Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº930

CADERNO DA CIDADANIA > Leituras do "El País"

A narrativa do estranhamento contra a banalização da violência

Por Afonso Caramano em 06/10/2015 na edição 871

O conceito de estranhamento (ostraniene), elaborado pelo crítico literário russo Viktor Chklovski (1893-1984), relaciona-se a um efeito de distanciamento do modo comum, capaz de romper com a percepção automatizada do cotidiano, levando a uma nova configuração de percepções, de entendimentos, que no processo da arte seria o de singularização dos objetos, cuja finalidade é dar uma sensação do objeto como visão, e não como reconhecimento.

A intenção de um texto concebido nesses moldes não é outra senão a de produzir um efeito capaz de desfazer a automatização perceptiva (Vaz) – um recurso literário de grande eficácia. Talvez se pudesse perguntar se também um efeito utilizado pelo jornalismo. Sabe-se que o jornalismo dispõe de um arsenal de recursos, inclusive narrativos, para elaborar as percepções, numa construção da realidade retratada, sem perder de vista a objetividade e os próprios preceitos, tendo compromisso com o factual.

Isso não quer dizer que não se possa lançar mão de tal mecanismo – que foi o que parece ter feito Eliane Brum, com o artigo “Eca do B”, no El País Brasil, de 28/09/2015 , embora não propriamente com um propósito literário, senão para provocar um deslocamento perceptivo, em suas próprias palavras “produzir estranhamento e incômodo” em relação à banalização e circulação de um discurso de ódio na prática cotidiana de nosso país.

Tanto é assim que, nessa tentativa de dar mais que visibilidade a isso, buscando romper com o estranhamento de tal discurso e percepção, a autora, na segunda parte do artigo, tem de nomeá-lo, anunciando a ironia empregada, assim como a concepção do texto (da primeira parte) a partir de fatos reais e de seu desdobramento nos comentários postados nos sites e redes sociais, o que não deixa de ser estarrecedor por reiterar o quanto a radicalização, a violência e o ódio impregnam as relações “nada cordiais” de nossa vida social.

Educação para a cidadania

O grau de adesão a esse fluxo discursivo é variável – não desculpável, porém – e demonstra o automatismo dessa escolha, de uma incapacidade de empatia, do cada um por si e o vale-tudo geral. E atinge todos os segmentos sociais, claro que vitimando (e direcionado) muito mais a uns que outros, não importando o nível educacional, o que sempre fica visível em tais manifestações e nas de impeachment da presidente Dilma Rousseff, por exemplo, com todo tipo de cartazes e faixas que já conhecemos.

Isso nos leva a concordar com um argumento de Hannah Arendt, quando diz que “os níveis de violência em uma sociedade possivelmente diminuiriam de acordo com a força do senso de vida pública. Muitos fatores contribuiriam para definir a viabilidade dessa força: comunicação transparente, representação política adequada, economia estável, educação aberta, cidadania implementada, debate permanente, entre outros” (Ginzburg, 2013, p.88, 89).

A questão é também de educação para a cidadania (e talvez de humanização) – com a capacidade de sair dos cercadinhos do senso comum, do autoritarismo das opiniões formadas no automatismo das percepções. Assustador se, além dessa leniência com a duplicidade da vida e das leis em sociedade (as leis escritas e as não escritas, mas que validadas no uso cotidiano), nem o estranhamento (que tem de ser anunciado e explicado) já não cause incômodo ou “estranhamento”. Espero que não tenhamos chegado a tanto.

Referências

Vaz, Valteir, Em defesa do insólito

Victor Chklóvski e Guimarães Rosa. In http://www.academia.edu/7006285/Em_Defesa_do_Ins%C3%B3lito_Viktor_Chkl%C3%B3vski_e_Guimar%C3%A3es_Rosa

Ginzburg, Jaime. Literatura, violência e melancolia. Campinas, SP: Autores associados, 2013.

***

Afonso Caramano é funcionário público e escritor

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