Sábado, 19 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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CADERNO DA CIDADANIA >

A indústria cultural e as novas possibilidades

Por Valterlei Borges em 12/10/2009 na edição 559

A internet e suas possibilidades ampliaram o mundo: o que inicialmente coexistia apenas no plano virtual, hoje pode ser considerado quase um agente social, uma vez que esse ente passa a fazer parte das relações sociais e culturais e, consequentemente, passa a operar também na cidade e no espaço urbano reconfigurando as formas de sociabilidade. No livroO espaço do cidadão, Milton Santos (1998, p.1) aborda algumas questões pertinentes a esse tema e faz uma análise sobre ‘como se organiza a rede de caminhos e a rede de cidades segundo hierarquias e de como se distribuem territorialmente os indivíduos, segundo suas classes sociais e seu poder aquisitivo’. O geógrafo aponta que além da situação econômica, a localização sócio-espacial do cidadão na cidade o faz ter ou não acesso aos bens oferecidos. E conclui que:

‘A atividade econômica e a herança social distribuem os homens desigualmente no espaço, fazendo com que certas noções consagradas, como a rede urbana ou do sistema de cidades, não tenham validade para a maioria das pessoas, pois seu acesso efetivo aos bens e serviços distribuídos conforme a hierarquia urbana depende de seu lugar sócio-econômico e também de seu lugar geográfico’ [ibid. p. 1].

Certamente concordamos com ele. Porém, o que talvez Milton Santos não pudesse antever em seu tempo era que, vinte anos depois, as formas de acesso aos bens e serviços não ficariam restritos apenas aos espaços geográficos da cidade e à localização do cidadão na malha urbana. Com o desenvolvimento dos meios de comunicação e a popularização da internet, muitos meios de produção ultrapassaram o espaço urbano e chegaram às mais remotas localidades atingindo um incontável número de pessoas, especialmente se considerarmos o público atendido pelaslan houses, que hoje é uma realidade presente inclusive nas favelas e comunidades de baixa renda. Ainda que a maioria das pessoas não domine nem conheça as ferramentas disponibilizadas na rede, as possibilidades passam a existir até para os que se encontram à margem da cidade e do espaço urbano: os espaços físicos e geográficos, portanto, podem deixar de ser a principal barreira impeditiva para a fruição e a criação de bens culturais e simbólicos e de informação. O cidadão contemporâneo passa a ter condições e recursos ao seu alcance que seriam inimagináveis há pouco mais de dez anos.

Vozes e discursos estão emergindo

O que acontece atualmente é um exemplo típico da compressão tempo-espacial apresentada por David Harvey (1992, p. 27), onde a aceleração causada pelos sistemas de comunicação altera as relações dos indivíduos com os mercados e com o consumo, e acaba por reconfigurar toda a esfera social, produzindo assim novos sistemas de representação cultural, o que nos faz, por sua vez, relembrar e voltar aos apontamentos de Adorno e Horkheimer emA indústria cultural (1990), no qual os autores questionam a seguinte idéia: em até que medida a escolha de um produto da indústria cultural por parte de quem o consome pode ser considerada subjetiva, uma vez que a própriaindústria é quem dita os padrões?

Diante dos apontamentos de Adorno e Horkheimer [ibid.], somos levados a acreditar que os recentes fenômenos surgidos pela internet são frutos, em sua grande maioria, não só da massificação, mas também de uma nova lógica do sistema propícia a esse tipo de criação, que até poderá gerar outros modelos de representação e significação, mas que por trás desse aparente benefício, tem como principal objetivo alimentar a roda-viva da cadeia produtiva imposta pela própria indústria cultural. E pode ser que isso seja verdade, porém, o fato é que essa superestrutura gerou lacunas, se assim podemos chamar, em sua padronização, já que os mecanismos de controle desse processo enfraqueceram.

