Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > MANIFESTAÇÕES DE RUA

Twitter, emoção e despolitização

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 16/03/2015 na edição 842

Na semana passada, as medidas, métricas e monitoramento do comportamento do público nas redes sociais foram sensação na mídia. Mapas com posições e menções a manifestações populares fizeram sucesso na web. Apareceram no Globo (9/3), no blog Pragmatismo Político (13/3) e no El País em português (11/3) – que logo depois os retirou do site. Ferramentas técnicas de monitoramento do Twitter mostraram sua utilidade para a população e a imprensa, que puderam testemunhar de forma gráfica a disposição das forças em ação durante o “panelaço” do dia 8 de março, graças ao mapeamento publicado primeiro no Facebook pelo pesquisador Fábio Malini (9/3). Observem o mapa e as posições da “grande mídia” assinaladas:

mapaTwitter

(Mapa elaborado por Fábio Malini em 9/3, editado por Sergio da Motta e Albuquerque em 14/3)

O mapa mostra as forças de apoio ao governo em vermelho, encurraladas pela turma do “impeachment” (em azul) e seus aliados, como a imprensa histórica. São as organizações da mídia tradicional. No centro estão perfis de mídias, humor e outros. Notem a posição do Globo, com muitas conexões e forte presença no grupo do “impeachment”. A Folha de S.Paulo é a mais distante do grupo azul. O Estado de S.Paulo aparece próximo do fluxo de menções pró-impeachment, mas não tem tantas ligações quanto o diário carioca. O mapeamento foi feito a partir de 41 mil retweets com o termo “#panelaço”.

Esta imagem, muito simplificada e sujeita a manipulações de robôs-postadores da web, desvenda importantes aspectos da vida política do país em uma hora em que a grande imprensa parece impor todas as pautas aos leitores. Com relação às manifestações programadas para março (as duas), não houve agendas e projetos em choque, mas uma forte reação emocional de insatisfação da classe média e parte da população trabalhadora contra a atual administração federal. Este descontentamento foi cooptado pela mídia corporativa. É o que pensa o professor Fábio Malini, do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo e coordenador do Laboratório de pesquisa sobre Internet e Cultura (LABIC).

O professor acredita que não há solução sem a mídia livre (“midialivrismo”), sem laços orgânicos com governos e corporações. Ele, baseado na correlação de forças do mapa do “panelaço” do dia 9/3, fez a seguinte previsão para a o protesto do dia 15 (da turma do “impeachment”):

“…o governo Dilma não possui margem de manobra por aqui na internet. Para sobreviver nas redes, terá que contar – e muito – com essa ‘nova grande mídia’, que não possui nenhuma relação umbilical com o governo como têm os ‘blogueiros progressistas’ (que seguram o rojão até agora). Isso significa afirmar, no curto prazo, que o governo terá que ceder ao midialivrismo profuso, afirmando uma pauta política mais radical, em cenário hostil no Parlamento, em cenário hostil nesse Brasil dividido. Caso contrário, vai ganhar silêncio dessas ‘novas redes’. Não há nenhuma estratégia de marketing possível para vencer a ‘batalha da comunicação nas redes’, como diz o velho léxico esquerdista. É pegar ou largar, e sem a certeza da adesão, crítica ou não, dessa ‘terceira via digital’.”

Mídia independente

O cenário projetado pelo especialista pode ser usado para explicar a realidade atual mais ampla: o governo reeleito acabou por levar uma “chave de imobilização” da oposição, de grande parte da “base aliada” e da mídia corporativa. Juntas, elas levaram o governo a um comportamento apático, em que ele apenas apanha e reage de forma débil, sem nunca passar à ofensiva. Acabou encurralado pelas forças da oposição. E o povo acabou despolitizado por trás de uma saraivada ilusória de tweets postados por robôs. A emoção dominou a cena política e midiática. Os projetos políticos desapareceram, enquanto tudo se resumia a ser contra ou a favor de um ou determinado partido. E o ódio ao que pensa diferente entranhou-se entre nós a ponto de ameaçar o Estado democrático.

