Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CADERNO DA CIDADANIA > ENTREVISTA / HORACIO VERBITSKY

“O Brasil ainda não abriu os arquivos da Guerra do Paraguai”

Por Eduardo Febbro em 25/10/2011 na edição 665
Reproduzido da Agência Carta Maior, 19/10/2011; tradução de Katarina Peixoto

Horacio Verbitsky é uma comissão de verdade em si mesmo. A dívida da sociedade argentina com esse jornalista investigativo que revelou os rincões mais obscuros da repressão da última ditadura militar é enorme. Diretor do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), autor de cerca de 20 livros e de investigações jornalísticas de muito peso, Verbitsky é um dos mais finos conhecedores dos sistemas repressivos na América Latina. Suas obras e seu trabalho a frente do CELS lhe valeram numerosos reconhecimentos internacionais, entre eles o prêmio da Fundação Konrad Adenauer e o da Comissão Nacional Consultiva dos Direitos Humanos da França.

Por meio do CELS, cuja vocação é a promoção e proteção dos direitos humanos e o fortalecimento do sistema democrático na Argentina, Verbitsky promoveu numerosas causas contra os repressores argentinos. Ele é autor de uma das revelações mais horripilantes da recente história argentina. No livro El vuelo (“O Voo”), Horacio Verbitsky traz o testemunho de Adolfo Scilingo, um militar que contou em detalhes a metodologia de extermínio empregada pelos militares para eliminar os opositores na última ditadura militar. El Vuelo narra todo o pavoroso processo dos sequestros, as torturas, o envolvimento da Igreja Católica e a participação dos médicos naquilo que seria a solução final: lançar no mar as pessoas sequestradas.

Em entrevista à Carta Maior, Verbitsky analisa o peso dos arquivos na busca da verdade e da justiça, detalha o funcionamento dessa multinacional do crime que foi a Operação Condor e destaca as particularidades que fazem do Brasil um país que ainda guarda em documentos secretos a implicação de suas forças armadas nos anos de chumbo.

Qual foi a importância dos arquivos da Operação Condor para que avançassem os julgamentos dos repressores? E, de um modo mais amplo, em que medida a desclassificação dos arquivos norte-americanos serviu para entender melhor o funcionamento desse dispositivo repressor?

Horacio Verbitsky – A Operação Condor foi organizada por chilenos, argentinos, brasileiros, uruguaios, paraguaios e peruanos. Os arquivos norte-americanos serviram para confirmar que os estadunidenses sabiam da existência da Operação Condor e constatar a forma pela qual Washington interviu nessa operação.

Por exemplo, os documentos dão conta de uma reunião no Chile, em junho de 1976, entre o então secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, e o vice-almirante argentino César Guzzetti. Eles voltaram a se encontrar em Nova York, em novembro-dezembro do mesmo ano. Nas duas vezes, Guzzetti contou a Kissinger o que estavam fazendo com a repressão e Kissinger respondeu dizendo: “façam, mas terminem rápido”.

Nós usamos muitos desses documentos nos julgamentos. Eles foram muito úteis como peças para completar quebra-cabeças. Esses documentos não eram provas em si mesmo, mas se encaixavam com outras coisas que estavam sendo investigadas. A divulgação dos arquivos é essencial para facilitar que seja feita a justiça. Mas não é tudo. Na Argentina, a justiça avançou muito – diria que mais que em qualquer outro lugar do mundo –, mas avançou apesar de não haver arquivos.

A Argentina é a prova de que o arquivo é útil, mas não imprescindível. O que ocorre é que, sem o arquivo, depende-se da reconstrução oral, do testemunho do sobrevivente, e isso faz com que muita gente escape porque não há quem testemunhe contra eles, porque mataram as vítimas.

Os arquivos também servem para afinar um pouco a direção da busca. A falta de arquivo pode levar a que se queira julgar todo mundo, ou seja, como houve um genocídio, quem estava ali era responsável. Nós, no CELS, defendemos que têm que existir provas concretas da participação de uma pessoa.

No caso do Brasil, neste momento há um forte debate sobre a abertura ou não dos arquivos da ditadura.

H.V. – O caso do Brasil é o caso mais extremo no Cone Sul, um caso extremo de segredo e de obscuridade. O Brasil ainda mantém em segredo os arquivos da Guerra do Paraguai, um fato que ocorreu há um século e meio. No que diz respeito à ditadura, e comparando com o que aconteceu na Argentina, há vários fatores que explicam isso. Por um lado, comparativamente com a Argentina, no Brasil a quantidade de vítimas é ínfima. O Brasil tem uma população várias vezes superiores a da Argentina e teve menos de 150 pessoas desaparecidas. O que houve sim foram milhares de torturados. Isso foi muito bem investigado pelo arcebispo de São Paulo, Paulo Evaristo Arns. Ele conseguiu ver arquivos e atas ainda que não estivessem abertos oficialmente.

Em segundo lugar, isso também se explica porque, no contexto do princípio desenvolvimentista, no Brasil houve um governo bem sucedido. Em troca, na Argentina, foi um fracasso. A outra diferença entre os dois países radica igualmente no fato de que, enquanto o Brasil teve relações amistosas com as potências, a Argentina viveu uma guerra com a Grã-Bretanha (as Malvinas) e os Estados Unidos. Com isso, a possibilidade de que os militares brasileiros mantenham os arquivos fechados tem sido e é muito forte. Uma ditadura como a argentina que massacrou um percentual muito alto de pessoas e que, além disso, fracassou economicamente e perdeu uma guerra contra a Grã-Bretanha, não está em condições de manter segredos de Estado.

Mas não faltou vontade política por parte dos sucessivos governos, começando pelo de Lula?

H.V. – O governo de Lula não teve muito entusiasmo para mexer nesse tema. Vários fatores explicam isso: a experiência pessoal sindical de Lula, que não tem muito a ver com a de Dilma. Pode ser que isso tenha influído. Mas, de modo mais geral, no Brasil não há um grande interesse por esses temas. A sociedade não se interessa muito, é um tema que não provoca entusiasmo.

Eu tenho uma experiência muito concreta. Meu livro El Vuelo, que traz as confissões de Adolfo Scilingo sobre como se jogavam no mar os presos na ESMA (Escola Mecânica da Armada), foi traduzido para muitos idiomas, mas a edição que menos repercussão teve foi a brasileira. O livro teve mais repercussão na Itália, na Inglaterra, na França ou nos EUA do que no Brasil.

Há, então, no Brasil, uma espécie de bloqueio político.

H.V. – Sim, sim, muito claro.

A Operação Condor foi uma autêntica coordenação entre as ditaduras do Cone Sul. Seguirá sendo um fato pouco comum na história latino-americana?

H.V. – Foi uma coordenação das ditaduras da Argentina, Chile, Brasil, Paraguai, Uruguai e Peru. Essas ditaduras compartilhavam informação de inteligência e também operativos de inteligência. Há argentinos detidos no Chile, no Uruguai, no Peru e no Brasil que foram entregues às forças armadas argentinas para serem assassinados. E na Argentina, também operaram forças dos outros países. Houve um campo de concentração em Buenos Aires que se chamava Automotores Orletti, onde o grosso dos detidos era de uruguaios. Os repressores de Montevidéu vinham participar dos interrogatórios junto aos argentinos. Dali eram transportados a Montevidéu e decidiam quem vivia, quem morria e quem roubava as crianças. Foi uma colaboração muito estreita entre os governos.

***

[Eduardo Febbro é correspondente da Carta Maior em Paris]

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