Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA & SOCIEDADE

A função da televisão na construção da cidadania

Por Enzo De Lisita em 05/08/2008 na edição 497
Bibliografia

ARBEX, José. O poder da TV. São Paulo: Ed. Scipione, 1997.

BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1997.

BOTELHO, Ronaldo Martins. Pesquisa Administrativa e Teorias críticas: Contrastes entre duas tendências. 2004. Disponível aqui Acesso em 03, ago. 2007.

BRAGA, José Luis. A sociedade enfrenta a sua mídia. São Paulo: Paullus. 2006.

MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério. São Paulo: Ed. Senac, 2005.

THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade. Petrópolis: Ed. Vozes. 1998.

‘Fenômeno de mobilização de massa, capaz de transformar o irreal em real, de invadir e de inverter o espaço público e o privado.’

Por meio de frases prontas, às vezes simplistas, seria possível definir a televisão. Mas sua análise passa por um estudo mais profundo. Os seus críticos, desde os tempos da Escola de Frankfurt, a vêem como uma ferramenta a serviço do poder, vinculada aos interesses ideológicos dos detentores dos meios de produção, incapaz de colaborar na construção da cidadania.

A presente análise tem como uma de suas bases a obra Sobre a televisão, do sociólogo francês Pierre Bourdieu, fruto de uma palestra proferida no Collège de France, paradoxalmente gravada e difundida em vídeo e que virou referência para quem estuda os efeitos da televisão, e em especial do telejornal, sobre a sociedade.

Na trincheira dos que defendem a televisão, está o professor brasileiro Arlindo Machado, com o livro A televisão levada a sério, que afirma ser indispensável a análise dos valores ético e estético da televisão como premissa para produzir uma reflexão verdadeiramente crítica da TV, mas não no sentido frankfurteano. Questiona Adorno [afirma que os ataques de Adorno à televisão são implacáveis ‘sem de fato conhecer a televisão, sem dedicar uma pesquisa mais extensiva ao conjunto das propostas que a televisão estava apresentando naquele momento’ (2005, p.18)] e classifica a obra de Bourdieu como um ‘desastroso livro sobre televisão’ (p.127).

Relativizar as ‘versões’

No título ‘O que informa um telejornal’ (110-113), Machado defende que a televisão pode ser um elemento colaborador na construção da cidadania. Partindo de uma situação macro, que é uma guerra, busca situações reais para reforçar a idéia de que um telejornal não possui um discurso unitário e que serve de canal a uma pluralidade de discursos – portanto, seria democrático. Mostra também que é possível buscar variantes para que os referidos discursos não sejam predominantes na tela, livrando-se de um suposto controle absoluto das telecomunicações pelo ‘império’ (poder).

Segundo Machado, o telejornal compõe-se de uma colagem de depoimentos e por isso jamais chega a se constituir num discurso unitário, lógico ou organizado, mas sim, numa verdadeira colcha de retalhos. Busca exemplos na Guerra do Golfo, ocorrida em 1991. Lembra que os discursos dos diversos agentes, dentre eles, Bush pai, Saddam Hussein etc., exibidos nos telejornais eram insuficientes para descrever a realidade dos fatos, incapazes isoladamente de ‘emoldurar o acontecimento como um todo’ (p.111). Afirma que o fluxo jornalístico compõe-se de uma sucessão de versões de um mesmo acontecimento.

‘A questão da verdade está, portanto, afastada do sistema significante do telejornal, pois, a rigor, não é com a verdade que ele trabalha, mas com a enunciação de cada porta-voz sobre os eventos. […] O telejornal, mesmo quando tenta construir a sua `versão´, em seus modelos mais personalizados ou autoritários, o que ele consegue, no geral, é relativizar ou neutralizar as várias `versões´, jogando umas contra as outras’ (2005, p.111).

Prédio da CNN ficou incólume

O autor argumenta que a televisão é detentora de mecanismos capazes de mostrar fatos concretos que não são de interesse único do poder. Apóia-se em um episódio ocorrido durante a invasão do Panamá pelos EUA. Quando os primeiros corpos de marines mortos no conflito estavam chegando ao país, Bush pai marcou um depoimento à nação no mesmo horário em que os caixões eram desembarcados. Buscou contrapor à força das imagens dos corpos a força de sua imagem, da autoridade. As emissoras CNN e CBS transmitiram o discurso oficial, porém não se omitiram em relação à chegada dos corpos. Mostraram os dois eventos em paralelo, dividindo a tela ao meio com as duas imagens.

