Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA & PRECONCEITO

Quando o oprimido adota o discurso do opressor

Por Francisco Fernandes Ladeira em 31/03/2015 na edição 844

Conforme a realidade nos mostra, as piores faces do preconceito e da intolerância são apresentadas quando o oprimido passa a adotar o discurso ideológico do opressor. Nesse sentido, podemos citar os casos dos trabalhadores pelegos, dos latino-americanos que se consideravam racialmente inferiores aos europeus, dos negros que passam pelo processo de “branqueamento social”, das mulheres que incorporam os preceitos machistas, ou, como diria Tim Maia, quando os pobres se tornam eleitores da direita política.

Um exemplo emblemático de cidadão de cor oriundo das classes baixas que replica a ideologia da elite branca pode ser encontrado nos vídeos postados na internet pelo estudante negro Fernando Silva, vulgo Fernando Holiday. Recrutado pelo Movimento Brasil Livre (MBL) – grupo apartidário que agrega setores conservadores de nossa sociedade – Holiday tem feito bastante sucesso nas redes sociais com seus discursos em que ridiculariza a política de cotas raciais, compara Zumbi dos Palmares a Hitler, exalta valores burgueses como a meritocracia, defende a redução da maioridade penal e, como não poderia deixar de ser, dispara várias palavras ofensivas contra o governo federal. “Faz nem três meses que a Dilma assumiu o segundo mandato e já f… como Brasil inteiro. Dilma não tem mais condições de governar esse país”, apontou em um vídeo a favor do impeachment da presidenta.

Segundo Fernando, os universitários cotistas são “vermes e parasitas atrás do Estado” e, se há cotas para negros, também deveriam haver vagas especiais para as “gostosas” no ensino público, pois, de acordo com o senso comum, mulheres sexualmente atrativas são “burras” e precisam de cotas. Para ele, negros e pobres podem vencer na vida através do mérito: “Nós sempre conseguimos vencer as adversidades da vida.” Ou seja, Holiday parece desconhecer todos os entraves sociais e raciais que dificultam a trajetória de milhões de negros no Brasil. Acreditar que, em uma sociedade demasiadamente hierarquizada e personalista como a brasileira, pelo simples esforço individual seja possível que cidadãos de classes sociais distintas, com desafios e histórias de vida completamente diferentes, tenham as mesmas chances e oportunidades ao longo da vida é algo extremamente falacioso. Não obstante, o militante do MBL também é capaz das mais esdrúxulas analogias: “Um dia para homenagear Zumbi? Esse cara torturava negro, escravizava negro, botava os negão lá na roça. […] Um dia da Consciência Negra para homenagear Zumbi é o mesmo que criar um Dia da Consciência Branca para homenagear Hitler.” Por fim, Fernando Holiday destaca que o Movimento Negro possui um discurso de “vagabundagem”, “inércia” e “vitimista”.

Visão deturpada

“Talvez ele seja um fantoche nas mãos do movimento ou aja por convicções próprias. O mais provável é uma combinação das duas situações, na qual o MBL encontrou a figura perfeita para anular as críticas de que é reduto da elite branca e o Holiday fica famoso com milhares de curtidas no Facebook”, asseverou o jornalista Marcos Sacramento em um artigo. Prática similar foi realizada por Danilo Gentili em um vídeo gravado durantes as manifestações do último dia 15 de março. Para demonstrar que o protesto contra o governo não se tratava de uma mobilização convocada pelas camadas sociais mais abastadas, o apresentador do SBT entrevistou um negro presente no evento, referindo-se ironicamente a ele como um representante da “elite branca”.

Ora, um único caso de indivíduo de cor não traz uma conotação popular a um determinado acontecimento. Conforme as imagens exibidas exaustivamente pela grande imprensa demonstraram, a esmagadora maioria dos “manifestantes” do dia 15 de março era composta por pessoas brancas das classes média e alta. Por outro lado, em nenhum momento de seus vídeos, Fernando Holiday lembra o extermínio de jovens negros na periferia das grandes cidades ou a estigmatização do negro na mídia hegemônica e nas campanhas publicitárias. Nem os adeptos da quimérica teoria conhecida como “democracia racial” possuem uma visão tão deturpada das relações étnicas no Brasil.

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Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de Geografia em Barbacena, MG

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