Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA & EDUCAÇÃO

A família e a escola

Por Rogério Faria Tavares em 23/03/2010 na edição 582

O processo educativo começa desde o nascimento, ou até mesmo desde a gestação, como já concluíram muitos pesquisadores. Sua função é formar o indivíduo nos costumes, nos valores e nas regras da sociedade em que ele está inserido. Para realizar-se com excelência, deve desenvolver na pessoa o sentido da autonomia e da plena liberdade para pensar, levando-a a refletir sobre as práticas sociais, a criticá-las quando for o caso e a mobilizar-se para mudá-las, se preciso.

O processo educativo é árduo e demorado. Demanda empatia, uma qualidade rara, e empenho. Exigente, requer continuidade. A superação dos muitos obstáculos que surgem em seu caminho depende da reiteração diária da fé em seus propósitos. O processo educativo não se completa da noite para o dia. Pede paciência e persistência, elementos absolutamente compatíveis com a alegria e o prazer que também é capaz de proporcionar. O processo educativo é, acima de tudo, fruto de uma rica relação humana, que supõe o contato direto e intenso, e o seu êxito se dá, quase sempre, em um ambiente caracterizado pela generosidade, o respeito e o amor.

Por todas as razões acima mencionadas, o papel central na educação das crianças e dos jovens é exercido primordialmente pela família. É a ela que eles estão originariamente ligados e é com ela que convivem em base permanente e prolongada.

Tensão, insegurança e medo

No mundo de hoje, há famílias formadas a partir do casamento ou de uniões estáveis; há famílias em que os pais são separados ou divorciados; há famílias em que convivem filhos de distintas uniões conjugais; há famílias mono parentais; há famílias que adotam crianças; há famílias formadas por pessoas do mesmo sexo e que também querem adotar crianças… Há famílias das mais variadas composições étnicas, preferências religiosas e condições econômicas. A diversidade de situações é grande, mas o princípio original prevalece: educar filhos, garantindo o prosseguimento da saga da espécie humana sobre a Terra, está – e sempre estará – entre as principais finalidades da família, independente das múltiplas configurações que ela ganhou nas últimas décadas ou das formações que venha a assumir daqui para a frente.

A escola é a parceira obrigatória e fundamental da família no cumprimento de tal função. Seja pública ou privada, ela é a instância reconhecida pela sociedade e pelo Estado como a mais adequada para administrar o ritmo de inserção de crianças e jovens no mundo da ciência, da cultura e das artes, devendo apresentar a eles um modelo mais amplo do mundo. À escola também cabe inspirar a paixão pelo conhecimento e pelo aprendizado permanente, investindo no desenvolvimento de habilidades específicas de seus alunos, capacitando-os para gerar, no futuro, o seu próprio sustento e integrando-os à convivência comunitária e aos projetos coletivos.

Família e escola, porém, enfrentam muitos obstáculos para conduzir a contento o processo educativo das novas gerações.

Muitas famílias lidam com a escassez de recursos financeiros: no Brasil, pelo menos, várias delas passam fome e frio, não têm casa nem trabalho. Outras vivem drama distinto: não encontram qualquer horário livre para estar com seus filhos. A maioria é vítima dos problemas derivados do estilo de vida contemporâneo. Nos grandes centros urbanos, o tempo é curto e a luta pela sobrevivência e as exigências da vida profissional pedem exclusividade. O ambiente é de tensão, insegurança e medo, os apelos dos vícios e da criminalidade são freqüentes e numerosos.

Inimigas do projeto pedagógico

Muitas escolas padecem da falta de infra-estrutura física e material, da deficiente formação de seu corpo docente e da carência de verbas para investir em melhorias. Além disso, sofrem pela imensa distância que as separa do universo vivido por seus alunos, ora vítimas do abandono e da miséria, ora vagando pelas ruas em gangues ou em tribos de todo tipo, ora capturados pelo padrão consumista, ora plugados na internet e sempre on-line, conectados a um mundo que as escolas não conhecem nem sabem como explicar. Em muitas situações, o que é dito pelos professores nas escolas não faz sentido para as crianças e jovens. É algo estranho à sua realidade. É um dialeto estrangeiro. Ou uma língua morta.

O desafio de educar faz com que a família e a escola interajam constantemente com os outros agentes sociais, buscando ajuda, estabelecendo alianças ou rupturas, abrindo diálogos ou acirrando disputas. Com relação à mídia, por exemplo, há algumas estratégias de relacionamento fadadas ao fracasso e outras com mais chance de êxito.

Em muitos lares, a mídia ainda é tratada como algo que faz companhia aos filhos e substitui os pais como referência de autoridade e comportamento. Conquista o poder de definir a geografia doméstica, reinando, onipresente, em todos os cômodos. Comanda o uso e a divisão do tempo, reduzindo os momentos reservados ao diálogo familiar, interrompendo conversas e determinando silêncios. Em outras casas, o acesso a ela é simplesmente proibido, transformando-a num fruto muito mais desejado.

Em muitas escolas, a atitude geral, sobretudo diante das tecnologias digitais, é reativa e medrosa, baseada em preconceito e ignorância. Algumas mídias são temidas por diretores e professores e vistas como inimigas do projeto pedagógico.

Incontáveis produtos ‘educativos’

A honrosa exceção é dada por experiências pioneiras, feitas aqui e acolá, que têm sido bem sucedidas na tentativa de atualizar as práticas e a linguagem falada pela instituição escolar. Os otimistas arriscam-se a dizer que, daqui para frente, a escola passará por importantes transformações nas técnicas de comunicação empregadas para atingir o seu público. A sala de aula está longe de ser um lugar de espetáculo ou de entretenimento e o professor não é um showman, mas é plenamente possível e altamente recomendável que se encontre um caminho pelo qual as escolas se tornem mais sedutoras e atraentes, mais próximas dos estudantes, capazes de conversar melhor com eles e aprender com o que eles têm para ensinar.