Pois bem, é diante desse entendimento que as ferramentas e oportunidades geradas na cibercultura (LEMOS, 2003) nos permite ousar dizer que vivemos um momento sem precedentes na História, no qual surge a possibilidade de se questionar o padrão adotado pelamass media ao longo do século 20: a de único pólo de emissão de informação. Os recém-chegados suportes midiáticos, muitos dos quais ao alcance das pessoas no seu cotidiano, estão reconfigurando os modelos até então vigentes e criando diálogos a partir das novas plataformas: vozes e discursos estão emergindo e gerando outras concepções, discursos, reflexões. E a arte não ficou de fora dessa revolução. Aliás, ela está se apropriando muito bem das oportunidades oferecidas pela tecnologia, especialmente a música, que tem se revolucionada contra as leis impostas pela ditadura do mercado.

Existir é estar na rede

Ora, podemos dizer que com a reconfiguração geral pela qual passa a sociedade com o advento das novas tecnologias de informação e comunicação, todos,a priori, passam a ter os mesmos poderes de criação e interação no espaço social de formação de opinião, deixando amass media de ser a única fonte formadora e controladora de subjetividades dentro da sociedade. O que acontece na atualidade é que o pólo de emissão de opiniões e discussões se estendeu até o cidadão, como sugeriu McLuhan (1996) em seu livroOs meios de comunicação como extensões do homem, e a própria escolha da informação, em princípio, também passa a ser um direito que pode ser exercido individualmente e criticamente por todos.

Neste novo modelo de mercado, no que se refere à música, é bem possível apontar como marco inicial deste tipo de discussão o álbumIn Rainbows dos ingleses do Radiohead [o discoIn Rainbows não se encontra mais à disposição paradowload, pelo menos no site da banda. No entanto, a página onde o disco foi disponibilizado ainda continua ativa (acesso em 15-07-2009 às 21:50). Para ouvir as canções do discoIn Rainbows, existem diversos sites na internet que disponibilizam, um deles é o próprio MySpace da banda (acesso em 15-07-2009 às 21:55), que no ano de 2007 foi disponibilizado comdownload gratuito no site da banda, onde fãs e demais interessados poderiam baixar todo o disco e pagar, caso desejassem, o valor que julgassem necessário. A originalidade e o sucesso da iniciativa foi tamanha que surpreendeu a todos – inclusive ao próprio Radiohead. É certo que se trata de uma banda em voga e com grande público desde o seu aparecimento nos anos 90, porém essa iniciativa não deixa de levantar uma série de questões e reflexões sobre o tema da veiculação e consumo da música na contemporaneidade. ‘Por causa desse trabalho, o Radiohead foi apontado como o grupo que melhor entendeu a mudança radical que a música sofre em tempo de internet’ [FLÁVIO JUNIOR, José. Revoluções por minuto. In: revistaBravo, edição 139, de março de 2009. São Paulo, Editora Abril. p.34-35. Citação: p. 34].

Também na Inglaterra, outra banda que chegou ao nosso conhecimento e que ganhou destaque e popularidade a partir do ‘boca-a-boca’ iniciado pela internet são os jovens do Arctic Monkeys. Eles começaram gravando CD´s demo e distribuíam esse material em shows para o público. Porém, como a oferta era pouca, por iniciativa do próprio público e sem que a banda soubesse, esses CD´s foram parar na rede e consequentemente foram baixados por outras tantas pessoas que em algum momento se interessaram pelo trabalho da banda. Em seguida, mais uma vez por iniciativa dos fãs, foi criado um perfil no MySpace onde se disponibilizou as músicas do Arctic Monkeys para quem quisesse ouvir [Para ouvir na íntegra o disco de estréia doArctic Monkeys, veiculado pela internet sem autorização da banda, ‘Whatever people say I am, thats whatI am not’, basta http://www.myspace.com/arcticmonkeys (acesso em 25-07-2009 às 10:45). A partir dessa divulgação massiva na internet, não só os amigos, mas centenas de pessoas já cantavam as letras nas apresentações do grupo. Desse momento em diante, a banda começou a fazer sucesso até chamar a atenção das rádios e da imprensa britânica, para aí sim gravar e veicular suas músicas, digamos, nos moldes tradicionais do mercado fonográfico.

