Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > AIDS E PRESERVATIVOS

A Igreja não é hipócrita, a grande mídia sim

Por Richard Jakubaszko em 13/03/2007 na edição 424

Sistematicamente aparece algum intelectual ou personalidade e culpa a Igreja Católica pela Aids. Virou moda. A última opinião foi manifestada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva – a de que a Igreja Católica é hipócrita ao inibir as ações de políticos e do governo em distribuir preservativos nos sertões do Brasil e essa posição seria a principal causa do avanço da Aids. A mídia ‘repercute’ e nada mais. Não vi entrevista alguma com algum porta voz da Igreja, bispo ou cardeal. Não vi entrevista alguma com alguém que discorde dessa opinião – e olha que o assunto é importante.

Em outros temas, a polêmica aparece. Estamos discutindo na mídia a redução da idade para punição a menores de 18 anos. Mas a Aids sumiu do noticiário. Reaparece quando Lula resolve mostrar compatibilidade de idéias com a chamada intelectualidade brasileira. E pau na Igreja Católica. Há um consenso de opiniões. A opinião presidencial é fruto de ecos antigos, mas como foi o presidente que falou, manda ver! E os coleguinhas esquecem do que aprenderam na faculdade: ouvir opiniões contrárias.

Só morre pobre e gay

Querem saber? Políticos e governo não distribuem camisinha porque não dá voto, assim como esgoto não dá voto. Discordo da opinião porque a disseminação da Aids não é no sertão ou nos interiores do Brasil; está nas grandes cidades e, principalmente, nas turísticas e portuárias. Nas pequenas, onde todo mundo se conhece, o moralismo é evidente, funciona como freio moderador para atos não sintonizados com o que a sociedade pensa. Nas grandes, a juventude é livre – na condição de anônima – e pratica o que acha que pode, seja sexo ou drogas.

Lamentavelmente, a Aids avança silenciosamente no Brasil em todas as classes sociais e econômicas, dissimulada por falsas estatísticas que indicam sua involução, em especial doentes das classes C e D, acobertadas por médicos coniventes de seguros saúde que mascaram diagnósticos. Já notaram que só morre pobre e gay de Aids no Brasil? E ninguém investiga, muito menos a grande imprensa.

Um paradoxo e uma quimera

O modismo da elite intelectual brasileira, à qual se junta agora o presidente Lula, de responsabilizar a Igreja pelo descontrole e avanço da Aids incomoda-me, enquanto católico, porque é mais uma hipocrisia brasileira, como tantas que grassam pelo país. Apesar da Igreja pactuar o sexo apenas no casamento – e para procriação da espécie – isso não é obedecido. Então, o que se pretende agora? Que a Igreja contrarie e ignore o dogma milenar e recomende o preservativo? Adiantaria? Se os ‘fiéis’ não praticaram o preceito antes, porque o fariam agora? Nem alguns padres usaram os preservativos e estão com Aids. Os cônjuges que traem jamais vão usar em casa, seria admitir culpa. Ora, meus amigos de opinião contrária, saiam desse modismo e mudem de opinião. Não me envergonho de mudar de opinião porque penso. Então, raciocinem comigo.

Pedir que a Igreja Católica recomende o uso de camisinha é um paradoxo e uma quimera, equivale a pedir ao ministro da Justiça que – ante a antiga legislação permissiva para armas de fogo – autorizasse o uso de silenciador para não incomodar o vizinho. O mesmo da recomendação malufiana: estupra, mas não mata!

O risco é progressivo

O problema da Aids está na matriz cultural do povo: macho não usa camisinha; macho come todas e dá 3 ou 4 por dia; usar camisinha é como chupar bala com papel; virgindade dá câncer; e a pior, quem passa Aids é bicha, mulher não, porque tem a vagina lubrificada etc. O avanço da Aids só vai perder velocidade se o governo encarar o problema de frente: escola para todas as crianças – com educação sexual.

Em paralelo, façamos campanhas realistas e agressivas, e não à base de desenho animado ou com artistas globais e simpáticos – hipócritas campanhas apenas durante o carnaval. Tem de dizer que cada transa com parceiro novo é 50% de chance de pegar Aids porque o outro tem ou não tem o vírus. Na segunda transa, mais 50% de chance, o que eleva a chance para 75%, e na terceira vez o sujeito está com 87,5% de chances de ter contraído Aids. O risco é progressivo. Quem sobe num avião com 50% de chances dele cair?

