Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > PROGRAMAÇÃO INFANTIL

A conturbada relação entre a criança e a mídia

Por Eduardo Fernandes em 09/02/2010 na edição 576

A infância é uma construção social. Essa é a teoria que diversos autores, como Moscovici, defendem. E, certamente, têm razão. Basta darmos uma olhada na história para constatar a veracidade dessa afirmação. Na época feudal, as crianças eram tratadas como mini-adultos. Não tinham direitos próprios, tinham de se comportar de acordo com as normas desde cedo. Com a ascensão burguesa, os pequenos começaram a ser resguardados. Tinham de ir à escola para aprender as normas, mas não estavam em locais adultos. Até mesmo os trajes foram readequados. Antes, meninos e meninas se vestiam igualmente, agora ambos possuíam roupas particulares. Daí surge o rosa para a menina e o azul para o menino, por exemplo.


Hoje, vive-se um novo formato de sociedade, pautado pelo consumo e, principalmente, pela informação (que nada mais faz do que vender o ideal de consumo). Assim, a própria infância foi capitalizada. Roupas, brinquedos, tudo foi reformulado. O modo de ser criança mudou. A infância encurtou. Foi necessária, inclusive, a criação de um novo termo para designar a nova fase de desenvolvimento – a pré-adolescência. Mas o que de fato ocasionou tais mudanças? Mutação genética ou novas formas de vivência?


Este artigo busca explicitar o papel importantíssimo da mídia na disseminação do novo ‘ser criança’ e como essa percepção é criada e reafirmada através dela. Para isso, serão relatados programas infantis e sua abordagem perante a infância pós-moderna.


Eu não quero contos de fadas


É segunda de manhã e um monte de crianças liga a TV para assistir ao programa favorito. A variação é mínima… Ou é o Bom dia e Companhia ou a TV Globinho. Hoje as opções são bem restritas para quem não possui TV paga. Foi-se o tempo em que os quatros principais canais de TV aberta passavam programação matutina exclusivamente infantil. E isso não é à toa. A fronteira que separa a infância da adolescência, hoje, tornou-se extremamente tênue. Esse público-alvo se modificou de uma forma tão avassaladora que boa parte das vezes um menino de 12 anos não está nem aí para ficar em casa assistindo a programas infantis.


Nos últimos anos, programas que apelavam para o lúdico se deram muito mal. Um exemplo foi o Xuxa no mundo da imaginação, que fracassou na audiência e foi retirado do ar. A própria Xuxa, antes rainha dos baixinhos, hoje se tornou rainha dos altinhos, apenas pelas lembranças de um tempo que fazia sucesso. Talvez ela continuasse fazendo esse sucesso se seu público de quatro anos de idade fosse um pouco maior. Fora isso, é fracasso total. Crianças um pouco mais crescidas, ou melhor, pré-adolescentes, não querem saber de brincadeirinhas ou uma loira que fica dançando no palco, não querem papo de criança. Eles querem namoro, festa; passaram da fase.


O panorama da TV revela a existência de uma criança desprendida da infância, em constante busca de igualar-se aos adultos (nem sempre aos pais) o quanto antes, cada vez mais hipnotizada pelo consumo propagado e incapaz de reconhecer a importância da inocência infantil.


A sociedade do consumo desprende-se da ideia de dependência da criança em relação aos adultos. Nela, as crianças tornam-se um novo nicho e acabam sendo alvos fáceis das sedutoras formas de publicidade. Desperta-se nelas a vontades de consumir, de ter o carro do Max Stell, ou a modelo de menina, a Barbie.


A bicicleta e o Playstation 3


Espertamente, alguns programas se deram conta de que o mundo lúdico não faz mais tanto sucesso com essa nova infância. Começaram então a pagar pelos seus telespectadores. Afinal, brincadeiras na roleta nada mais são do que compra de pessoas. Crianças assistem aos programas para ganhar um Playstation 3 ou, ainda mais grave, para ganhar 1.000 reais – sim, existe essa opção na roleta.


A roleta do Bom dia e Companhia é um ótimo referencial de consumo dessa nova geração de crianças. Lá, eles têm a possibilidade de ganhar diversos prêmios. Os mais desejados são o Playstation 3, o PSP (videogame portátil) e os famigerados mil reais. As crianças gritam desesperadamente pelos seus prêmios. Quando ganham é um frenesi. Em muitas oportunidades, os pais escolhem os prêmios para os filhos. Num desses episódios, pôde-se ouvir claramente a mãe dizendo ao telefone para que o filho escolhesse mil reais. No fim, a roleta apontou que ele ganharia outro jogo, chamado ‘Jogo da Vida’. A criança ficou irada e começou a falar: ‘Eu quero mil reais, eu quero mil reais.’ Os apresentadores, então, riram, e o programa continuou.


A ira por causa do prêmio alcançado não foi um fato isolado. Várias vezes, quando os pequenos não ganham os grandes prêmios da roleta – que, vale lembrar, são os mais caros –, acontece o mesmo. Um dos casos mais recentes ocorreu quando um menino ganhou uma bicicleta e começou a chorar, querendo o Playstation 3.