Esses dois breves exemplos ilustram muito bem as inovações que estão acontecendo no cenário do mercado da música. Torna-se importante voltarmos nossa atenção para essa inversão que os novos suportes midiáticos disponibilizados pela internet estão causando dentro da indústria cultural, especialmente dentro da indústria da música. Suportes como os blogs, o YouTube, ospodcasts ou o MySpace, por exemplo, estão dando oportunidade a bandas e músicos de disponibilizarem seus trabalhos on-line de forma prática e sem custos e para todo o mundo. Aliás, é importante notar que essa superposição entre tecnologia e arte tornou possível partilhar de forma autônoma conteúdos também autônomos, o que leva qualquer pessoa que produza algum tipo de bem ou reflexão cultural a poder compartilhar sua produção de forma independente com milhares de pessoas – criando, portanto, um novo sistema de representação cultural, onde todos podem ter o poder e os meios de criação e divulgação/comercialização de suas respectivas obras.

Situação semelhante acontece no Brasil. Em julho de 2008, a revistaBravo publicou uma reportagem intitulada ‘Chega de saudade’, na qual os jornalistas Flávio Junior e Marcio Orsolini [FLÁVIO JUNIOR e ORSOLINI, Marcio. In: revistaBravo, edição 131, julho de 2008. São Paulo. Reportagem e entrevista. p. 88-97. Citação: p. 90] apontam uma nova geração de artistas que despontam como os grandes talentos da MPB atual. Contrariando muito do que se fala sobre a música brasileira na atualidade, diz a reportagem: ‘Há muito tempo a MPB não tinha um grupo tão talentoso de cantores, letristas, instrumentistas e compositores na faixa dos 20 e 30 anos.’ E continua: ‘e há muito tempo, também, não se via uma geração tão original – não apenas na música, mas também na maneira de criar e veicular sua arte. […] Afinados com os novos tempos, divulgam suas obras pelo MySpace.’ Ainda sobre as novas formas de veiculação e mistura de linguagens, nessa mesma reportagem, Nelson Motta faz um comentário referindo-se a uma nova cantora: ‘ […] Vai ser sucesso logo, logo. Dá uma olhada no YouTube…’

Diversos perfis da mesma pessoa

A reportagem daBravo, uma das principais revistas de arte e cultura do país, nos mostra que os processos de criação dos bens culturais, especialmente a música, passam por um momento de grande transformação – assim como aconteceu com a popularização dos LP´s nos anos 40 do século 20. Porém, agora a mudança é muito maior, pois o próprio produto cultural e seu modo de fruição passam a dialogar e a se transformar com e na contemporaneidade, visto que os bens simbólicos estão sendo reconfigurados pelos próprios suportes de veiculação, transformando-se em produtos resultantes do hibridismo, conforme apontam as idéias de Canclini (1998).

Nomes como os dos músicos Nina Becker (acesso em 25-07-2009 às 10:02; visitas até 25-07-2009: 99.730 acessos), Romulo Fróes (acesso em 25-07-2009 às 10:06; visitas até 25-07-2009: 84.833 acessos), Jonas Sá (acesso em 25-07-2009 às 14:46), Curumin (acesso em 25-07-2009 às 10:12; visitas até 25-07-2009: 341.167 acessos).

Para fazerdownload dos dois CD’s de Curumin, clique aqui (acesso em 25-07-2009 às 14:43) e a banda Cidadão Instigado (acesso em 25-07-2009 às 10:13; visitas até 25-07-2009: 112.706 acessos), para fecharmos nosso universo entre Rio de Janeiro e São Paulo, estão ganhando espaço dentro do cenário musical brasileiro não só pela qualidade e inovação estética de suas composições, que vem recebendo incontáveis elogios da crítica especializada, mas também pela forma de veiculação e relação que possuem com o público. Conhecedores e usuários das novas plataformas de mídia surgidas nos últimos anos, quase todos possuem um perfil na rede social MySpace – espaço que se tornou referência entre músicos por abrigar arquivos em formato MP3. E não só os novos músicos estão usando esses recursos, artistas consagrados também entraram nessa rede: Caetano Veloso e Marisa Monte [por se tratar de artistas da grande mídia, há vários perfis dos dois músicos criados por seus respectivos fãs, uma vez que oMySpace permite a existência de diversos perfis da mesma pessoa], por exemplo.

