Domingo, 30 de Abril de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº941

CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA & DEMOCRACIA

A ficção nas eleições

Por Jacob (J.) Lumier em 28/07/2009 na edição 548

Melhor do que a imagem do círculo vicioso, a mensagem do Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, às voltas com a virtude do redondo – chega-se pela direita ao mesmo lugar de onde se partiu caminhando reto em direção oposta, e vice-versa – tem préstimo para exemplificar a especialização da política, tal como explicada por Max Weber.

Embora polemizada por seu ponto de vista externo e cultural, a referir costumes senhoriais germânicos – em que pese o contexto liberal da sua prática intelectual (o ‘novo curso’ de Guilherme II a partir de 1890, sem o anti-socialismo de Bismark) –, a compreensão por Max Weber da política institucional como racionalizada em um domínio específico, voltado para si e a reproduzir-se por si mesmo, releva do estudo sociológico das escalas da especialização no Ocidente.

Deste ponto de vista formalista ao extremo, muito distanciado da história parlamentar e seus valores coletivos democráticos, percebe-se que o ‘weberianismo’ contempla a concepção elitista dos grupos de interesse, restrita aos blocos de localidades, tidos como os mais capazes para impor a vontade de domínio.

Quer dizer, conformado aos costumes senhoriais germânicos, Max Weber segrega como se sabe uma interpretação individualista próxima do mito romântico do indivíduo monumentalizado (Carlyle), ensejando um modelo de representação de interesses fechada ao conhecimento político como tendência à realização – afirmação da fé em um ideal com ‘estratégia de ação social’.

Duas posturas negativas

Em consequência, não será surpresa se algum cientista político em bom senso avançar um pouco além da imagem ideológica do chefe poderoso e reconhecer o problema do voto obrigatório como diferenciado e não redutível ao sistema de representação de interesses.

Com certeza é relevante, como se sabe, analisar a relação entre o comparecimento eleitoral e o grau de compromisso dos cidadãos com a sustentação de um regime democrático. Será que esse compromisso deve depender exclusivamente do desempenho satisfatório dos representantes?

Tal indagação de pesquisa sociológica adquire mais força quando se constata uma correlação entre duas posturas negativas seguintes: (a) a reticência em relação à PEC regulamentadora que torna expressa a proibição constitucional aos congressistas para serem donos de meios de comunicação (ver aqui), por um lado e, (b) por outro lado, a rejeição às PECs que favorecem o regime do voto facultativo para todos nas eleições (ver aqui).

Obediência e juramento

Daí decorre outra indagação, agora uma questão pública, a saber: por que os nossos representantes querem ser donos dos meios de comunicação?

Uma linha de reflexão nos faria lembrar os primórdios da história do cinema no século 19, na passagem da câmara escura para a caixa ótica, seguinte: ao imaginarem que a comunicação social presta-se à superstição, ou segrega um efeito de lanterna mágica para a representação de interesses, os nossos representantes quereriam ser donos dos meios de comunicação para continuar a impor pela propaganda em rádio e TV a obediência ao voto obrigatório.

Seria a política buscando confundir-se à produção cultural em mass media e à publicidade, simplesmente, caso não houvesse a propaganda do voto obrigatório que, para vingar, exige a superstição da consciência mistificada, ideológica.

Daí o perquirido efeito de lanterna mágica que, em sua caixa ótica de sombras, sem abertura para a luz, foi tomada como mundo sem janelas (fechado) e aplicada por T. W. Adorno à produção de imagens e fantasmagorias psicóticas em Kafka: o déjà vu coletivo, a tecnificação do déjà vu.

Com efeito, relevando de um conformismo tradicional no subdesenvolvimento residual crônico da vida social brasileira, o voto obrigatório só vinga porque a obediência e o respectivo juramento foram tornados produtos consumidos no padrão ‘sempre igual’ da indústria cultural e do mundo da comunicação.

Motivação política autêntica

Em realidade, o que nossos representantes estão querendo nos dizer ao pretenderem tornar-se donos de mídias é simplesmente que, assim procedendo, almejam estar em medida de integrar no sistema da representação de interesses a mentalidade burocrática correspondendo ao regime (cartorial) do mencionado voto sob sanções.

De outra maneira, não se vê de onde procede a motivação política no regime eleitoral do voto obrigatório, já que não é verificada no ato de votar.

Quer dizer, desprovida de motivação política nela própria, a eleição sob voto obrigatório é a configuração do imaginário discursivo da cidadania tutelada: é mais um fenômeno cultural de periferia e país dependente do que realização política.

Imagina-se que se está criando critérios e valores para as políticas públicas e as relações institucionais nas campanhas eleitorais, ao passo que se participa de um sarau à fantasia com fundo burocrático e coercitivo: é a festa dos aparelhos administrativos com a indústria cultural (notadamente, a mídia) e a cultura de massa (imagens do chefe ou do líder).

Assim como há reconhecimento de que as eleições em nossa democracia relevam mais de um fenômeno cultural do que político, onde o rádio e a TV desempenham papel considerável, há igualmente aceitação sem crítica de que o debate de ‘idéias’ nas mídias seria bastante para conferir a motivação política autêntica que a obrigatoriedade do voto suprime. Tal a ficção.

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