Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

A função dos pais e o papel da mídia

Por Holmes Antonio em 27/04/2004 na edição 274

Na 4ª Cúpula Mundial de Mídia para a Infância e a Adolescência, que terminou na sexta-feira (23/4) no Rio de Janeiro, ficaram faltando mesas que discutissem um grande tema: "O papel dos pais na produção de mídia para seus filhos". Não bastasse esse lapso imperdoável, o texto da Carta do Rio de Janeiro (documento final elaborado pelos integrantes da Cúpula) não cita, uma única vez sequer, a palavra pais. Esse lapso é mais do que um mero esquecimento, é a constatação de como temos caminhado para a criação de um fast-track entre as demandas infantis e o mercado, que tem como arautos alguns produtores de mídia.


Devemos sempre dar voz a nossas crianças e nossos adolescentes, mas isso não basta. Precisamos dar voz aos pais de nossas crianças. Precisamos desafogá-los do peso que a luta pela sobrevivência lhes tem infligido. Precisamos criar condições para que os pais, vencendo suas dificuldades, possam retomar a intransferível e gratificante função de ser pais.


As dificuldades que os pais enfrentarão para educar um filho dependerão, fundamentalmente, da capacidade de amar e de educar que esses pais desenvolveram ao longo de suas próprias vidas, além das condições do meio ambiente que serão oferecidas a essa criança.


Como se ama e como se educa são valores próprios de cada comunidade, de cada família, e devem ser respeitados como tal: salvaguardados os valores éticos e de direito das crianças, cada pai e mãe tem autonomia para fazer valer os valores culturais que considerarem fundamentais para a vida de seus filhos. Contudo, em alguns locais do mundo atual, condições degradadas do meio ambiente se tornaram fatores que embotam a transmissão da capacidade de amar de pais a filhos e embrutecem a educação possível de lhes ser oferecida. Os pais perdem, assim, a capacidade de legislar sobre e, em algumas situações, de acompanhar o crescimento de seus próprios filhos.


No comando


Relação de amor é fundamental para a estruturação das crianças. O amor só se estabelece numa relação, e não há relação na mídia de massa. Conhecimento, informação e até alguns valores podem ser transmitidos pela mídia, mas só serão incorporados eticamente às nossas crianças se houver junto a elas quem bem possa exercer a função de ser pais: o amor dos pais é o veículo (é a mídia um a um) para a estruturação ética das crianças.


Como um balanço final, a 4ª Cúpula Mundial de Mídia para a Infância e a Adolescência poderá representar um marco para as nossa crianças. E, se assim o for para elas, o será também para a História de nosso país. Foram dias bons para a discussão do que é e o que será produzido, especificamente, pela mídia para crianças e adolescentes.


Consideramos, entretanto, que não se pode negligenciar, ou mesmo diminuir, a importância que tem a função de ser pais (que é dos pais) em nosso percurso de oferecer a nossos filhos e netos um futuro menos sombrio daquele previsto pelos especialistas. A função dos pais não deve estar submetida, ou ser incorporada, às instâncias que sejam dependentes das leis de mercado: trata-se de uma função que é prerrogativa exclusiva dos próprios pais e, por extensão, dos responsáveis por eles autorizados a exercê-la (os professores, por exemplo).


Será fortalecendo a função dos pais que poderemos oferecer a nossas crianças e adolescentes a possibilidade de crescerem com saúde física e mental, de serem capazes de dialetizar com os valores oferecidos por seus pais (afinal, isso é estrutural ao ser humano) e de subverterem eticamente as condições desfavoráveis do meio (é isso que os pais e a História esperam de seus filhos).


Fortalecer a função dos pais: este é o caminho que deverá ser percorrido por aqueles que hoje ocupam cargos deliberativos nos governos, nas empresas, nas sociedades civis organizadas e, é evidente, na cabine de comando das indústrias de mídia.

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Professor do Departamento de Psiquiatria da Infância e da Adolescência da UERJ e membro da Escola Brasileira de Psicanálise Movimento Freudiano

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