A mídia, por sua vez, é a rainha da performance. Poliglota, ela atrai e seduz, falando fluentemente mil idiomas de uma forma que todo mundo entende. Os meios de comunicação são instrumentos da civilização e motores importantes da vida em comunidade. Seja promovendo, seja inibindo a circulação de informações, inevitavelmente interferem no curso da história, contribuindo para avanços ou retrocessos sociais. Como difundem visões de mundo, acabam por moldar mentalidades e por desencadear comportamentos e atitudes, sendo capazes também de fortalecer ou fragilizar os elos entre as pessoas.

Ágil na criação e na distribuição em larga escala de seus conteúdos, poderosa financeiramente, habilidosa no manejo dos estímulos sensoriais, das estratégias de persuasão e das tecnologias, a mídia tem seguido modelo eficaz para conquistar a atenção das crianças e dos jovens. O interesse que desperta e a audiência que cativa não podem ser desprezados. Pelo contrário, devem ser cuidadosamente pesquisados.

Por tudo isso, a mídia pode ajudar enormemente a família e a escola a desempenharem a sua função de educar, uma vez que ela jamais estará habilitada a substituí-las nessa tarefa (e nem é essa a sua intenção). É impossível enumerar todos os benefícios prestados pela mídia no campo da educação. Ao longo do tempo, ela elaborou incontáveis produtos considerados ‘educativos’ sob a forma de cartilhas, revistas, livros, discos… Os programas de rádio e TV que auxiliaram os pais e os professores na formação de muitas gerações marcaram época. Até hoje, há preciosidades em exibição. No Brasil, a TV pública e a TV a cabo, especialmente, têm colecionado muitos méritos nesse quesito.

Interação inteligente

Por outro lado, a mídia pode atrapalhar profundamente a família e a escola a desempenharem a sua função de educar. Um exemplo é dado pela atuação da mídia comercial. Alimentada pelo mercado publicitário e sem ter como fugir à lógica que a mantém, ela muitas vezes trata as pessoas como mercadorias e o público como consumidor. O valor da existência passa a ser medido por sua dimensão material. A beleza da vida e a exuberância da natureza são secundárias em relação ao que se pode comprar com dinheiro.

Para serem ajudadas pela mídia, a família e a escola devem estudar, com afinco, seus códigos e modos de funcionamento. Os suportes midiáticos, como os telefones celulares e os computadores, entre outros, devem ser integralmente apropriados por elas no que têm de mais precioso. Seu potencial lúdico, sua força como jogo ou brincadeira, não podem ser negligenciados e muito menos impedidos. A mídia deve ser incorporada ao processo educativo como recurso didático, valioso para promover uma comunicação mais rápida e fluida e um aprendizado eficaz e divertido.

Outro caminho interessante para usufruir do melhor que a mídia tem a oferecer para a educação de crianças e jovens consiste em estabelecer, no âmbito da família e da escola, um espaço e um momento propícios para que todos reflitam, juntos, sobre os conteúdos por ela veiculados. Cabe à família e, hoje em dia, também à escola, decodificar os sinais emitidos pelos meios de comunicação, descobrir suas motivações e ajudar seus filhos ou alunos a entendê-los. É preciso estimular uma atitude de interação inteligente, desconfiada, atenta.

Ferramenta indispensável

Uma certa dose de ceticismo é essencial. Nunca se pode esquecer: a mídia muitas vezes mistura a ficção e a realidade. Em outras ocasiões, a mídia mente. Por isso, consultar fontes diferentes de informação é bastante útil, já que previne contra armadilhas, além de fortalecer a formação de um pensamento que acolhe a diversidade e o pluralismo. As mensagens preconceituosas devem ser escrutinadas e recusadas firmemente, sob pena de gerar cidadãos mal informados e intolerantes.

O acesso às mídias não precisa ser proibido, mas tampouco deve ser ilimitado ou livre de qualquer parâmetro, já que pode originar manias, vícios e até enfermidades. Vale sempre lembrar que a mídia não é a única janela para a vida, nem a forma exclusiva de conhecer a realidade. Há um mundo imenso a ser abordado diretamente pelas crianças e os jovens, sem o recurso aos meios de comunicação.

Nada disso é fácil. Pelo contrário. A chamada ‘educação para os meios’, como tudo mais no processo educativo, exige tempo e disposição, envolvimento e entrega. Mas, atualmente, é artigo de primeira necessidade. Tem a mesma importância de um curso de defesa pessoal e é ferramenta indispensável para sobreviver na selva digital em que nos movemos hoje.

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Advogado, jornalista, mestre em Direito Internacional (UFMG) e doutorando em Direito Internacional (Universidade Autônoma de Madri)

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/03/2010 Ivanaldo Xavier

    Concordo plenamente que a educação começa exatamente no momento em que o ser está sendo gerado e chamo a atenção para a importância da mídia, especialmente a televisão, que deveria contribuir com essa educação. Ressalto que a mídia não vem dando essa contribuição de forma positiva, tendo em vista que os programas educativos estão, aos poucos, sendo abandonados em nome do lucro e de um maior índice de audiência. Por outro lado, as famílias, cada vez mais, estão transferindo para as escolas o seu dever de educar os filhos e as escolas, por sua vez, não estão preparadas para assumir mais esta função. Resta à televisão complementar a educação que não é dada na escola e o Pica-Pau, entre tantos outros desenhos animados transmitidos pela “telinha”, continua ensinando que é mais fácil ganhar o jogo da vida na base da esperteza.

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