Maquiagem para meninas de 9 anos


No último ano, uma apresentadora-mirim fez grande estardalhaço na mídia. É a Maísa, apelidada de anã por alguns programas de humor. Uma menina de pensamento extremamente ágil, com resposta na boca para tudo. Entretanto, o comportamento dela revela bons indícios de como a criança está sendo representada hoje.


Maísa está longe de ser um poço de doçura, de ser educada ou coisa parecida. Muito pelo contrário, ela fala coisas inadequadas, próprias de adultos, e tem comportamento, em várias horas, digno de adolescentes. Para completar, ela comanda um programa infantil aos sábados e tem uma legião de fãs. E é lá que apronta das suas. Zomba de crianças que ligam, fala coisas descabidas, faz uma festa. E as crianças parecem gostar – ela lidera a audiência quase todos os sábados, pelo menos por alguns momentos.


É claro que o comportamento não é desvinculado completamente do que se espera de uma criança. Falar sem papas na língua é uma característica infantil e não é isso que está sendo discutido. O que se pondera é o que se fala. Claramente, Maísa não aprendeu tudo aquilo sozinha. Ela repete falas, e até preconceitos adultos, na TV. Basta lembrar o episódio em que um menino chamado Pedrinho ligou para o programa e, numa brincadeira, escolheu a cor rosa, ao invés do azul. Ela, então, com tom de deboche, proferiu a frase ‘Rosa, Pedrinho?’ e riu depois.


Essa diminuição da infância e consequente aproximação da adolescência podem ser visualizadas não só em programas infantis, mas mesmo em produtos de compra diversos. Roupas próprias para o público infantil, por exemplo, estão cada vez mais escassas. Para aquelas bem novinhas ainda existe, é verdade, mas para os pré-adolescentes, sumiram. Assim, as crianças acabam se vestindo como mini-adultos, imitando seus pais. A maquiagem tornou-se artigo de primeira necessidade para meninas de nove anos de idade. É até engraçado notar a existência hoje de pequenas peruas.


Reduzida à contemplatividade


A representação do ‘ser criança’, na mídia, não teria tanto impacto se não fosse pelo veículo mais utilizado… A televisão exerce um poder ideológico impressionante sobre a sociedade. Segundo alguns dados, ela está presente em 98% das casas brasileiras. Vê-se, em média, sete horas de TV por dia em algumas regiões. Em muitas casas, elas acabam sendo as babás das crianças, já que os pais e mães trabalham boa parte do dia – mais uma característica importante da modernidade para a concepção da nova infância.


Com a diminuição no número de programas realmente ditos infantis e a ascensão da programação pré-adolescente ou adolescente, torna-se quase impossível o não amadurecimento precoce, ou melhor, envelhecimento precoce das crianças. Elas, que, muitas vezes, ficam à mercê das máquinas educadoras, as TVs, acabam incorporando os comportamentos e as vontades transmitidos. A passividade é uma característica marcante dos espectadores televisivos, principalmente as crianças.


Sem poder de discernimento, elas são presas fáceis. Em meados dos anos 90, no auge da febre do desenho ‘Dragon Ball’, um menino se atirou de um prédio, pensando que poderia voar. Não é preciso ir muito longe: na época de lançamento do filme Homem-Aranha ocorreu um fato muito semelhante.


Os casos apresentados acima são extremos, mas revelam de forma trágica e imediata o poder que uma informação passada pela TV exerce sobre as crianças, principalmente aquelas desacompanhadas dos pais. ‘A criança consumidora de TV durante várias horas por dia é privada de duas oportunidades fundamentais ao seu desenvolvimento pleno: falar e agir. Reduzida à contemplatividade, é sempre ouvinte-vidente, não concorda nem discorda, ouve e vê, mas não escuta nem observa, muito menos duvida ou contesta’ (Luciene Rochael, artigo ‘A criança e a tevê’).


Salve-se quem puder


A situação da infância hoje se apresenta da maneira mais pessimista possível. O problema não está na falta de liberdade, como outrora, mas na total liberação para ver e ouvir todos os tipos de conteúdos. As divisões foram arrancadas. Tudo se vende a todos. A criança passou de mero ser inocente a consumidor em potencial. Não se vende nada mais aos pais, mas sim a ela, que deve ter a vontade e, com poder de persuasão quase infalível, convencer os pais a comprarem tudo que lhe for interessante.


Além do consumismo, a inserção das crianças em ambientes adultos, através da propagação do namoro, por exemplo, é um fato preocupante. Se com 10 anos se pode viver uma vida de adulto, qual seria a importância da infância? Esse desencaixe, trazido pela modernidade, e refletido e construído pela mídia, gera angústia.


Entretanto, medidas devem ser tomadas para não se permitir a perda da infância, algo tão importante. As classificações por faixa etária de programas de TV são um avanço. Mas, de nada adiantam classificações se os pais não tiverem em mente o poder nocivo que a mídia pode representar para seus filhos. O diálogo e a apresentação de outros tipos de conteúdos, e não os vinculados por essa mídia, devem ser privilegiados pelos pais. Eles devem ter em mente a importância que exercem sobre os filhos. Num mundo com referências diversas, aquelas de dentro de casa podem representar a salvação de toda uma geração.

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Estudante de Jornalismo, Universidade Federal do Espírito Santo, Anchieta, ES

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