Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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CADERNO DA CIDADANIA >

A justificativa conspiratória e o caso do Iraque

Por Eugênio Bucci em 01/10/2008 na edição 505

Entre todas, a pior justificativa para a criação ou o fortalecimento de instituições de comunicação pública ou de ações governamentais de comunicação é a de natureza conspiratória. Em síntese, ela consiste em afirmar que a comunicação social é uma guerra permanente. Pior: é um prolongamento da guerra da verdade. Segundo seus fanáticos, os jornais e as emissoras comerciais, se deixados livres, constituem uma usina de distorção dos fatos – contra o governo, evidentemente – e que, contra isso, o único jeito é o governo montar um aparato para desbaratar as mentiras e entrar na guerra da comunicação. Esse aparato estatal pode ser escancarado ou disfarçado; o fundamental é que esteja sob controle das autoridades. Só por meio dele o governo ganhará a opinião pública.


Atenção: o argumento resumido acima não é uma exclusividade brasileira e muito menos uma particularidade do nosso tempo. Trata-se de um lugar-comum da cultura política: aparece em regimes de esquerda e de direita, em tempos diversos, com mais ou menos sucesso aqui e ali. No autoritarismo, essa solução tende a ser mais visível, mas também em sociedades em que vigem os mecanismos democráticos ela pode acontecer. Às vezes parcialmente, como, de modo comprovado, verificou-se no período que antecedeu a invasão do Iraque.


Na verdade, as ações de comunicação levadas a cabo pelo governo americano tinham começado um pouco antes, logo após os atentados de 11 de Setembro. Eram ações claramente inspiradas por teorias conspiratórias, que levaram a manipulações intencionais inomináveis – que, depois, ainda bem, foram denunciadas e esclarecidas. Eu já tratei do assunto em um artigo publicado no livro Civilização e Barbárie, organizado por Adauto Novaes (Companhia das Letras, 2004), no ensaio ‘O olhar mutilado’. Aqui, faço uma condensação do meu argumento. Reproduzo, para isso, alguns trechos daquele ensaio.


O caso Afeganistão-Iraque


Nas semanas que se seguiram aos atentados, foi bastante debatida a tentativa do governo Bush de ‘enquadrar’ as redes de televisão do país na cobertura da Guerra do Afeganistão. Havia orientações explícitas de que não fossem transmitidas ao vivo as entrevistas com os líderes do Taleban, a milícia que governava o Afeganistão, onde estava refugiado Osama Bin Laden. Nesse caso, o governo agiu para capturar e conduzir a cobertura das redes privadas. A ação governamental, então, transformou as redes privadas em tentáculos dos seus supostos interesses de Estado. As redes de TV americanas, privadas, ofereceram uma cobertura de inclinações mais governistas do que as redes públicas da BBC de Londres, cujo governo, é bom lembrar, também se envolveu nas ações militares que se seguiriam. O fato merece nota: a utopia liberal da imprensa crítica e independente vinha por terra, pois a idéia liberal de que a imprensa livre é mais eficaz e mais vigilante em relação à máquina do Estado quando organizada em uma empresa privada se mostrou sem validade, deixou de valer, ao menos temporariamente, após o 11 de Setembro.


Em 19 de fevereiro de 2002, The New York Times informou que o Pentágono tramava disparar saraivadas de mentiras contra a opinião pública mundial. ‘Pentágono planeja plantar notícias falsas na mídia internacional’, dizia a manchete publicada no ‘UOL – Mídia Global’. O texto explicava que o objetivo da nova estratégia era combater a propaganda do Taleban e influenciar governos e populações de outros países [ver aqui; a notícia repercutiu no dia seguinte em jornais brasileiros, como a Folha de S.Paulo, que publicou reportagem de Márcio Aith intitulada ‘EUA estudam divulgar informações falsas’]. A idéia, gerada no interior do Escritório de Influência Estratégica (órgão criado pelo Pentágono logo após os atentados), suscitou tantos protestos que logo foi abortada. Sofreu resistência do próprio Departamento de Estado. Donald Rumsfeld, secretário da Defesa dos EUA, mandaria fechar o Escritório ainda em fevereiro.


Mesmo assim, o projeto de usar relatos e veículos jornalísticos de forma articulada para, em dueto com o entretenimento, formatar os humores do público jamais seria abandonado. Ao contrário, as interferências do governo americano sobre a mídia mundial só recrudesceram naquele período. Observadores de alta credibilidade lançaram o alerta. No dia 30 de novembro de 2002, um artigo de Paul Krugman publicado no mesmo The New York Times alertava, logo no título: ‘Conflitos de interesses podem ameaçar a democracia americana’.


Krugman começava citando uma declaração do ex-vice-presidente Al Gore, segundo o qual, ‘hoje em dia, a mídia está meio estranha no que diz respeito à política e algumas vozes institucionais importantes se tornaram, falando francamente, parte essencial do Partido Republicano’. A seguir, o articulista acusava a cobertura da Fox News de ambigüidade e relacionava a isso o fato de que o presidente da rede, Roger Ailes, tem assessorado o governo Bush. Ele prosseguia: ‘Já tivemos alguns casos peculiares de notícias que não foram divulgadas. Por exemplo, a manifestação de 100.000 pessoas contra a guerra [ao Iraque], em Washington, no mês passado – um fato importante, qualquer que seja a sua opinião a respeito –, foi quase ignorada por alguns veículos de peso’.


Em 17 de fevereiro de 2002, uma reportagem publicada na Folha de S.Paulo dava conta de que os Estados Unidos voltavam à carga na guerra de informações: ‘Força dos EUA poderá agir em países aliados – Departamento da Defesa estuda possibilidade de usar militares para influenciar opinião pública estrangeira’ [Folha de S.Paulo, editoria ‘Mundo’, página A 13, 17/12/2002]. Segundo informava o texto, as forças americanas seriam usadas em ‘operações secretas de propaganda política em países aliados ou neutros’. Novamente a idéia de impor, mediante recursos de força, dados falsos como se fossem verdadeiros suscitava resistências no interior do próprio Departamento de Estado, mas, com idas e vindas, as ações do governo para controlar a opinião pública se tornavam mais fortes.


A renúncia que marcou


Em 6 de março de 2003, tivemos outra prova disso. Uma notícia perturbadora – ao menos para aqueles que se preocupam com a credibilidade e a correção das informações veiculadas pelas instituições jornalísticas do mundo democrático – chegou ao público brasileiro por meio do diário O Estado de S.Paulo. ‘Renúncia contra a manipulação’ foi o título de um artigo do qual reproduzo alguns trechos a seguir:




‘Veterano de 20 anos do serviço diplomático dos EUA, John Brady Kiesling – que era conselheiro político das embaixadas americanas – renunciou na semana passada, denunciando as ações de manipulação da opinião pública e a distorção de dados de inteligência, por parte do governo americano, para justificar uma guerra contra o Iraque. A seguir, a íntegra da carta de renúncia de Kiesling enviada ao secretário de Estado, Colin Powell:


`Caro sr. secretário:


Estou lhe escrevendo para apresentar minha renúncia ao Serviço de Relações Exteriores dos EUA e ao meu cargo de consultor político da embaixada dos EUA em Atenas. Faço isso com dor no coração. Minha criação incluiu a obrigação de fazer algo por meu país. Servir à diplomacia dos EUA era um sonho. Fui pago para aprender idiomas e conhecer culturas estrangeiras, relacionar-me com diplomatas, políticos, acadêmicos e jornalistas e convencê-los de que os interesses deles e dos EUA eram fundamentalmente coincidentes. Minha crença em meu país e seus valores foi a mais poderosa arma de meu arsenal diplomático.


Foi inevitável que 20 anos a serviço no Departamento de Estado me tornassem menos ingênuo e mais cético em relação aos motivos estreitos e egoístas que às vezes moldaram nossas políticas. A natureza humana é o que é, e fui recompensado e promovido por entendê-la. Mas, até este governo, foi possível acreditar que, defendendo as políticas do meu presidente, eu estava também defendendo os interesses do povo americano e do mundo. Agora não acredito mais nisso. As políticas que agora nos pedem para adotar são incompatíveis não apenas com os valores americanos, mas também com os interesses americanos. Nossa insistência numa guerra contra o Iraque está nos levando a malbaratar a legitimidade internacional que tem sido a mais poderosa arma dos EUA, tanto de ataque quanto de defesa, desde a época de Woodrow Wilson.


(…)


Desde a Guerra do Vietnã, não víamos tal distorção do serviço de informações, tal manipulação sistemática da opinião pública americana. A tragédia de 11 de setembro nos deixou mais fortes do que antes, agregando em torno de nós uma vasta coalizão internacional para cooperar, pela primeira vez de uma forma sistemática, contra a ameaça do terrorismo. Mas em vez de colher os louros desses sucessos e capitalizar em cima deles, o governo optou por fazer do terrorismo uma ferramenta política doméstica, recrutando uma Al-Qaeda dispersa e em grande parte derrotada como seu aliado burocrático. Nós espalhamos um terror e uma confusão terríveis na mente da população, arbitrariamente ligando ao Iraque problemas de terrorismo com os quais o país não está relacionado.


(…)


Os fatos de 11 de setembro fizeram menos para danificar o tecido social americano do que parecemos determinados a fazer nós mesmos. Seria a Rússia dos Romanovs nosso verdadeiro modelo, um império egoísta e supersticioso trilhando a trajetória da autodestruição em nome de um status quo condenado? Devíamos perguntar-nos por que não temos conseguido persuadir o mundo de que uma guerra com o Iraque é necessária. Nos últimos dois anos, muito fizemos para convencer nossos parceiros mundiais que os interesses estreitos e mercenários dos EUA suplantam os valores acalentados por nossos parceiros. Mesmo onde nossos objetivos não estavam em questão, nossa congruência era motivo de contenda.