Malini acredita que há uma rede maior que as dos dois campos demarcados no mapa: a da mídia livre. Mas qual mídia livre? A Mídia Ninja, que em 2014 juntou-se à plataforma livre Oximity, uma organização internacional amadora que não edita o que publica? É muito pouco poder de fogo contra a mídia impressa e televisionada brasileira. O Black Bloc foi desmobilizado e amaldiçoado quando o cinegrafista Santiago Ilídio Andrade foi morto por um rojão disparado por um manifestante durante um protesto em 2014, no Rio. A grande imprensa e os políticos (da oposição e do governo) aproveitaram a ocasião para criminalizar as manifestações populares. Outros grupos menores logo saíram de cena. E a cena do “midialivrismo” diluiu-se em um conjunto de forças desconectadas e sem força efetiva. A grande imprensa e os conservadores levaram a melhor? Até o momento, tudo indica que sim.

Outros limites da imprensa independente foram apontados em entrevista concedida por Malini ao IHU-Unisinos (13/2): ele acredita que “vivemos um momento de artificialização da (re)publicação nas redes, provocada por postadores-robôs da web”, que sinalizam a “despolitização generalizada no Brasil, em que a carga emocional ganha, e muito, das definições bem-delineadas de medidas de ampliação dos direitos sociais”. Além disso, não escapou ao professor a possibilidade da cooptação dos agentes da mídia livre pelo governo, à medida que este atende as demandas da população mais pobre. Além disso, o fato de menções aparentemente favoráveis à atual administração muitas vezes são usadas para ironizar e atacar o governo federal. O que transforma rejeição em aprovação, e para os analistas de redes sociais isso traz uma significativa distorção para qualquer mapa de menções do Twitter.

Dito isso, eu ainda acredito, como o professor Malini, na força da mídia independente. Em sua necessidade em nossos dias. Mesmo que isto hoje ainda seja uma utopia: a hegemonia da imprensa histórica está arraigada na sociedade em todo o mundo. E a mídia independente carece de fontes de financiamento, apoio popular, credenciamento institucional e recursos técnicos para servir de contrapeso ao poder da grande mídia. Ainda está muito longe de poder “peitar” a mídia histórica conservadora. O mosaico que restou das organizações independentes na web foi despedaçado pela reação de 2014 contra os protestos de 2013. E as diversas redes livres que estão na mídia social sofrem dos males comuns a todas as estruturas em rede: a dificuldade em tomar decisões em conjunto em tempo hábil, e problemas em atingir consensos de ação conjunta.

O manto mentiroso

Mesmo com essas críticas, o argumento do professor Malini é válido para a situação política do país neste momento, e não apenas para mostrar as relações de forças em confronto nas redes sociais durante o “panelaço” do dia 8 de março. Especialmente no Twitter, o queridinho dos editores da imprensa e dos ativistas da mídia independente. Mas por que o Twitter? Em 2011, o Labic publicou a entrevista (7/4) que o professor José Luis Orihuela, da Universidade de Navarra, Espanha, concedeu ao repórter Sergio J. Valera. Este interrogou o acadêmico sobre contribuição que o Twitter pode dar ao jornalismo. A resposta foi sucinta e perspicaz:

“Twitter é para a mídia uma excelente plataforma para a difusão e viralização de conteúdos jornalísticos, é uma extraordinária ferramenta de monitoração de fontes e tendências e uma estupenda loja online de escrita breve. Para a sociedade, o Twitter representa o pulso da cultura, um meio de expressão muito simples e acessível e, sobretudo, um radar para captar os assuntos quentes. O Twitter se converteu no sistema nervoso de nossas sociedades, e devemos aprender a utilizá-lo.”

O Twitter é uma espécie de termômetro da sociedade em rede. Através dele podemos metrificar e monitorar o comportamento de agentes políticos e da mídia (corporativa ou livre). Além de ajudar nas convocações para mobilizações. O microblog não “fatura alto”, como o Facebook, seu “primo” mais ingênuo e conservador, mas sua contribuição à imprensa é muito maior. Assim como sua ligação com as mídias independentes.

