Segunda-feira, 24 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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CADERNO DA CIDADANIA >

A mídia é burra? E você?

Por Emanuelle Najjar em 23/02/2009 na edição 526

Não sei se estou falando alguma novidade, mas temos no Brasil uma mídia mesquinha e burra.

Pode ser estranho alguém formada em Jornalismo dizer isso, mas é simplesmente a verdade. Talvez não apenas no Brasil como em outros lugares, mas cito nosso país por uma questão de familiaridade. Posso também estar cometendo uma heresia ao afirmar que o público sofre do mesmo mal. Só não se sabe se o público age assim em conseqüência da mídia ou o contrário.

Não é de hoje que o espectador é tratado como tal. Consumimos ‘diversão’ e futilidade como se fossem as melhores coisas da vida. Quando falo em diversão, não estou fazendo ‘ode contra o lazer’. Afinal, sou humana e sei o quanto isso é importante, mas há coisas que simplesmente fogem ao entendimento de qualquer indivíduo com o mínimo de consciência – coisas do tipo funk, programas de fofoca com apresentadores de voz estridente, novelas sem trama, Big Brother Brasil e jornalismo apelativo.

Dita moda, vicia, forma valores

Basta ligar a TV e em poucos segundos teremos um desfile de óculos – que curiosamente dão mais destaque ao traseiro da modelo –, um programa de fofocas mostrando tudo sobre a vida de alguma pseudo-celebridade que mostra o traseiro, reality-shows com participantes semi-analfabetos que só fazem gritar Urúúú (…) e exibir o traseiro, além de algum programa jornalístico esgotando qualquer desgraça da vida alheia e empolgantes e inesquecíveis narrações de enterro (?!).

De tanto ler, observar e conversar com as pessoas, vamos descobrindo um cenário quase escabroso. Temos jovens que mal se importam com aquilo que acontece ao seu lado e só pensam em internet, games, roupas da moda, shopping e compras. Vemos meninas que, na ânsia de se mostrarem mulheres, praticamente se entregam a qualquer um, engravidando cada vez mais cedo. Não por falta de informação, e sim, por descaso. Vemos rapazes de classe média alta cometendo barbaridades a troco de diversão e de se exibir para a turma – e cujos pais se mostram apenas permissivos e omissos.

Mídia dita moda, vicia público, forma valores, cria e muda formas de pensamento, constrói celebridades tão rápido quanto as destrói. Constrói, desconstrói e mostra, à sua maneira, aquilo que querem que vejamos… Ou seria aquilo que queremos ver?

Melhor rir para não chorar

Nossa mídia nos subestima. Nossa opinião pública é burra, acomodada, desconectada da realidade. Somos permissivos, desestimulados, conformados com todo o lixo que consumimos e colhemos aquilo que plantamos. Preferimos ler apenas a programação da TV, os resumos da novela, as páginas de fofoca, o resultado do campeonato de futebol dos times da nonagésima divisão e saber qual será a próxima integrante do BBB que vai posar nua. Não nos importamos com aquilo que acontece ao nosso redor, ou como os governos estão usando o dinheiro público.

Preferimos posar de engajados, informados e conscientes para parecer na moda, quando na verdade pouco nos preocupamos com qualquer outra coisa que não seja o nosso próprio umbigo.

Talvez não seja tão falsa assim a idéia de que toda unanimidade é burra. Pelo menos não quando público e mídia conseguem alienar-se e serem alienados, num ciclo vicioso e tragicômico. É melhor rir do absurdo para não chorar.

******

Jornalista, São José do Barreiro, SP

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