Investigar dá trabalho

O paradigma implícito de que felicidade e sucesso estão no sexo – apregoado na TV, cinema e revistas – deve ser repensado. Sexo quase explícito na novela das oito faz mais pelo avanço da Aids – como incentivo à prática – do que discurso de padre recomendando uso de camisinha para deter a epidemia. Isso me lembra a história do marido que levou a esposa ao zoológico e mandou-a mostrar pernas e seios para o orangotango na jaula. Depois de alguns safanões o macacão derrubou a porta e avançou para a mulher enquanto o marido avisava: ‘Agora diz rápido pra ele que está com enxaqueca, diz que está com dor de cabeça, diz…’

Não vi nenhum padre proibir preservativo, no púlpito ou na TV. É fácil incentivar o jovem – que é inseguro – e excitá-lo, e depois culpar a Igreja porque não recomenda a camisinha. Não estou sugerindo que voltemos à era vitoriana, mas lembremos o que ocorreu como conseqüência da epidemia de sífilis, também fatal naquela época. Houve uma mudança de paradigma no comportamento da sociedade para deter o avanço da epidemia. Mas isso não sai na imprensa, investigar a história dá trabalho, é cansativo, é mais fácil ouvir a fonte, pessoalmente ou ao telefone, convém ao editor e ao repórter preguiçoso.

Em cima do muro

Não culpem a Igreja de proibir o uso – ela não proíbe explicitamente, nem adiantaria, apenas não incentiva o uso. A ação e a postura da mídia, ao lado das indústrias do lazer e da moda, de estimular sedução é a principal incentivadora da epidemia – junto com os hormônios próprios da idade. Não há diretor de filme ou novela que não tenha sua concepção individual e imperiosa necessidade de mostrar no mínimo uma cena caliente de sexo (acho estranho isso…).

Guardo em meu mais profundo íntimo uma plena identificação na contestação de inúmeros hábitos e tradições da sociedade humana, a exemplo da personagem Emília, dos livros de Monteiro Lobato, nos quais aprendi minhas primeiras letras. Em paralelo, até por uma questão de caráter, e também da atividade jornalística, onde se convive no dia-a-dia com opiniões contrárias, acredito piamente no embate das idéias como fator de crescimento individual e coletivo e lamento profundamente o silêncio dos que se sentem agredidos pela postura dos críticos da Igreja Católica. A flagrante omissão, da grande mídia e das pessoas, é uma fuga e um comportamento galináceo dos católicos brasileiros nesse assunto, em que comprovam o horror atávico aos temas polêmicos, o que também não deixa de ser uma autêntica hipocrisia.

Assim não dá, meus caros amigos a favor ou do contra, eu não sou lobo e nem vocês ovelhas, mas vocês estão turvando as águas dos rios da vida. Não é possível viver em cima do muro e conviver, sistematicamente, com uma no cravo e outra na ferradura.

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Jornalista, publicitário, escritor e consultor de marketing, autor de Marketing da Terra e Marketing Rural: como se comunicar com o homem que fala com Deus

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/03/2007 Ubirajara Oliveira

    O texto é interessante, já que defende um lado que até então, eu só conhecia pela mídia e, geralmente, seguido por um comentário negativo. Respeito a opinião do autor, discordo de alguns pontos, porém compactuo que a sexualidade se tornou ‘uma coisa’ sem regras e padrões. Hoje, meninos e meninas com 10, 11,12 anos estão fazendo sexo por fazer e pronto! ou seja, nem conhecem o próprio corpo e já se dão de forma irresponsável. Tudo isso incentivado sim, pelos meios de comunicação!
    Um amigo disse-me que ao tentar comprar roupas para a filha de 10 anos, ficou estarrecido com os modelitos que as vendedoras ofereceram, todas com toques sensuais, é ou não é uma coisa? Registro que não sou moralista, mas me preocupo com a falta de educação dos nossos jovens, que infelizmente, se perdem nos seus instintos por se negar a eles, o direito de escolha.

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