Malini acredita que só resta ao governo o apoio da mídia livre, e uma política radical de mudanças que reverta tudo o que o segundo mandato de Dilma Rousseff fez. Ele já percebeu, já viu em seus mapas, que as representações pró-governo estão perdendo espaço para as forças da direita. Fazer a defesa da mídia independente é uma coisa, viabilizá-la na sociedade contemporânea é outra muito mais árdua e complexa. Mas não se deve abdicar da luta por uma imprensa livre. Assim como não devemos abandonar a crença em um mundo menos mercantil e submetido ao dinheiro. Acredito, sobretudo, que duas instituições importantes da sociedade – a política e a imprensa histórica – não precisam apenas ser reformadas. Precisam ser revolucionadas.

Mas isso é crença. É sonho. A realidade das ruas e das redes mostra um governo fragilizado por uma mídia manipuladora, que encontrou terreno fértil na política viciada do Brasil. A maior parte da mídia tradicional quer produzir noticiário para confundir a população e defender interesses políticos escondidos debaixo do manto mentiroso de “fiscal do governo” e da liberdade e imprensa.

Manipulação da opinião

Fábio Malini é um profissional de alta qualificação e eu respeito e apoio a maior parte de sua argumentação pró-mídia livre. Mas creio que, no momento atual, se o governo depender apenas da voz da mídia independente brasileira para fazer ouvir a sua voz e mudar o jogo depois de tantos erros, vai acabar em muitos problemas. Por enquanto, vai ter que se virar com o apoio dos “blogueiros progressistas” (que são tudo de bom, menos independentes), que formam uma espécie de contrapeso assimétrico contra a pressão da mídia tradicional. E isso é muito pouco.

O protesto da classe média estimulou a mesma para outras e maiores manifestações. Reforçou sentimentos de identidade de classe e poderá servir com estímulo para a volta as ruas dos opositores do atual regime. Nada demais até aí. Estamos em uma democracia firme, mas que vem perdendo o apoio à direita e à esquerda. Mas ninguém pode deixar de notar que, nas duas manifestações de março, faltou a presença da mídia alternativa. Não houve “midiativismo” de nenhum tipo. A manifestação anti-PT do dia 15/3 foi louvada na mídia por sua civilidade, educação e “pela ausência de mascarados”.

As duas manifestações foram pacíficas porque cada um dos lados no embate já não admite sequer a presença de quem pensa diferente por perto. Nos dois lados, nos campos em luta, a intolerância e o ódio são os mesmos. A grande mídia e o financiamento corporativo das campanhas eleitorais enfraqueceram nossa democracia e agora a correlação de forças no país não é nada favorável ao governo. O ódio a quem pensa diferente e a substituição da politização consciente pela emoção impulsiva dominam a cena política nacional. A hora é de alerta porque ativismo de mídia e redes sociais não são mais privilégios da esquerda.

E então chegou o dia 15 de março. Fábio Malini publicou outro mapeamento da movimentação no Twitter sobre a “guerra nas redes” entre os adversários nas eleições de 2014. A rede governista aparece em vermelho. A da oposição, em verde. O meio ainda precisa de mais pesquisa:

MapaTwitterDia15

(Mapa de Fábio Malini, editado por Sergio da Motta e Albuquerque, em 15/3)

Malini, como bom pesquisador, não esqueceu a metodologia:

“Foram 598 mil tweets até 20h30. Termos: Dilma, manifestação, protesto, vemprarua, menosodiomaisdemocracia, foradilma, forapt. Geraram 330 mil RTs, produzindo essa mega rede densa. Em vermelha, governistas. Em verde, oposicionista. Deu meio que empate (o esforço robótico de ambos valeu muito à pena, rs). A novidade ficou com o meio, que vale meses debruçados sobre ele” (Facebook, 15/3).

Muita gente vai perguntar: “Um milhão nas ruas (?) e deu empate?”. Não houve empate algum. A manifestação do dia 13/3 foi muito menor que a do dia 15. Isso é óbvio e ficou evidente em São Paulo. O mapa revela a movimentação no Twitter, e não a realidade das ruas. Observem como a posição da grande mídia não mudou. Continuou como a guarda avançada do protesto do domingo. Como no mapa do “panelaço”. Se nada mais ficou provado com esses estudos de movimentação de redes no Twitter, está claro que a “grande mídia” reina soberana nas redes sociais e manipula a opinião pública sem oposição significativa, enquanto a mídia independente ainda é bastante inconsistente para apoiar sem aliados poderosos a atual administração.

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Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor

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