Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > MANIFESTAÇÕES DE RUA

Não era golpismo

Por Milton Corrêa da Costa em 24/03/2015 na edição 843

A recente pesquisa de opinião divulgada pelo Instituto Datafolha indica que 62% dos entrevistados consideram, hoje, a gestão do governo Dilma Rousseff ruim ou péssima. Segundo a pesquisa, a popularidade da presidente caiu em todas os segmentos sociais e em todas regiões do país. Conclusão: as manifestações populares do histórico 15 de março de 2015 não eram golpismo. Era o brado dos que não aceitam mais os erros e as falcatruas tipo petrolão.

Gostaria de saber qual seria agora a interpretação do senhor secretário-chefe da Presidência da República, Miguel Rossetto, que na entrevista pós-manifestação disse que aquele protesto era dos que não votaram na presidente. Também seria bom ouvir o líder no PT na Câmara, Sibá Machado, que tratou as manifestações como uma ação da qual a CIA estaria por trás. Interpretações fora de sintonia ou de quem insiste em não enxergar o contexto adverso. Até os coloridos de vermelho, que se manifestaram na sexta-feira 13, onde boa parte recebeu umA bolsa-passeata com mortadela, através de sindicatos e movimentos sociais, apesar de todo o apoio à presidente, deixaram transparecer, pelos cartazes ostentados, a insatisfação contra recentes medidas de ajuste tomadas pelo próprio governo, num momento político e econômico conturbado, onde até mesmo direitos trabalhistas ficariam ameaçados.

Na mesma pesquisa Datafolha a aprovação do Congresso Nacional foi de 9%. A da presidente chegou a 13%. Ou seja, temos um governo e um Congresso rejeitados fortemente, neste instante, pela opinião pública. O povo cansou, principalmente de falcatruas que enriqueceram os “espertos”. Aliás, quanto mais se mete a mão na lama da Petrobrás, mais ela fede. Uma vergonha nacional as manobras ardilosas que desvalorizaram e enfraqueceram a nossa maior empresa. O Partido dos Trabalhadores, por sua vez, também traiu sua própria bandeira de luta pelo operariado, ante o projeto de perpetuação dos “companheiros” no poder, por qualquer meio, até por doações eleitorais maquiadas conforme o Ministério Público. O que é pior, nunca antes neste país tantos nunca souberam de nada, só os bancos suíços é que conhecem a destinação da grana, nem sempre lícita. Imaginem agora se o desvio bilhões de reais dos cofres da Petrobras, tivesse sido carreado para as áreas de educação, saúde, saneamento e moradia.

Sandálias da humildade

Por certo já seriamos considerados país de primeiro mundo, sem que os milhões de miseráveis dependessem mais dos bolsas-tudo. Nessa conjuntura conturbada da política brasileira, parece-me também que há uma declaração recente a ser debatida. A da senhora presidente Dilma Rousseff, de que “valeu a pena lutar pela democracia”.

Obviamente que a presidente e todos nós, brasileiros, à exceção dos radicais, desejamos e lutamos pela democracia em toda sua plenitude. Reconhece-se também a coragem da senhora presidente ao fazer parte, ainda muito jovem, de uma organização clandestina para lutar contra o regime de exceção. Tem todo o direito, portanto, de orgulhar-se de seu idealismo. No entanto, para alguns historiadores e pensadores, os militantes da luta armada, pelo menos naquele momento, não lutaram pela democracia, e sim pela ditadura do proletariado marxista-leninista, tipo a que Fidel Castro implantou em Cuba. A mesma dos atos ditatoriais na Venezuela, onde o governo brasileiro não se manifesta contra a “ditadura” (bolivariana) chavista com restrições à livre expressão e aos opositores naquele país. Esta declaração é, portanto, questionável por alguns estudiosos. Por outro lado, além do atual pacote anticorrupção, lançado oficialmente pelo governo para amainar o grito das ruas, cujo dispositivo (artigo) principal deveria ser “é proibido roubar”, fica faltando o pacote antiviolência que contemple, objetivando a urgente proteção de nossa sociedade, a redução da idade de responsabilização penal, a reforma do sistema penitenciário, a revisão do Estatuto da Criança e do Adolescente e a criação da Guarda Nacional de Fronteiras para impedir a avalanche da entrada de armas e drogas em território nacional.

A lamentar, a não participação de conhecidos parlamentares de esquerda, que sempre tiveram à frente das manifestações democráticas, no histórico 15 de março de 2015. Perderam o trem da história. Não era golpismo. Era o grito de brasileiros e brasileiras que pagam as contas resultantes dos erros, das falcatruas e das roubalheiras em diversos setores da vida pública e privada. É preciso calçar urgentemente as sandálias da humildade, caso contrário o clamor das ruas prevalecerá. A bandeira do Brasil não é vermelha. É verde, amarelo, azul e branco. Lave-se a jato toda nossa sujeira.

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Milton Corrêa da Costa é tenente coronel reformado da PM do Rio de Janeiro

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