Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

A polêmica das imagens de caixões

27/04/2004 na edição 274

As imagens dos caixões dos soldados americanos mortos na guerra ao Iraque foram o principal assunto do dia nos EUA, em 22/4/04. Desde 1991, a exibição de imagens do gênero era proibida pelo Pentágono. Antes disso, a solenidade do enterro de militares, com direito a honras e até, em algumas ocasiões, a presença do presidente da República e extensa cobertura da imprensa, sempre foi tradicional nas recentes guerras dos EUA.

Apesar de os rituais de guarda de honra continuarem, há mais de um ano o governo Bush reforçou o impedimento de acesso de meios de comunicação para registrar as imagens dos caixões sendo enviados de volta às bases militares americanas, alegando que isso chatearia parentes e amigos das vítimas. Já os críticos do governo dizem que a atitude faz parte da tentativa da Casa Branca de escamotear o custo humano da guerra, que só em 2004 já levou pelo menos 99 militares americanos.

De qualquer maneira, o reforço não adiantou. A demissão da autora de uma foto que foi parar na capa do Seattle Times [veja a imagem abaixo] fez com que diversas outras fotos fossem divulgadas em uma série de sítios. Centenas de imagens de caixões envoltos em bandeiras americanas na base militar de Dover foram exibidas no sítio Memory Hole (www.thememoryhole.org), dedicado a combater os segredos de Estado. Desde o ano passado, o sítio já vinha pedindo quaisquer fotos dos caixões chegando do Iraque. No dia 22/4, o Pentágono disse que a decisão das Forças Aéreas de conceder as imagens foi um erro. Mas foi tarde demais: diversas organizações noticiosas logo selecionaram algumas das 361 imagens disponíveis no sítio.

Ironicamente, as fotos foram tiradas por fotógrafos do próprio Departamento de Defesa dos EUA. Executivos de veículos de mídia afirmaram não saber que o próprio departamento estava fotografando os caixões, fato que só veio à tona quando Russ Kick, dirigente do Memory Hole, fez seu pedido. No início, disse Kick, seu pedido foi rejeitado, mas após certa insistência, ‘a regra foi incrivelmente revertida’.

O Pentágono, segundo reportagem de Bill Carter [The New York Times, 23/4/04], disse que as fotos foram tiradas para fins de registro histórico. A coronel-tenente Jennifer Cassidy, porta-voz das Forças Aéreas, afirmou que a liberação das imagens violou as regras do Pentágono e que nenhuma imagem será distribuída no futuro.

Mesmo assim, as organizações noticiosas pegaram imagens do sítio. Duas emissoras, ABC e NBC, disponibilizaram as imagens junto à notícia da demissão da autora da foto que deu início à polêmica. Vários jornais importantes, como The New York Times, The Washington Post, The Washington Times, The Boston Globe, Anchorage Daily News, Chicago Sun-Times, The Philadelphia Inquirer, Daily News, usaram as imagens em suas capas em 23/4, tal como o Seattle Times fizera no dia 18/4. Entre as emissoras de TV, apenas a Fox News Channel disse que não tinha planos de usar as fotos ou explorar o assunto.

Onde tudo começou

Quando a imagem que foi capa do Seattle Times chegou às ruas, o gesto do jornal pareceu mais contestatório do que noticioso. De fato, o Seattle Times se opõe às restrições da Casa Branca. ‘O governo não pode nos dizer o que podemos ou não publicar’, disse David Boardman, editor-administrativo do jornal. Mas nega que tenha sido motivado politicamente. ‘A foto tem sido vista como uma provocação desnecessária de um sentimento antiguerra, mas não estávamos tentando passar algum tipo de mensagem política’. Boardman garante que até agora, a reação dos leitores tem sido positiva. Com informações de Charles Geraci [Editor & Publisher, 19/4].

A atitude do jornal, porém, acabou custando o emprego da autora da foto, bem como desencadeou uma ampla discussão sobre a proibição imposta pelo Pentágono.

Demissão de fotógrafa

A autora da foto que foi capa do Seattle Times foi demitida por um empreiteiro militar após a publicação da imagem, disposta abaixo, dos caixões envoltos em bandeiras americanas. Tami Silicio, funcionária de um cargueiro no Kuwait, foi demitida por violar regulamentos do governo americano e da própria companhia, disse William Silva, presidente da Maytag Aircraft, empreiteira que contratou Tami no aeroporto internacional do Kuwait.

De acordo com Hal Bernton [The Seattle Times, 22/4], após a publicação no Seattle Times, a imagem logo se espalhou pela internet e foi assunto de debates na rede.

A Maytag também demitiu David Landry, colega de Tami com quem casou recentemente. Segundo Silva, a decisão foi feita pela companhia, mas o Exército americano expressou ‘preocupações bem específicas’ quanto à atitude de Tami. Silva não quis dizer que preocupações são essas.

Tami disse que nunca quis estar em evidência. Apenas esperava que a publicação da foto ajudasse familiares de soldados mortos a entenderem o cuidado e a devoção que equipes civis e militares dedicam à tarefa de trazer os corpos de volta para casa.

O Times recebeu a foto de uma amiga de Tami, Amy Katz, com que trabalhou em outra empreiteira em Kosovo. Tami autorizou o jornal a publicar a imagem sem receber por isso.

Alternativas engenhosas

Segundo reportagem de James T. Madore [Newsday, 19/4], há controvérsias quanto ao motivo da proibição. Historiadores afirmam que o ex-presidente George Bush ficou furioso quando emissoras de TV usaram imagens suas em uma coletiva com repórteres em que aparece rindo em determinado momento, e de velórios durante a Guerra do Golfo.

Um grupo de sobreviventes apóia o gesto de Bush filho. ‘Achamos importante garantir a privacidade das famílias’, disse Kathy Moakler, vice-diretora de relações governamentais da Associação da Família Militar Nacional (NMFA, sigla em inglês), no estado da Virgínia. Jornalistas têm sido dóceis. Nenhuma lei foi assinada e os defensores da Primeira Emenda têm estado relativamente quietos em relação às regras.

Até o dia 22/4, alguns veículos encontraram soluções alternativas. O World News Tonight está transmitindo In Honor Of (‘Em homenagem a’), uma série de tributos de três minutos que conta com entrevistas de familiares e amigos das vítimas. O New York Times logrou as restrições do governo na semana retrasada ao publicar uma foto do corpo de um soldado chegando a um aeroporto civil. Em sítios da internet, fotos do gênero têm pipocado e inflamado ainda mais o debate.

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