Autonomia frente à indústria fonográfica

A história de cada um dos novos músicos citados acima é parecida com a dos ingleses do Arctic Monkeys. O que vale ressaltar aqui é a versatilidade e a inovação no modo de divulgação e fruição dos respectivos trabalhos no Brasil, pois muitas vezes o que acontece é uma inversão da antiga cadeia produtiva da música, onde existiam etapas definidas a serem cumpridas, que resumidamente poderiam ser: primeiro lançar um disco, depois chegar às rádios e/ou TV e finalmente alcançar a popularidade e a venda. Em outras palavras, o artista ficava sem meios para produção do seu trabalho e dependia única e exclusivamente de todo o aparato formado pela indústria da mídia para conseguir se lançar na carreira. O século 21, por sua vez, abre a possibilidade de uma independência do músico, na qual quase todas as etapas podem ser cumpridas de forma autônoma. Como o caso daquele que talvez seja o primeiro grande fenômeno massivo da internet no Brasil: a paulistana Mallu Magalhães. A jovem de apenas 16 anos começou postando suas composições no MySpace e com a ajuda e a divulgação dos seus amigos, também pela internet, ganhou projeção nacional repentinamente, mais uma vez confirmando a célebre frase de Andy Warhol: ‘no futuro todo mundo terá seus quinze minutos de fama’. A menina já foi capa de dezenas revistas, conseguiu gravadora e lançou seu primeiro disco, além de estar sempre com a agenda compromissada de shows pelo Brasil. Seu perfil no MySpace (acesso em 25-07-2009 às 18:07) conta hoje com quase 4 milhões de visitas. Porém, há quem diga que a moça permanecerá no circuito, especialmente por atingir um público maiscool. E seguindo a trajetória de Mallu, o último grande estouro da internet parece ser a cantora popular Sthefany (acesso em 25-07-2009 às 18:09), piauiense que aos 17 anos se lançou com um vídeo caseiro postado no YouTube e que hoje contabiliza quase 2 milhões de exibições. Após a repercussão, a jovem já participou de programas de auditório na TV aberta e faz uma média de 25 shows por mês, principalmente no norte e nordeste do país.

Dentro desse contexto, especialmente fora do eixo Rio-São Paulo, existem algumas peculiaridades à brasileira que merecem ser brevemente comentadas: no norte e nordeste do país temos exemplos de bandas que vivem (muito bem, diga-se de passagem) de forma completamente independente: algumas lançam-se pela internet, ganham popularidade através das redes sociais e dos shows e depois vendem seus próprios discos também produzidos de forma autônoma e independente. Um exemplo é a banda popular Calypso, que entre outras coisas chegou a piratear seus próprios discos para vender em shows – antes de se tornarem de fato independentes, já que hoje eles possuem inclusive um selo próprio. Em Goiás, a também popular dupla sertaneja Bruno & Marrone percorreu um caminho parecido: eles afirmam que se tornaram conhecidos a partir da gravação de um disco independente que foi pirateado pelos fãs e comerciantes da cidade onde moravam, chegando dessa forma, sem o auxílio de qualquer gravadora, até o grande público. A dupla acrescenta ainda que foi beneficiada pela pirataria, sem a qual não atingiria o sucesso. Contradições e interpretações à parte, o que nos interessa neste ponto é perceber a autonomia destes artistas frente à indústria fonográfica, independentemente dos meios que tenham usado, e de como essas possibilidades se estenderam também aos artistas populares.

Mudanças culturais e comportamentais

Essas mudanças e fenômenos estão inclusive levando algumas gravadoras a pressionar seus artistas no sentido de ter uma participação nos contratos de turnês, passando também a ganhar em cima da bilheteria dos shows, uma vez que a venda de CD´s caiu vertiginosamente com oboom do consumo de música pela internet. Dessa forma e diante da atual realidade da cultura digital (abstrata) dos discos, podemos vislumbrar um futuro onde talvez o artista viverá cada vez mais de seus shows e a internet servirá cada vez mais como principal meio de divulgação de seus trabalhos, principalmente se levarmos em consideração os artistas populares e/ou independentes.

