhas a substituição do governante para promover o efetivo combate à corrupção, pela via da reforma política, quem sabe entenderíamos que estamos diante de uma crise que pede uma reinterpretação das ideologias.

Se os homens do governo e a imprensa explicassem com mais clareza que direita e esquerda não dão conta sozinhos do sistema viciado em que nos metemos, e que portanto a fisiologia desses governos nunca terá a feição de apenas um lado, ou de apenas uma ideologia, quem sabe entenderíamos que direita e esquerda só fazem parte das nossas discussões, e que nós quase nunca estamos representados onde as decisões são efetivamente tomadas.

Se a mídia (e aqui está inclusa a mídia alternativa) alimenta ainda essa ideologia dicotomizada em direita e esquerda, talvez seja porque ela vê em um dos lados a possibilidade de ascender e se tornar o próprio poder. E isso é abrir mão do que ela tem de mais nobre: a liberdade.

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Cristiano de Sales é professor de Comunicação Social

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