O modelo do Afeganistão é de pouco conforto para os aliados que estão se perguntando sobre que bases planejamos reconstruir o Oriente Médio.


Será que ficamos cegos a nossas próprias recomendações – como a Rússia é cega em relação à Chechênia, como Israel é cego em relação aos territórios ocupados – de que o poder militar avassalador não é a resposta para o terrorismo? Depois que os frangalhos do Iraque pós-guerra se juntarem aos de Grozny e Ramallah, até na Micronésia será difícil encontrar alguém com coragem para nos seguir.


(…)


Sr. secretário, tenho um enorme respeito por seu caráter e habilidade. O sr. tem mantido mais credibilidade internacional para nós do que nossa política merece, e resgatado algo positivo dos excessos de um governo ideológico e a serviço de si próprio. Mas sua lealdade para com o presidente vai longe demais. Estamos solapando além do limite um sistema internacional que construímos com empenho, uma rede de leis, tratados, organizações e valores compartilhados que estabelecem limites sobre nossos inimigos, muito mais efetivamente do que restringem a capacidade dos EUA de defender seus interesses.


Estou renunciando porque tentei conciliar minha consciência com minha capacidade para representar o atual governo dos EUA e fracassei. Tenho confiança em que nosso processo democrático seja, em última análise, autocorretivo, e espero que, de fora, possa contribuir um pouco para a formulação de políticas que melhor sirvam à segurança e à prosperidade do povo americano e do mundo que compartilhamos.´’ [O Estado de S. Paulo, 6/3/2003]


Mais uma saraivada de manipulações


Iniciada a guerra contra o Iraque, em março, novos ataques vindos da cúpula do Estado norte-americano alvejavam a liberdade de imprensa. Dessa vez, o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, em pessoa, ‘recomendou que as TVs dos EUA não mostrassem as imagens de prisioneiros americanos sendo interrogados por iraquianos e de corpos de soldados em unidade militar’. Rumsfeld afirmou que ‘é ilegal apresentar prisioneiros em situação humilhante’ [Folha de S. Paulo, 24/3/2003, primeira página]. A guerra de informações intensificou-se a um tal grau que ficou técnica e eticamente impossível, a qualquer um que buscasse informações minimamente verificáveis e confiáveis, saber em que ou em quem acreditar.


Em 23 de abril de 2003, jornais do mundo todo veicularam uma denúncia de extrema gravidade. Hans Blix, o chefe dos inspetores de armas da ONU, havia questionado, em entrevista à BBC, a veracidade dos relatórios de inteligência usados pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha para justificar a invasão do Iraque. ‘Acho que um dos fatores perturbadores é que as potências tenham apoiado seus argumentos em informações que hoje parecem frágeis’, disse Blix. ‘Chama a atenção que nada tenha sido encontrado.’ [‘Blix: relatório contra o Iraque era falso’, O Globo, primeira página e página 23, de 23/4/ 2003] O chefe dos inspetores afirmou que boa parte dos documentos em que Washington e Londres ‘se basearam para tentar convencer a comunidade internacional de que o conflito era justo não passava de falsificação’. [‘Farsas da Guerra’, editorial da Folha de S.Paulo, 23/4/2003, página A 2]


O que essa experiência ensina?


A sucessão de agressões ao direito à informação do público promovida direta ou indiretamente por representantes do governo americano é uma lição fundamental de comunicação pública. Uma lição de ponta-cabeça, invertida, que mostra exatamente como não se deve agir: mas é uma lição que não pode ser esquecida. Para muitos, as estratégias pelas quais o poder se dirige à sociedade pode incluir manobras inconfessáveis – a comunicação pública poderia, assim, beneficiar-se de artimanhas secretas –, desde que fins maiores pareçam justificá-la. O resultado, como se vê nesse caso do Iraque, foi apenas o desastre, pelo qual, hoje, cidadãos do mundo inteiro pagam um preço alto demais.


Aquela estratégia de comunicação nasceu da concepção de que o público deve ser tratado como massa de manobra e que ao poder tudo é permitido nesse campo. No final das contas, malogrou. Por menos que admitam os fanáticos das conspirações, a democracia ainda é mais forte que os aparelhamentos. O governo Bush colhe um desgaste sem igual por aquilo que hoje é mundialmente reconhecido como uma grande trapalhada. Uma trapalhada homérica. A lição que o episódio nos deixa é de que esse tipo de feitiço, ainda que alcance um êxito momentâneo, fracassa no longo prazo. Não obstante, essa mesma mentalidade ainda conta com adeptos por toda parte. Inclusive no Brasil.


Tratarei disso no próximo artigo.

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