A preocupação presidencial era diminuir o impacto da chegada dos corpos de jovens mortos em um conflito longínquo, semelhante à imagem dos corpos de soldados que tombaram no Vietnã nos anos 1960/70 e que levou a opinião pública estadunidense, à época, a se opor à invasão do país asiático culminando na humilhante derrota do império. Fato é que a força da TV colaborou para terminar o conflito bélico nos anos de 1970.

Em contrapartida, ao aceitar que a Guerra do Golfo fosse transmitida ao vivo, como um espetáculo, submetendo-se à censura militar, a televisão afastou-se do interesse da sociedade estadunidense, e mundial, de se opor a um conflito longínquo, como fizera na Guerra do Vietnã, distante dos interesses do dia-a-dia do cidadão.

Como observado, Machado encara o telejornal como um instrumento para os porta-vozes de todos os discursos [seja em uma situação bélica ou não, é pouco crível apostar em uma possível neutralidade com o telejornal servindo como porta-voz de diversos discursos; são singulares as oportunidades onde a televisão foi e é acessível a todos os porta-vozes, principalmente os mais fracos politicamente e distantes dos meios de produção], razão pela qual afirma ser o mesmo uma ‘colagem de depoimentos e fontes’ que chegam ao telespectador ‘não processados, brutos e contraditórios’ (p. 110). Reporta-se novamente à Guerra do Golfo. Todos os lados sabiam onde estava instalado o quartel-general da rede estadunidense CNN; no entanto, o prédio, ao final do conflito, permaneceu incólume. A razão é óbvia, para todos os lados beligerantes a emissora a cabo ‘poderia ser útil em diversas circunstâncias e não valia a pena criar uma situação que pudesse colocá-la do lado inimigo’ (p.112).

Negando a produção ideológica

Em outra situação, lembra o episódio da Guerra dos Bálcãs quando a Otan bombardeou a televisão da Iugoslávia, que era porta-voz do outro lado beligerante, destruindo todas as instalações e assassinando 25 jornalistas.

A análise sobre as guerras do Golfo e de Kosovo prende-se mais à funcionalidade que a televisão tem para os interesses dos beligerantes. Deixa de lado uma abordagem elaborada sobre a espetacularização da notícia desenvolvida pela televisão no mundo da pós-modernidade. Em artigo publicado na Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação (2004), Botelho afirma que ‘a cobertura da Guerra do Golfo […] representou uma mudança no modo de fazer telejornalismo, foi o primeiro conflito armado a ser transmitido ao vivo, em rede planetária e em tempo real, consagrando a espetacularização da notícia’ (p.4).

Referindo-se à primeira Guerra do Golfo, Arbex (1997) dá o tom do que virou a cobertura telejornalistíca de um conflito bélico. ‘Era um grande show. Pela primeira vez na história, o planeta inteiro podia assistir a uma guerra transmitida ao vivo, em tempo real’ (p. 60). No Iraque e no Kosovo, muito destaque foi dado aos erros das armas sofisticadas em detrimento dos milhares de vítimas da tragédia. Estas coberturas mudaram a relação da televisão com a notícia. A TV tornou-se notícia. Enfim, a partir daí estávamos inseridos no mundo do vídeo-game, no mundo virtual, asséptico.

Machado questiona aqueles que entendem que o telejornal não é neutro e nem objetivo, sendo apenas uma fonte de produção ideológica – define-os como ingênuos. Não acredita que o telespectador faça sempre uma leitura ‘previsível das imagens e dos sons difundidos’ (p. 112). Alicerça-se no argumento de que ao difundir três opiniões favoráveis ao governo e apenas uma contrária, seja de fato essa uma postura parcial da televisão. Argumenta que ‘não se pode daí deduzir que o espectador vai necessariamente endossar as opiniões majoritárias; pode até ser que, a partir das opiniões apresentadas, ele forme uma terceira, nem sequer cogitada na tela’ (p. 112).

