Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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CADERNO DA CIDADANIA >

A história do coronel alemão herói-traidor

Por Fabio de Oliveira Ribeiro em 23/02/2009 na edição 526

Ontem (17/02) vi novamente o filme Stauffenberg (2004) para poder avaliar melhor o recém-lançado Valkyrie (2008). O personagem interpretado pelo alemão Sebastian Koch é bem mais interessante que o de Tom Cruise.

No filme Stauffenberg (2004), o coronel sofre profundas modificações ao longo do filme. De simpatizante de Hitler antes da guerra, Stauffenberg passa a crítico do regime nazista ao tomar conhecimento das atrocidades durante a invasão da Rússia. Após ser mutilado no Norte da África, o herói-traidor se torna feroz opositor de Hitler e se dispõe a dar a vida para eliminá-lo. O personagem de Tom Cruise, por sua vez, é absolutamente linear e previsível. Desde o princípio é mostrado como opositor de Hitler.

O filme de 2004 é conciso e deixa várias lacunas que precisam ser preenchidas pela imaginação do espectador. Valkyrie (2008) é irritantemente didático.

Em Stauffenberg (2004), percebe-se a precariedade de um plano que tinha tudo para dar errado desde o princípio. Mesmo que Hitler fosse eliminado, havia toda uma cadeia do comando militar preenchida por nazistas que certamente resistiria ao golpe de mão dado pelos conspiradores. Em Valkyrie (2008), o espectador é levado a crer que o plano de Stauffenberg poderia dar certo se Hitler morresse. O roteirista da nova versão esqueceu-se que Hitler morreu antes do fim da guerra?

Autonomia e profundidade dramática

A desesperada ação do coronel interpretado por Sebastian Koch tem mais valor épico do que a do personagem de Tom Cruise. Em Stauffenberg (2004), o herói corre todos os riscos, mesmo sabendo que tudo pode resultar num desastre. Em Valkyrie (2008), o coronel demonstra uma certeza de êxito que é incompatível com qualquer ação precariamente planejada e executada.

As três cenas cruciais do filme – o momento em que o golpe é descoberto pelo comandante do Exército de Reserva; a rápida batalha na sede do Ministério do Exército, com a prisão dos revoltosos; e a execução do herói-traidor – têm diferenças sutis.

Em Stauffenberg (2004), Goebbels chama o comandante das tropas que iniciaram a Operação Valquíria e passa o telefone para ele demonstrando tranqüilidade. Em Valkyrie (2008), o mesmo Goebbels coloca uma cápsula de veneno na boca antes de receber o militar encarregado de prendê-lo. Qual seria a mais provável atitude do ministro da Propaganda conhecendo-se sua personalidade? Eu penso que a versão de 2004 é mais verossímil que a de 2008.

A rápida batalha que resulta na prisão dos revoltosos tem mais dramaticidade na versão de 2008. Isto ocorre por causa da concisão narrativa de Stauffenberg (2004). No filme interpretado por Sebastian Koch, a ênfase maior dada ao herói eclipsa os personagens secundários (alguns deles são apenas bonecos inanimados). No filme de 2008, personagens como o general Fromm foram muito bem construídos e ganharam maior autonomia e profundidade dramática.

Sinal da decadência americana

As execuções de Stauffenberg nos dois filmes são despojadas e muito parecidas. A única diferença entre as cenas é a conduta do ajudante de ordens de Stauffenberg. No filme de 2004, ele corre para proteger o comandante, enquanto na versão de 2008 ele caminha para ficar na frente do amigo.

O filme de 2004 tem mais virtudes que o de 2008, mas incorreu em anacronismo pelo menos uma vez. Em certo momento, o Stauffenberg de Sebastian Koch diz que sonhou com uma Alemanha pacífica que respeitasse os direitos humanos. Antes da Declaração dos Direitos do Homem, o imaginário europeu ainda estava muito poluído para que um soldado adotasse uma ideologia tão avessa ao racismo e ao militarismo. Aliás, mesmo hoje não são poucos os militares ocidentais que demonstram o mais profundo desprezo pelos direitos humanos (como ficou patente na campanha americana no Iraque e no ataque israelense a Gaza).

Stauffenbeg tem um valor dramático análogo a Joana D´Arc. Ambos se tiveram a ousadia quase insana de se levantar contra poderes invencíveis. Ambos foram bem sucedidos apenas parcialmente. Ambos foram traídos e morreram em razão da própria temeridade. Quando morreram, ambos foram considerados desprezíveis. Com o tempo, a memória de ambos se tornou extremamente valorizada.

A história de Stauffenberg tem inspirado bons filmes, mas não tem sido seguido. Apesar de todas as mentiras contadas por George W. Bush para atacar o Iraque, de suas investidas contra os direitos e garantias individuais dos americanos, das atrocidades que ele cometeu com a ajuda de seus fiéis escudeiros Dick Cheney, Condoleezza Rice, Donald Rumsfeld e outros, nenhum oficial do exército norte-americano teve coragem para mandá-lo pelos ares com explosivos. Um sinal claro da decadência americana é a necessidade dos produtores de Valkyrie (2008) recorrerem ao herói-traidor de outros tempos e de outras terras. Na atualidade, dentro dos EUA, os militares sempre dizem amém como se fossem os incorruptíveis nazistas combatidos pelo herói-traidor alemão.

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Advogado, Osasco, SP

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