No entanto, o que chama nossa atenção é perceber a importância da tessitura da rede social da internet para o aparecimento e o surgimento dos novos músicos, e os números podem nos confirmar isso [ver também as notas de nº: 8, 9, 10 e 11]. A febre que surgiu na Europa e Estados Unidos já chegou até aqui e se espalha de forma endêmica entre os músicos – e também entre os aspirantes a celebridades. O importante é sabermos filtrar a massa de informação disponibilizada a todos gratuitamente, lembrando sempre da máxima popular que diz que ‘nem tudo que cai na rede é peixe’! Afinal, como já nos apontou Adorno e Horkheimer [op. cit.], muito do que surge e julgamos ser inovador pode ser o resultado de um grande e forçoso direcionamento da indústria cultural. Contudo, também vale lembrar o que nos diz André Lemos [op. cit. p. 9]: ‘As diversas manifestações socioculturais contemporâneas mostram que o que está em jogo como o excesso de informação nada mais é do que a emergência de vozes e discursos anteriormente reprimidos pela edição da informação pelamass media.’

De todo modo, o que vale aqui é atentar para a quebra do monopólio das indústrias fonográficas e para as importantes mudanças culturais e comportamentais que a internet está promovendo, o que provém, em primeira instância, do desenvolvimento dos meios comunicacionais e das possibilidades cada vez maiores de criação independente num mercado cada vez mais interligado.

Reflexos da nova configuração

Somente na transição do século 20 para o 21, é que começamos a perceber mais claramente a transformação por que passaria a indústria fonográfica. Mais precisamente em 1999, quando apareceu na internet um programa pioneiro chamado Napster – o primeiro programa massivo para compartilhamento de música no formato MP3. Seu funcionamento era ponto-a-ponto: cada usuário baixava as músicas diretamente do computador de outro usuário, ao mesmo tempo em que disponibilizava suas músicas para quem estivesse on-line. Dessa forma surgiu uma grande rede global com milhares de músicas disponíveis que poderiam ser trocadas a custo zero. Estima-se que 8 milhões de usuários em todo o mundo trocavam um volume de 20 milhões de canções por dia. Em 2001, porém, o Napster, que havia se tornado uma empresa no ano anterior, acabou fechando, pois não resistiu às ações judiciais das corporações fonográficas e também de músicos que não admitiam a troca de arquivos de áudio que eram protegidos por lei, ambos alegando a promoção da pirataria.

No entanto, com o passar dos últimos oito anos, as discussões avançaram e hoje já se fala em direito à livre circulação da informação e da cultura: o compartilhamento de arquivos pela internet para uso pessoal, sem a finalidade do lucro, passou a ser defendido como um direito do cidadão, já que o acesso à informação não pode ficar restrita a uma minoria. E como numa tendência que vem crescendo, surgem múltiplas propostas e reflexões em meios alternativos acerca desse assunto: softwares livres, criação artística compartilhada através da internet, blogs de dicas e de comportamentos que inicialmente se tornam referências para os internautas e depois se expandem para o cotidiano. Mas talvez uma das principais correntes seja o conceito decopyleft – um trocadilho com ocopyright e que vai justamente contra as restrições dos direitos autorais e de propriedade. Os defensores da idéia docopyleft alegam que um trabalho (seja artístico ou técnico) não pode ficar emoldurado como inicialmente desejou seu criador ou os detentores do direito: todo usuário pode ter a liberdade de contribuir para melhorar ou apenas modificar a obra de acordo com suas necessidades, num processo continuado. Dessa forma, o usuário passa também a contribuir na construção da obra e deixa de ser passivo no que diz respeito à organicidade do produto. Na música já existem artistas que se utilizam desse processo onde o resultado final pode ser uma incógnita, inclusive para os próprios músicos que iniciam o processo, já que deixam de ter controle sobre a forma final da obra. A cantora islandesa Björk é umas das pessoas que tem experimentado essa forma de composição.

