Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > JULGAMENTO NO STF

A política da notícia

Por Alberto Dines em 26/08/2007 na edição 447

Perguntado o que achava sobre o julgamento dos ’40 do mensalão’ iniciado naquele dia [quarta, 22/8] no STF, o presidente Lula foi peremptório: ‘Não vi, tenho que trabalhar’. Dia seguinte, quando um fotógrafo do Globo reproduziu da tela de um computador o diálogo digital entre dois ministros durante o julgamento, o presidente já teria interrompido o trabalho e encontrado razões para manifestar contrariedade pela ‘invasão da privacidade’ (segundo informou o Estado de S.Paulo na sexta-feira, 24/8).


O vazamento pela imprensa do diálogo travado nos bastidores do olimpo forense ganhou mais espaço do que o próprio julgamento, considerado pelos especialistas o mais importante na história da Suprema Corte. A razão é simples: chegamos atrasados ao debate ideológico ou simplesmente não temos apetite para atualizar nossa filosofia política.


Para compensar, desviamos grande parte da nossa energia para politizar intensamente a vida cotidiana até distorcê-la completamente. Das operações da Polícia Federal contra o crime organizado às tragédias aéreas, da legalização do aborto ao custo das obras para a realização dos Jogos Pan-Americanos, tudo é levado para o simplificado e reduzido palanque eleitoral. E como não poderia deixar de acontecer, tudo é enfiado na implacável máquina de triturar os consensos humanitários e relativizar certezas universais.


As maiores vítimas são as noções básicas consagradas há mais de 200 anos a respeito da democracia, Estado de Direito, Direitos Humanos e Liberdade de Expressão. Discuti-las é saudável, colocá-las sob suspeição equivale a um retrocesso.


Acerto trilateral


Na recém-iniciada Era da Informação, a partidarização tardia ganha aspectos quase selvagens. Se vivo fosse, John Milton rasgaria a sua Areopagítica, pela Liberdade de Imprimir sem Autorização nem Censura (1644), agora tornada inútil pelo retorno inesperado das técnicas de propaganda e desinformação concebidas por Joseph Goebbels para tornar a mentira algo parecido com a verdade, desde que repetida continuamente.


O fenômeno que nos anos 1990 foi batizado pelo observador da imprensa americano Howard Kurtz como ‘Circo da Mídia’ agora é designado pelo jornalista Marcelo Coelho como ‘A Política da Notícia’ (em O Esquecimento da Política, org. de Adauto Novaes, Agir, 2007).


Os ritos e modas da sociedade do espetáculo tornaram-se palatáveis há poucas décadas quando o evento tornou-se mais importante do que as circunstâncias que os geram. A cultura do eventual tornou-se marca registrada deste início de século, embora a produção artificial de fatos – ou factóides – seja tão aterradora quanto o super-abelhudo Big Brother imaginado por George Orwell em 1948. Sem referências sobre o que efetivamente acontece e o que foi encenado artificialmente, nega-se a realidade e consagra-se a invenção.


No mesmo dia (quinta, 23) em que o senador Aloízio Mercadante publicava na Folha de S.Paulo um texto acusando a imprensa de veicular hipóteses inverídicas, inclusive sobre o repatriamento dos boxeadores cubanos, o ministro da Justiça Tarso Genro comparecia à Comissão de Relações Exteriores do Senado para garantir que não houve acerto entre Brasília e Havana. Esqueceu que no dia anterior o chanceler cubano, em rápida visita, afirmara categoricamente o contrário: houve, sim, cooperação entre os dois governos. Agora sabe-se que o acerto foi trilateral porque era venezuelano o jato que levou os atletas de volta ao seu país.


Descrédito, desconfiança, suspeição


Irrelevante? Quando a notícia é politizada nada é relevante, tudo pode ser minimizado, secundarizado, relativizado e empurrado para debaixo do tapete. O tal do ‘mensalão’ começou irrelevante, confinado a um funcionário dos Correios flagrado quando embolsava tranqüilamente a irrelevante quantia de três mil reais. Em troca revelou as irrelevâncias do esquema de propinas que parecia confinado ao território do irrelevante PTB e acabou desembocando no maior escândalo político da história da República.


