Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CADERNO DA CIDADANIA > SEMINÁRIO EM LONDRINA

A ética jornalística em debate

Por Rogério Christofoletti em 10/04/2006 na edição 376

Já era hora de os órgãos de classe dos jornalistas promoverem um evento para discutir amplamente a ética na profissão. Isso se deu entre os dias 31 de março e 1º de abril, em Londrina (PR), com o 1º Seminário Nacional de Ética em Jornalismo, realizado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e pelo sindicato local.

Na pauta alguns dos principais temas que rondam o fazer jornalístico – uso de câmeras ocultas, o dever de informar e a formação ética nas escolas de comunicação. Mas o seminário também foi o início do processo de revisão do Código de Ética da categoria, cuja versão atual está completando 20 anos.

Meses atrás, a Fenaj fez um chamado aos sindicatos para que encaminhassem sugestões para a reformulação do documento. Poucos atenderam ao pedido a tempo, e outras propostas foram apresentadas no meio do seminário, em cima da hora, o que tumultuou um pouco a sistematização dos trabalhos.

Com diversos pontos díspares, não se chegou a uma nova versão consensual do código. Uma comissão foi formada para reordenar as informações e reapresentar as propostas em julho, durante o Congresso Nacional dos Jornalistas, em Ouro Preto (MG). O evento deve definir um novo código de ética para os jornalistas. Será o quarto código da categoria, após o de 1949, o de 1968 e o de 1986.

Conflito de interesses

A discussão mais palpitante do Seminário Nacional de Ética em Jornalismo se deu justamente sobre um ponto do atual código de ética. O jornalista Eugenio Bucci, presidente da Radiobrás e um dos palestrantes do evento, identificou o que considera uma impostura à sociedade. ‘Nosso código de ética repousa sobre um conflito dos interesses. Jornalistas versus assessores de imprensa. Somos autores dessa impostura porque passamos às pessoas que eles têm os mesmos valores e que são o mesmo ofício. Isso desinforma a sociedade’.

O posicionamento de Bucci, cristalino à mesa, colide com o da Fenaj, que advoga uma sinonímia entre as funções. Para além de conceitual, este entendimento tem razões corporativas – afinal, 60% das vagas ocupadas por jornalistas estão nas assessorias.

Bucci sabia da posição de Fenaj. A federação também conhecia a opinião do jornalista, e mesmo assim o convidou para a discussão.

Público

A exemplo de outros eventos que envolvem jornalistas, o seminário reuniu mais estudantes que profissionais. Entre os mais de 300 participantes, a maior parte era de alunos dos cursos de comunicação do interior do Paraná e de delegados sindicais. Profissionais de redação e de assessorias eram escassos. Essa tendência é um problema de organização dos eventos ou de desarticulação da categoria? A pensar…

A voz da vítima

Outro ponto alto do evento de Londrina foi o painel que discutiu erros jornalísticos, deslizes éticos e a espetacularização da notícia. Não pelos debates que a mesa incitou, nem pelos seus palestrantes, mas pela presença de duas vítimas de erros da imprensa.

A jornalista Vania Mara Welte fez um minucioso relato do caso das ‘Bruxas de Guaratuba’, que incriminou duas mulheres no interior do Paraná por suposto envolvimento com seqüestro, tortura, mutilação e morte de um menino de 5 anos num ritual de magia negra. O caso chacoalhou a mídia local em 1992 e resultou na condenação e prisão por sete anos das duas acusadas, Celina e Beatriz Abagee.

A jornalista detalhou a sucessão de erros no processo e vícios na condução. Mas o que tomou o público de assalto não foi a proporção e o desenho de um crime de imprensa, mas sim a presença das vítimas no evento. Celina e Beatriz foram à mesa e, para um auditório lotado, contaram a sua versão do caso, as violências a que foram submetidas e as conseqüências em suas vidas. Um depoimento arrepiante, emocionante, aterrorizador.

Que liberdade?

A Fenaj aproveitou a ocasião e apresentou o seu Relatório sobre Liberdade de Imprensa 2005. O levantamento é resultado de uma pesquisa em todos os estados brasileiros, na tentativa de oferecer um perfil das violências a que foram submetidos os jornalistas no ano passado. De acordo com o presidente da entidade, Sergio Murillo de Andrade, esta é uma versão preliminar do relatório, pois ‘espera-se que, com essa divulgação, as pessoas se motivem e novos casos sejam denunciados’.

O documento descreve 64 casos de violência com base em informações em sites e boletins eletrônicos e nos relatos de sindicatos filiados. Destrinchados, os números apontam para 21 agressões físicas e verbais, dois assassinatos, duas prisões, sete atentados, dois desrespeitos a sigilo de fonte, um caso de lesão corporal em cobertura de risco, seis ameaças, seis episódios de censura e 17 assédios judiciais.

O estado de São Paulo foi o que mais registrou casos de violência – 12. Em 79% dos casos, as vítimas são homens, e são os homens os maiores agressores também, respondendo por 65% das ocorrências. Quatro em cada dez casos são ocasionados por políticos ou seguindo motivações políticas.

Segunda edição

Bem organizado, o evento reuniu alguns dos nomes mais proeminentes no debate sobre a ética jornalística. Estavam por lá Bernardo Kucinski, Eugenio Bucci, Carlos Alberto Di Franco e Francisco José Karam, entre outros. Os debates foram concorridos e a sensação geral foi bastante positiva. Satisfeito com os resultados, o Sindicato dos Jornalistas de Londrina já anunciou um segundo Seminário Nacional de Ética no Jornalismo, em 2008.

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Jornalista e professor universitário. Foi um dos painelistas do evento.

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/09/2007 Solange Simionatto

    Boa noite, venho atrvez desta pedir ajuda, pois a 4anos meu esposo sofreu um acidente,caiu um automovel, em cima de seu corpo,fez varias cirugias, hoje o mesmo aguarda pela rede SUS uma protese que precisa colocar na cabeça do fermo .O caso ja foi passado para o Governador Federal ,onde os mesmo passou o caso para ouvedoria de Campinas, so que ate agora nada foi resolvido.Estou pedindo ajuda atodos os orgãos que possa me ajudar , meu esposo precisa urgente dessa protese, pois não aguento ver sofrer deste jeito.Tem dia que ele não consegue caminhar mesmo com ajuda de moletas, sente muita dores, pois os remedios não fazem mais efeitos.Cada dia que se passa agrava mais o seu estado.

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