Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

CADERNO DA CIDADANIA > MULHER NA MÍDIA

O destaque é das privilegiadas

Por Julianna Motter e Luiz Claudio Ferreira em 31/03/2015 na edição 844

No final de março, pouco chamou a atenção um balanço sobre a visibilidade que a imprensa conferiu às evidentes desigualdades, de todos os tipos, em que vivem homens e mulheres no Brasil. Reportagens apontaram que eles continuam com melhores salários, oportunidades e ainda assediam as colegas. Mais uma vez, não foram raros os materiais que destacaram as mulheres que conseguiram chegar a cargos antes ocupados por homens. Chefes, diretoras, presidentes… Elas chegaram lá. Até aí, sem novidades.

Por outro lado, tiveram na pauta assuntos da violência, particularmente relacionados pela mídia às classes mais exploradas. Materiais que destacaram dados numéricos sem mexer exatamente com os contextos da violência. O machismo é tratado como um ente “desconhecido” (que todos sabem que existe, mas poucos gostam de ver ou assumir), ligado às “raízes culturais”. O feminismo, de outra forma, ainda foi tido como ação extremista.

Um dos materiais que fugiram a essa regra foi publicado no site Tab, do portal UOL. Sobre esse material, vale um olhar mais específico nos aspectos técnico e de conteúdo. Até porque o tratamento e atenção jornalística foram diferenciados em relação à superficialidade costumeira.

A reportagem especial “Elas só querem se divertir“ consiste em um claro exemplo do caminho a ser traçado pelo webjornalismo – e também pelos veículos tradicionais – no Brasil. De caráter aprofundado e, em certo grau, interpretativo, no sentido de estabelecer um claro lugar de fala, o material soube se utilizar de todos os elementos característicos da web apontados por Luciana Mielniczuk no texto “Características e implicações do jornalismo na Web: interatividade, customização, multimidialidade/convergência e memória”, para tratar de um assunto grave e extremamente delicado.

Interpretações que promovam a reflexão

A reportagem propõe a interação do leitor de diferentes maneiras, como uma porta de entrada ao historicismo da luta da mulher e um apanhado da atualidade. A circulação livre pelo material, a utilização através de um teste, com outros leitores por meio de uma hashtag, permite não só a interação com as redes sociais, mas faz também um link com um projeto social, mais antigo, que busca o engajamento na luta. O vídeo que discute quem deve pagar a conta ou abrir a porta do carro não toca no mais importante da questão, mas não é de se jogar no lixo.

De maneira customizada, embora o material pareça pretender um grande alcance, pelo uso das cores e a escolha das imagens, a tentativa clara é de se aproximar do público que manifesta maior interesse pelo assunto: os homens e as mulheres feministas. Existe uma referência clara, na escolha da paleta de cores aos tons comumente ligados ao movimento feminista: o rosa e o roxo. A proposta é levar o leitor a uma atmosfera feminina.

O uso de músicas, gifs, vídeos, imagens – ao longo, dentro e fora do texto – resulta na multimidialidade que torna o material muito mais consistente, aprofundado e rico, prendendo a atenção do leitor que, provavelmente, vai compartilhar a reportagem com outras pessoas.

Trata-se de um assunto que deve ser pautado, compartilhado e, principalmente, debatido. O material tem teor de engajamento social, o que é bastante positivo. Raramente ofertado pela mídia, o material é expandido e interativo. A “personalização” da notícia, que recorre a textos mais aprofundados (e por isso, às vezes, mais subjetivos), que leva a materiais mais longos, ainda é um risco que poucos veículos têm a coragem de tomar. O site só reforça que, hoje, o conteúdo exigido pelo público deve ser farto não só em recursos visuais, mas em textos. O objetivo deixou de ser apenas a informação, mas as interpretações em qualidade, embasadas e justificadas, que promovam a reflexão.

Mulheres marginalizadas

Se é certo que a reportagem do site Tab aposta nas cores da bandeira feminista para transportar o leitor para a atmosfera da luta, surge um questionamento como senão para o conteúdo do material: onde estão os tons mais escuros? De maneira politicamente correta, a primeira personagem a aparecer na reportagem é uma mulher negra. Mas onde estão as mulheres pobres? Elas não aparecem.

Na reportagem, intelectuais foram convidados a falar sobre os motivos que os levaram ao feminismo, mas onde estão as mulheres que sequer têm acesso a esse tipo de escolha por, às vezes, nem saber o que “feminismo” significa? Onde estão as mulheres agredidas pelos pais, maridos, filhos, abandonadas? A reportagem se utiliza de um ponto de vista também da elite – e de uma plataforma e recursos privilegiados – para falar de um assunto que é de interesse de todos.

Onde estão, por exemplo, as moradoras de rua estupradas diariamente? Alguém foi lá perguntar sobre feminismo? Uma ação dessas poderia ter trazido, ao feminismo privilegiado, uma visão sobre as áreas onde esse tipo de questionamento deve ser proposto para, de verdade, provocar uma mudança na sociedade que venha de baixo para cima.

A reportagem traz recursos bastante adequados ao jornalismo multimídia, materiais que atualizam a ação jornalística e a serviço da sociedade. Mas ainda falta descobrir mais sobre o Brasil escondido. As mulheres que não ganham voz permanecem marginalizadas. Resta, então, esperar o próximo mês de março quando elas devem voltar a entrar na agenda jornalística. E, claro, diferente do que o título enuncia, elas não querem só se divertir.

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Julianna Motter é estudante de Jornalismo e Luiz Claudio Ferreira é professor de Jornalismo

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