A política da notícia não serve a ninguém, sobretudo aos governantes. O assessor da presidência, professor Marco Aurélio Garcia, rejubilou-se com a informação transmitida pela TV de que o desastre do Airbus fora causado por defeito no reverso de uma turbina. Isso, dois dias depois da tragédia. Agora sabe-se que a tragédia poderia ter sido evitada se as autoridades levassem a sério as duas advertências de dezembro passado a respeito da pista de Congonhas.


A política da notícia distancia, arruína a comunicação, sobretudo desumaniza. Pode dar certo por algum tempo, mas não se sustenta. Uma sociedade onde se instala o descrédito, a desconfiança e a suspeição vive desnorteada. Incapaz de acelerar. Muito menos de crescer.

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/08/2007 Carlos N Mendes

    Goebbels deixou vasta herança política e cultural. O mundo para sempre será o palco da guerra da informação minha contra a verdade sua. A Veja se orgulha de ser ‘formadora de opinião’, mas como sequer cogita discutir o contraditório, posso chamá-la de ‘lavadora cerebral?’. ‘Formar opinião’, ‘fazer a cabeça’, ‘damos aos leitores aquilo que eles pedem’, cadê o jornalismo ? ‘formar opinião’ é doutrinar; é o que fazem os partidos políticos e as religiões, num mundo onde o pensamento tem pouco espaço para o diálogo; jornalismo é outra coisa. Mas tem o Goebbels…

  2. Comentou em 27/08/2007 Carlos N Mendes

    Goebbels deixou vasta herança política e cultural. O mundo para sempre será o palco da guerra da informação minha contra a verdade sua. A Veja se orgulha de ser ‘formadora de opinião’, mas como sequer cogita discutir o contraditório, posso chamá-la de ‘lavadora cerebral?’. ‘Formar opinião’, ‘fazer a cabeça’, ‘damos aos leitores aquilo que eles pedem’, cadê o jornalismo ? ‘formar opinião’ é doutrinar; é o que fazem os partidos políticos e as religiões, num mundo onde o pensamento tem pouco espaço para o diálogo; jornalismo é outra coisa. Mas tem o Goebbels…

  3. Comentou em 27/08/2007 Maria Izabel L. Silva Silva

    Que texto maluco é esse seu Dines???Surtou??? Um paragrafo espicaçando ‘ a politica da noticia’ logo em seguida outro paragrafo espicaçando os atos do governo (deportação de cubanos? entrevista do Lula?? mensalão ???)!!! O senhor não diz coisa com coisa! Das duas uma (ou as duas): ou eu sou muito burra, ou o senhor quer passar alguma mensagem cifrada para algum iluminado … Descredito, desconfiança e suspeição sim pois não temos obrigação de confiar nessa midia golpista tipo editora Abril e Rede Globo!!! Pelas chagas de Cristo, tenha dó!!!

  4. Comentou em 27/08/2007 Agostinho Rosa

    Concordo com o seu texto mas tenho algumas objeções. O caso do cubanos é sofrível e resultou em mais uma trapalhada da TV Globo. Exploração canhestra e inoportuna. Criaram um fato que não conseguem provar. Agora, com relação ao acidente da TAM, só você e a Eliane Catanhêde ainda acreditam que um avião com a TLA em 22,5 graus, com o motor direito consumindo por volta de 2.500 libras por hora de combustível (significa em quase potência máxima), não parou por falta de ‘grooving’?!?. Ora Dines, tenha a santa paciência. Vire o disco. Já não bastam os comentários sobre as bobagens que foram impressas, desmentidas e amplamente discutidas neste blog?

  5. Comentou em 27/08/2007 Menjol Almeida

    Caros colegas, leiam o blog do Azenha está imperdível. Hoje encontrei um texto sobre o verdadeiro e eterno caos, o do transporte coletivo em São Paulo. Esse casos não aparece na mídia que o sr. Alberto Dines defende. Por que será? Porque Kassab é um tucano enrustido, e não se pode criticar os tucanos, eles estão do mesmo lado da mídia. Há que se defender a mídia e os tucanos. Eis aí acima o mestre nessa arte.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem