Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA & EDUCAÇÃO

A culpa é dos professores

Por José Alexandre Silva em 05/10/2010 na edição 610

Vemos grande demonstração de preconceito e ignorância com a Educação em Época (20/09/2010), no artigo ‘Onde está o programa de governo do futuro presidente?‘, que cobra dos candidatos Dilma e Serra um plano de governo. ‘São contra ou a favor de demitir os professores incompetentes para melhorar a qualidade do ensino público?’ Uma demonstração cabal de que o semanário se afilia a quem culpabiliza os professores pelas mazelas do ensino público. Sobrecarregar esses mesmos com uma carga de trabalho sobre-humana e achatar seus salários foi a opção do Brasil nos últimos anos. Culpar os professores pela má qualidade do ensino que essas políticas educacionais acarretaram tem cabido à grande mídia e Época não fica de fora.

Em ‘A loteria do ensino público’ (Época, 27/09/2010), é comentado Waiting for Superman, o novo documentário do cineasta Davis Guggenheim. O filme trata da história de jovens e crianças que disputam, por sorteio, vagas nas escolas públicas com suposta maior qualidade nos EUA. A reportagem compara o ensino público estadunidense com o brasileiro que sofre do mesmo mal, a proteção corporativista dos sindicatos aos maus professores. Vejamos:

Nos Estados Unidos, 90% dos alunos do ensino básico estão em escolas públicas. Aqui, são 86%. (…) E lá, como aqui e no resto do planeta , está-se chegando ao consenso de que a questão central da qualidade do ensino é a eficiência do professor. Assim como os Estados Unidos, o Brasil não tem políticas públicas fortes de valorização da carreira de professor, jargão exaustivamente repetido em greves de docentes que pedem aumento de salário. Salário é, sim, importante (no Brasil, um professor pode ganhar até 60% menos que um profissional de outra área com a mesma escolaridade), mas não o suficiente para dar o prestígio que a carreira tem de ter. É preciso investir na formação do professor e em um plano de carreira pautado no mérito, e não em tempo de serviço (…).

E a política salarial?

Ora, vemos a contradição: como um profissional que pode ganhar até 60% menos que outro profissional de outra área com o mesmo nível de formação pode se sentir motivado? Como salário não é importante se é justamente a primeira questão a ser avaliada na escolha de um curso universitário? Dizer que a profissão docente não atrai os melhores alunos, como acontece na Finlândia ou na Coreia do Sul, pelo motivo de que a carreira não é valorizada pelo mérito é risível. Curiosamente, a reportagem não traz nada sobre as condições de trabalho e salários nesses países em que se fala de seus êxitos no Brasil.

Em ‘Professores do futuro são maus alunos de hoje’, Gazeta do Povo, 25/09/2009, temos a informação que:

‘Nos dez países com melhores notas no Programme for International Student Assessment (Pisa), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – Canadá, Austrália, Bélgica, Finlândia, Hong Kong, Japão, Holanda, Nova Zelândia, Cingapura e Coreia do Sul –, os professores são selecionados entre os 30% melhores graduados. Na Finlândia, esse porcentual se estreita para 10%, enquanto na Coreia do Sul são selecionados os 5% melhores.’

Se o magistério é tão valorizado nesses países, qual será o atrativo?

O Brasileiro Soleiman Dias, que foi lecionar na Coreia do Sul, entrevistado na reportagem ‘Países com melhores sistemas de ensino podem inspirar soluções’ (Nova Escola edição 216, de 10/2008), fornece um dado revelador sobre a questão acima: ‘Aqui, um recém-formado recebe 4 mil reais por mês. Além disso, tenho três meses de férias, muito mais do que os 12 dias a que outros profissionais têm direito (…).’ Qualquer professor de escola pública pode afirmar que um iniciante dificilmente alcança 50% da quantia acima como salário no Brasil.

Culpar os professores pela má qualidade do ensino e tergiversar sobre adotar no Brasil as políticas educacionais que deram certo na Coreia do Sul ou na Finlândia sem condições semelhantes de trabalho tem sido recorrente na grande mídia. Resta saber o motivo para esse segmento da imprensa não apregoar também a adoção da política salarial desses países.

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Professor de História, Ponta Grossa, PR

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