Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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CADERNO DA CIDADANIA > CONSCIÊNCIA NEGRA

A imprensa diante de um novo fato social

Por Muniz Sodré em 28/11/2006 na edição 409

A terceira semana de novembro caracterizou-se por um espaço notável na mídia dedicado aos negros brasileiros. Notável ainda é o fato de que, a rigor, não havia propriamente ‘acontecimento’, pelos critérios habitualmente adotados pela prática jornalística, que implicam singularidade, acidentalidade e improbabilidade. Inexistia qualquer ruptura no fluxo normalizado das ocorrências. Claro, pode-se pensar no feriado de Zumbi dos Palmares, ‘Dia da Consciência Negra’, mas isso já data de alguns anos e sem a mesma repercussão midiática.

A primeira conclusão se tirar é de que a ‘questão do negro’ – o problema da inserção mais favorável de pretos e pardos na sociedade global dos indivíduos de pele clara – ganhou foros de questão pública amplamente reconhecida; portanto, adquiriu estatuto teórico de fato social. Evidência incontornável desse fato são os resultados do segundo estudo sobre as desigualdades de cor e raça, divulgados pelo IBGE (Folha de S.Paulo, 18/11), segundo os quais a diferença na renda de pretos e pardos em relação aos brancos cresce na razão direta do aumento da escolaridade dos trabalhadores. Ao lado disso, na média nacional, o branco ganha o dobro (96%) do salário da gente de pele escura.

Não é o caso de ficar repetindo aqui dados já publicados na grande imprensa. A Folha foi muito mais extensiva do que O Globo a respeito, mas ambos os jornais deram destaque ao assunto, que chegou mesmo a ganhar manchetes. Mas não há como deixar de sublinhar certos aspectos que integram, às vezes sem o devido realce, os textos das matérias.

Um deles, originário da gerência da PME (Pesquisa Mensal de Emprego, uma das bases para o estudo do IBGE), é a afirmativa de que uma parte da diferença salarial entre esses grupos se explica pelo próprio processo histórico de exclusão da população negra. Um outro detém-se na escolaridade como principal fator a diferenciar o rendimento do trabalho: só 8,2% dos pretos e pardos com mais de 18 anos ao menos freqüentaram a universidade (entre os brancos, o percentual é de 25,5%).

Fora da esfera do trabalho, entretanto, a mais recente Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE é alentadora: o percentual de brasileiros que se declaram pretos ou pardos no ensino superior, na última década, subiu de 18% para 30%.

Situação desigual

Uma pesquisa desse porte contém material não só para várias edições de jornal, mas também para alimentar estudos e debates, seja no mundo acadêmico, seja junto aos ditos representantes do povo no Congresso. Ao mesmo tempo, tudo isso pode ser altamente surpreendente para o leitor comum, em especial aquele habituado à grande imprensa carioca. É que, desde o aparecimento da questão das cotas para negros nas universidades, constituiu-se um tipo de grupo intelectual (tanto no meio jornalístico – o colunista Elio Gaspari é uma exceção marcante – quanto no acadêmico) incisivo na negação do óbvio, a diferença racial na sociedade brasileira.

Investindo contra tudo que lhes pareça uma tentativa de ‘racializar’ o país, reiteram: não existe raça, ninguém pode determinar quem é branco ou quem é negro no Brasil. O primeiro argumento, o da inexistência de raças humanas, é uma verdade biologicamente comprovada e antropologicamente reafirmada há mais de meio século.

O segundo argumento é problemático, senão falso, porque, embora não haja raças, existe a ‘relação racial’, ou seja, o imaginário da raça com a sua histórica exaltação da supremacia do paradigma branco e as conseqüentes discriminações das diferenças, atravessando sempre a situação e a posição de classe dos cidadãos.

Mesmo pobre, logo inserido numa situação de classe socialmente desigual, o indivíduo de cor clara pode sentir-se em posição de classe superior frente ao preto/pardo, que nasce com a cor da pele como desvantagem ‘patrimonial’ numa sociedade que ainda guarda visceralmente os esquemas mentais da escravatura.

Indício forte

A pesquisa do IBGE é, em si mesma, sem grande esforço interpretativo, um claro argumento no sentido que a ‘relação racial’ é uma questão das mais sérias para o equilíbrio da cidadania brasileira. Ela nos ensina sem subterfúgios, primeiro, que a realidade social sabe perfeitamente fazer a diferença entre branco e negro (ou entre claro e escuro, para quem preferir outra terminologia), mostrando a quem quiser ver o quanto as aparências estéticas podem integrar a lógica da dominação.