Preocupações estéticas

Através de uma forma simbólica, encara como positiva a capacidade de o telejornal ‘semear confusão ali mesmo onde, sob a rubrica da informação, deveria haver ordem, coerência e sistematização da notícia’ (p. 111). Para ele, uma aparente desordem é importante para que o telejornal não seja uma voz monocórdia e cordial com o poder.

Outra variante para a reflexão acerca da visão de Machado é a acentuada preocupação com a estética. Ao priorizá-la, transfere para segundo plano as relações e os conflitos de classes e de poder. Braga, ao analisar A televisão levada a sério, aponta essa faceta.

‘As preocupações estéticas do autor talvez direcionem a interlocução mais para as questões de arte e criação do que para as questões de angulação político-ideológica, de cidadania e valores sociais, de atendimento a expectativas de audiência, de ‘comportamento’ individual ou público – que são outras tantas preocupações que movem a sociedade na observação de sua mídia’ (Braga, 2006, p.207).

O emburrecimento da massa

No outro lado da análise, encontramos no título ‘Uma força de banalização’ as críticas de Bourdieu à televisão. O autor afirma que o poder de penetração que a televisão possui na sociedade é capaz de ‘produzir efeitos que, embora não sejam sem precedentes, são inteiramente inéditos’ (p. 62). Esse poder é exemplificado no telejornal francês das 20 horas, capaz de reunir mais audiência do que todos os diários daquele país. Imaginemos essa proporção no Brasil, comparando a audiência do Jornal Nacional, 65% dos receptores ligados, em média, contra as fracas tiragens dos jornais de um país pobre, ou emergente, e com grande parcela de analfabetos funcionais [o IBGE divulgou no dia 25 de maio de 2007 que no Brasil são 16,4 milhões de analfabetos – 12,1% da população]. O resultado pode ser mais nefasto.

Essa enorme audiência acaba se transformando em arma perigosa contra os princípios básicos da imprensa: a verdade, a cidadania e a democracia. É o que Bourdieu denomina informação-ônibus, ou seja, aquela informação sem aspereza, homogeneizada, mais se assemelhando a uma mercadoria produzida por uma linha de montagem. Como contraponto, entende que quanto mais audiência obtém um órgão de imprensa, maior é o risco de perder suas asperezas, ou seja, deixa de ser questionador. Cético, vê na manipulação uma aposta na premissa do emburrecimento objetivo da massa.

Esta visão de encarar o conjunto de receptores – não propriamente como indivíduos, mas com uma massa incapaz de refletir sobre o conteúdo que lhe é transmitido – recebe a crítica de estudiosos como Thompson (1998). ‘Devemos abandonar a idéia de que os destinatários dos produtos da mídia são espectadores passivos cujos sentidos foram permanentemente embotados pela contínua recepção de mensagens similares, […] absorvidas pelos indivíduos como esponja absorve água’ (p. 31).

Record vs. Globo

Para Bourdieu, uma das formas de não provocar reflexões e cisões na audiência, de não chocar o telespectador, é levantar ‘… problemas sem história. É falar do tempo. Fala-se muito da chuva e do tempo bom porque é o problema com o qual se está certo de não causar choque’ (p. 63). Falar do tempo é um exemplo apropriado e que virou moda na TV brasileira, mais uma cópia do modelo estadunidense. Falando do tempo, aparentemente fala-se de algo importante para não se falar de nada e deixar tudo como antes. Bourdieu entende que com isso a TV perde a capacidade de pensar à medida que cresce. ‘Quanto mais estende sua difusão, mais caminha para assuntos-ônibus que não levantam problemas’ (p. 63). Mais audiência significa também mais compromissos políticos e econômicos, portanto, um distanciamento dos interesses do cidadão comum.

No Brasil, podemos encontrar bons exemplos dos assuntos-ônibus no Jornal Nacional. Isso se vê não só com reportagens sobre o tempo, mas também com matérias sem importância para o grosso da sociedade e que geralmente encerram o telejornal, dando à população uma sensação de leveza, de que tudo está bem. Não se pode negar que o JN levante problemas de interesse da coletividade, ou de fazer reportagens investigativas sobre negócios escusos de ministros ou parlamentares, mesmo que sirvam para atender interesses políticos e econômicos não muito claros. Por isso, talvez seja arriscado afirmar categoricamente que a grande audiência seja incompatível com o ato de levantar problemas.