‘Difundir o prazer de ouvir’

É certo que essas mudanças de posicionamento e novas formas de abordagem estão reconfigurando a indústria fonográfica e as possibilidades de se consumir música, além de estar alterando a própria indústria e também o mercado como um todo, a partir de uma revolução iniciada na internet. Uma prova disso é que se atentarmos para os recentes aparelhos de som que estão sendo fabricados, sejam domésticos ou de automóveis, percebemos que muitos já saem equipados com entradas para conexão USB e MP3, suportando diversos formatos de mídias. O mesmo acontece com as TV´s e com os aparelhos de DVD, o que pode ser entendido como um efeito cascata, ainda que legalmente a veiculação de música pela internet seja proibida. De qualquer modo, a própria indústria já está indicando aceitação e adaptação a essas mudanças iniciadas de forma independente. Seguindo essa mesma postura, algumas gravadoras já vendem músicas avulsas (e discos na íntegra) pela internet a um preço acessível, acenando talvez a um novo tempo de comércio da música, onde o usuário poderá comprar apenas as músicas que desejar – assim como acontecia até os anos 1940, onde a música era comercializada uma a uma em compactos ou singles.

Outras mudanças de posicionamento também podem ser vistas em alguns blogs de música, a exemplo do popular ‘Um que tenha‘ (acesso em 08-10-2009 às 21:44), que conta aproximadamente 3.000 links de discos de música brasileira – se tornando uma verdadeira ‘digitalteca’ da MPB – e quase 2.000 seguidores (até julho do corrente ano) pelo Google Friend Connect [rede social desenvolvida pelo Google que tem como principal objetivo informar aos usuários registrados no blog as novas atualizações diretamente em suas respectivas páginas ou caixas de e-mail] e que parece defender a idéia do acesso livre à (in)formação. O blog traz a seguinte conduta:

‘O Um Que Tenha tem caráter estritamente cultural. Nosso propósito é divulgar a música e os artistas brasileiros e difundir o prazer de ouvi-los, sem que isso resulte em ônus ou benefício financeiro direto ou indireto para ninguém.’

Tabu para as gravadoras

É possível que nem todos pensem e ajam da mesma forma, portanto, se, de algum modo, alguém sentir-se ofendido ou prejudicado com alguma publicação, encaminhe-nos um e-mail que a sua ponderação será avaliada e, se for o caso, a postagem será imediatamente retirada.

[…] Aos que baixarem os arquivos, se gostarem do que ouviram, sugiro que adquiram os álbuns em lojas ou sites especializados. Caso estejam fora de catálogo, sugiro que recorram aos bons e velhos sebos.

Assim como sugere o ‘Um que tenha’, o músico Paulinho Moska já disse abertamente em entrevistas que se utiliza dos arquivos de música disponibilizados pela internet, mas com o objetivo de conhecer ou entrar em contato com algum novo artista, e quando gosta do que ouve não hesita em ir até uma loja (ou entrar num outro site!) e comprar o CD. Posturas desse tipo já não são raras de se ver, pois é incrível como o desaparecimento físico, primeiro do LP e depois do CD, está gerando nichos consumidores do produto – algo como adquirir uma raridade. Em Londres e nos Estados Unidos já existem lojas que estão indo muito mais atrás e se especializando em vendas de LP´s. No Brasil, os LP´s normalmente podem ser encontrados nos sebos das grandes capitais. E como não poderia deixar de acontecer, os antigos toca-discos também estão virando objetos cobiçados, com lojas especializadas e um número considerável de seguidores. Também é bom lembrarmos que em tempos dedownload, a qualidade sonora dos CD´s (e de alguns LP´s) ainda continua muito maior que a música disponibilizada pela internet – o que faz com que muita gente sinta a necessidade de possuir o produto.