Segundo, evidencia que as políticas de ação afirmativa de base ‘racial’ vêm revelando um grande potencial para incluir nas universidades, tornando-os politicamente visíveis, estratos populacionais estruturalmente à margem da cena pública.

Terceiro, surpreende (mas apenas os desavisados) com a informação de que as dificuldades de ascensão podem crescer com o aumento da escolaridade. Este último item é indício forte de que toda a argumentação político-sociológica que remete às condições de classe social deixa de fora os resíduos de um velho mal-estar civilizatório chamado racismo.

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Jornalista, escritor, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 03/12/2006 Luis Claudio Mata

    A historiografia oficial no Brasil versada nos livros didáticos sempre contou uma história sob a ótica dos vencedores, ou seja, um país com traços marcadamente africanos sempre priorizou um ensino voltado para o estudo da Europa e nunca antes o negro fora trabalhado numa perspectiva positiva.Não é à toa que no séc.XIX os colonizadores europeus criaram a idéia de superioridade da raça(antropometria) e tentaram embranquecer a população(eugenia) após a abolição da escravatura e, infelizmente, essas idéias persistem, hoje, no imaginário coletivo. E, na mídia, sobretudo nas novelas, aliás de roteiro muito previsível, os autores insistem em mostrar o negro sempre como escravo onde aparece um senhor de escravo malvado e uma sinhazinha angelical que se compadece do sofrimento do negro na senzala. Em outras novelas, também de roteiro previsível, quando aparece o negro como protagonista este vem carregado de desvios de comportamento cujo modelo para vencer na vida é marcado pela trapaça, pela sordidez de caráter e pelo conluio torpe.Essas mensagens e imagens subliminares, enfim, considero que contribuem para reforçar o racismo, a discriminação e o preconceito contra o negro que tanto contribuiu na trajetória histórica de nosso país não somente na herança do nosso jeito de ser, dançar, rezar e celebrar a vida, mas na herança cultural e intelectual como construtores de conhecimento.

  2. Comentou em 30/11/2006 Helena Ortiz

    Muito bom.
    o próprio esforço institucional e da mídia indica um esforço (há muito devido) de integração, mas é por medo. só porque estão perdendo terreno. Nascer é muito comprido, já dizia Murilo Mendes.
    Mas chamar negro de pessoa escura também acho muito delicado.
    O politicamente correto foi um jogo que não deu certo, porque se baseava na hipocrisia, e não no respeito. Não podia dar certo.
    Na real, O Brasil não seria o que é, não fosse o negro.
    e se os maiores corruptos dizem que não são negros – isso prova que eles estão limpos.
    grande abraço
    Helena

  3. Comentou em 28/11/2006 Paulo Martins

    Concordo com o artigo, só gostaria de fazer uma ressalva quanto à sempre constante relação feita por políticos e jornalistas entre ‘ser bem sucedido’ e ‘ter cursado uma Universidade’. Eu, se não acho isso um sofisma, creio ser um pensamento simplista demais, que não atende à realidade e que pode criar situações irreversíveis ao ensino brasileiro — como o sucateamento das Universidades públicas, o que privatizaria de vez o ensino de qualidade no Brasil.

    Basta lembrar que nos EUA, só para citar um grande ícone, boa parte da população tem curso técnico, e não diploma de graduação. E ganham bem por isso. Achar que só por brasileiros pobres garantirem a entrada na faculdade significa gerar uma distribuição de renda, é no mínimo superficial. É como querer melhorar a qualidade de vida fazendo com que todos ganhem na loteria. Ou, mais contundentemente: Como a tabela de preços que Sarney fez para acabar com a inflação (e que, obviamente, foi um fracasso).

    Daqui a pouco, no caminhar dessas medidas paliativas, ter diploma de graduação no Brasil não vai significar mais nada. Talvez um pós-doutorado garanta algum emprego de vendedor ou taxista.

    Universidade é local de PESQUISA, e isso não está sendo pensado e muito menos desenvolvido no Brasil. Com essa proliferação de cursos, a qualidade cai para todos. Será que esse é o objetivo?

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