Vamos a outro exemplo de que o que se veicula em um telejornal nem sempre atende interesses da coletividade. No início de 2007, a Rede Record mostrou os transtornos que são para torcedores e vizinhos de estádios, os jogos iniciados após a novela das 8, ou seja, às 21h45. Até o ano anterior, a Record recomprava da Globo o direito de transmitir os jogos às 21h45. Como não houve acordo, resolveu levantar o problema que, a partir de então, passou a ser também de interesse dela. Abordou a questão não como um exercício de cidadania, mas porque perdeu dinheiro.

O poder de se exprimir publicamente

A faca de Bourdieu fica mais afiada quando ele critica o moralismo dos que fazem TV. Insere no mesmo balaio apresentadores de jornais, animadores de debates e comentaristas esportivos para qualificá-los de ‘porta-vozes de uma moral tipicamente pequeno-burguesa, que dizem ‘o que se deve pensar’ sobre o que chamam de ‘os problemas da sociedade’, as agressões nos subúrbios ou a violência na escola’ (p. 65).

A crítica se encaixa também na TV brasileira. É a mesma realidade que condena os donos da Escola de Base; que pede pena de morte para menores infratores após o assassinato de garoto de classe média e se esquece da infância abandonada; é a realidade dos que clamam pela ordem, pela pena capital, ou pela prisão perpétua em um Estado que não possui cadeias para recuperar os criminosos.

Bourdieu trata ainda da importância dos operadores da informação no mundo social. Jornalistas ou radialistas seriam integrantes de ‘um monopólio real sobre os instrumentos de produção e de difusão em grande escala de informação e, através desses instrumentos, sobre o acesso dos simples cidadãos, mas também dos outros produtores culturais, cientistas, artistas, escritores’ (p. 65). Ou seja, importante não é quem opera, mas o que é operado. Conclui o raciocínio afirmando que ‘eles exercem uma forma raríssima de dominação: têm o poder sobre os meios de se exprimir publicamente’ (p. 66) mesmo que exerçam esse poder a mando de quem os paga.

Conclusão

O grande mérito da obra de Bourdieu é provocar a discussão. Após a leitura de Sobre a televisão, é impossível encarar esta mídia sem fazer uma reflexão e uma reavaliação sobre a TV, mesmo que seja para contradizê-lo. Bourdieu mostra que é um equívoco analisar a televisão apartada das relações de poder, sem contextualizá-la com o mundo globalizado e sem esquecer que a televisão é um meio feito para ganhar dinheiro ou facilitador para que grupos detentores de sua concessão ganhem mais dinheiro.

Deve-se, no entanto, observar a visão pessimista que possui em relação à capacidade de mobilização da sociedade civil – ainda que desorganizada – de interferir na elaboração do discurso midiático. Ficam relegadas, na análise de Bourdieu, as mobilizações populares capazes, ainda que pontual e singularmente, de gerar alguma transformação na sociedade.

Se, de um lado, a visão pessimista pode indicar o caminho da reflexão, da conscientização, de outro, pode também indicar o perigoso caminho do conformismo, da descrença que por sua vez leva à desmobilização da sociedade que acaba aceitando hipodermicamente aquilo que lhe é sutilmente injetado todos os dias através de um aparelho de televisão.

Já Machado contrapõe-se àqueles que, como Bourdieu, encaram a televisão como elemento nefasto na construção da cidadania. Se por um lado conseguiu pontuar que a TV não nasceu com o pecado original da manipulação, o que é verdade, ou que ela age contra os interesses da cidadania; de outro, não aponta sugestões que permitam o verdadeiro acesso das diversas vozes da sociedade às câmeras e microfones de uma televisão.

A reflexão dele pauta-se mais pela estética, como se bastasse a funcionalidade exemplificada através de alguns programas, descontextualizada das profundas e intrincadas relações existentes entre os detentores dos poderes político/econômico e os donos da mídia. Afinal, a produção de notícia e a produção de entretenimento fazem parte do mundo dos negócios e não é por acaso que são também denominadas de indústria.

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Professor de Telejornalismo no curso de Jornalismo da Universidade Católica de Goiás (UCG), mestrando em Direito na UCG

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