Mas mesmo diante das mudanças de posicionamento, também é fato que as discussões e brigas judiciais até agora não pararam, por mais que essa seja uma luta aparentemente perdida inclusive para as grandes gravadoras. O que aconteceu com o Napster continua ainda hoje gerando polêmicas e disputas de interesses em todo o mundo que parecem não ter fim. Embora as formas alternativas de divulgação tenham se alterado e se tornado habituais, a veiculação da música pela internet ainda continua sendo um tabu para as gravadoras e para alguns artistas, a ponto de no Brasil, um dos blogs mais visitados e conhecidos pelos internautas, o ‘Som Barato’ [embora o conteúdo não esteja no ar, o endereço do blog ainda continua ativo (acesso em 23-07-2009 às 20:19), que chegou a ter 5 milhões de acessos contabilizados, ser fechado. As razões apontadas pelos ex-usuários do blog vão desde uma ação judicial iniciada por uma gravadora brasileira até a autuação pela lei de direitos autorais dos Estados Unidos – lugar de hospedagem do blog.

Considerações finais

Conforme apontado anteriormente, as mudanças provocadas pelo advento do mundo digital estão reconfigurando a indústria cultural e a própria sociedade. O atual estágio de remodelamento social, pautado muitas vezes na massificação a partir da popularização dos diversos meios de comunicação e de produção em sobreposição com a tecnologia, está gerando a possibilidade de intervenção individual e subjetiva no que diz respeito à interação social. O cidadão pode ter de fato uma liberdade de escolha. É bem possível que estejamos passando justamente pelo meio de uma transição, onde a manipulação massiva típica do século 20 pode estar dando espaço para a independência que o século 21 está tendo a chance de oferecer, sobretudo pautado nas potencialidades da tecnologia e do desenvolvimento dos meios de comunicação de massa com acesso irrestrito.

Ainda que a maior parte da população não tenha acesso a essa extensão do mundo social, a massificação e a popularização dos próprios meios de inserção na rede estão gerando algumas possibilidades de interação social e cidadania. Mesmo nas comunidades carentes existem essas perspectivas: a Favela da Rocinha conta hoje aproximadamente 100lan houses, a de Manguinhos 40; esses números não deixam dúvida quanto ao crescente acesso da população aosmultimeios disponibilizados pela internet. Esse tipo de interação pode garantir a sobrevivência cultural e social de muitos indivíduos e localidades. Não se trata apenas da inclusão digital dos menos favorecidos, trata-se antes de uma inclusão do indivíduo no século 21 e no mundo contemporâneo, visto a abrangência das mudanças ocorridas nos últimos anos.

A presença daindústria cultural, controladora das necessidades e ofertas, tal como apontou Adorno e Horkheimer [op. cit.], talvez esteja presente justamente nessa necessidade que todo cidadão tem hoje em se tornar um ‘cidadão digital’ ao mesmo tempo em que as ofertas para inserção nesse meio estão chegando ao alcance de todos. Todavia, em consonância com essa possível manipulação, vem também a extensão de todo o mundo e, consequentemente, as portas de entrada para este século que se inicia.

O importante nesse contexto é observarmos que como apontou McLuhan [op. cit.], as mudanças que estão ocorrendo com o desenvolvimento da internet e da tecnologia, enquanto meios de comunicação, estão não só introduzindo novos hábitos, percepções e dinamizando a vida, como também estão transformando o transmissor, o receptor e a própria mensagem, gerando uma interdependência entre os homens. Diz McLuhan que a mudança dos grupos sociais e a formação de novas comunidades acontecem com o aumento da velocidade da informação, já que historicamente a aceitação de um novo sistema só se dá quando há aceleração nos processos e dinamização da sociedade, que nesse momento parece caminhar num sentido de reestruturação e reorganização dos modelos que predominaram no século 20. No Brasil, aindústria cultural ainda continua forte e reinando, sem dúvida, no entanto, já podemos ouvir outras vozes e enxergar outras possibilidades que não as fabricadas somente pelamass media.

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Produtor cultural e mestrando em Ciência da Arte pelo PPGCA/UFF, Rio de Janeiro, RJ

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