Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

A desconstrução da imagem feminina

Por Andréia Marques em 15/04/2008 na edição 481

A utilização da imagem feminina está constantemente presente em telenovelas, programas de humor e também em campanhas publicitárias. Nesse tipo de mídia, é possível perceber como alguns traços de personalidade projetados pela televisão enaltecem a imagem feminina, enquanto outros a deturpam. Percebemos que a mulher é utilizada para vender desde produtos voltados exclusivamente para o segmento feminino como para aqueles que atingem apenas o sexo oposto, como alguns comerciais de cerveja, que utilizam mulheres com corpos esculturais e seminus para convencer os marmanjos que a ‘loira’ é realmente boa.

Na telenovela, por exemplo, uma das principais características associadas à imagem da mulher refere-se ao fato de ela ser, em algumas ocasiões, representada como batalhadora, persistente, uma pessoa que se tornou bem-sucedida, amada, respeitada, rica etc. Outra característica feminina favorável representada nesse segmento é a inteligência, em geral interpretada por artistas de renome, como Fernanda Montenegro e Regina Duarte. Apesar disso, há o lado negativo da imagem feminina refletida pela telenovela, na publicidade e, especialmente, nos programas de humor, que parece ser muito mais enfático, preponderante, evasivo e degradante – a exploração negativa da imagem da mulher.

Nesses programas, em especial, o corpo da mulher toma lugar de sua própria identidade. Dessa forma, a mulher retratada pela televisão representa um contraponto à experiência cotidiana em que vive a ‘mulher real’. As mulheres ocupam, cada vez mais, espaços de destaque antes reservados apenas para o sexo masculino: estão em cargos de gerência em grandes empresas, são destaque na política, nas artes, dentre outras instituições.

Lógica existencialista

Assim, a atual condição social da parcela feminina brasileira revela e reafirma uma mulher diferente do que aquela retratada pela televisão, ou seja, uma mulher que vai além da plasticidade do corpo feminino, da sua parte estética apenas. Porém, a televisão insiste em divulgar a imagem de uma mulher usável e descartável que parece não ter vida própria, deturpando sua própria sexualidade.

Ao eleger o corpo como o lugar de todas as identidades, não há como desconsiderar que as desigualdades entre homens e mulheres constituem-se não só no corpo feminino, mas também nas identidades de gênero. Dessa forma, ao transformar o corpo da mulher em anedotas, o humor acaba por reforçar a visão que a sociedade machista tem da mulher, uma sociedade em que o gênero feminino aparece apenas como objeto de desejo, com forte apelo sexual e visual e/ou, ainda, aparece como a eterna dona-de-casa. Essas representações, por meio do discurso ideológico, ajudam a sustentar relações de dominação na prática, já que contribuem para a (re)produção, a sustentação de estereótipos e até para a manutenção do status quo.

Estereotipar reduz, essencializa, naturaliza e conserta as ‘diferenças’, excluindo ou expelindo tudo aquilo que não se enquadra, tudo aquilo que é diferente. É importante ressaltar que a televisão facilita o acesso à pluralidade das formas de ser e viver as experiências humanas, porém, ao mesmo tempo, seu discurso também trabalha no sentido de privilegiar e engessar certos modos de ser, operando numa lógica existencialista de identidade.

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Jornalista, Campinas, SP

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