Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CADERNO DA CIDADANIA >

A resistência não tem preço

Por Arthur Poerner em 22/04/2008 na edição 482

Não posso deixar de me solidarizar com Ziraldo e Jaguar, valorosos companheiros da resistência cultural no Pasquim ao obscurantismo ditatorial, diante do linchamento moral a que vêm sendo submetidos por alguns leitores. Acionado pelos mesmos princípios éticos e democráticos que me fizeram repudiar o golpe militar desde que surpreendido por ele, com menos de dois anos de profissão, no Correio da Manhã.

Por expressar esta rejeição, sempre e só no que escrevi, tornei-me, aos 26 anos, o caçula dos punidos com a suspensão dos direitos políticos por 10 anos; respondi a IPM; fui processado pelo ministro Suplici de Lacerda; tive que fugir pela janela – com Edmundo Muniz e o exímio editorialista Franklin de Oliveira – na noite em que forças policiais-militares invadiram o jornal, enquanto o Alberto Cury lia, em cadeia nacional, o texto do AI-5; acabei preso na redação, em 1970, demitido, após mais de três meses de prisão no inferno do Doi-Codi da Barão de Mesquita, e, ante a impossibilidade de sobreviver aqui, exilado, por quase 10 anos, na Alemanha.

Tentações ditatoriais

Como contabilizar perdas e ganhos (que os houve, embora não bafejados pela ditadura, na qual alguns vêem, equivocadamente, a grande musa dos cartunistas)? Incluir na conta os infartos, o romance inspirado na tortura, o conhecimento de outros povos e idiomas? Recebo, mensalmente, R$ 1.549,57 de aposentadoria de anistiado, ora rebatizada de ‘bolsa-ditadura’ – certamente, por quem não vivenciou os anos de chumbo ou optou por vivê-los por caminhos menos perigosos do que os da resistência.

Agora, o massacre do Jaguar e do Ziraldo levanta a questão: sou um ‘bolsista da ditadura’? Sei que agi movido pela minha consciência, sem visar a ganhos financeiros, que não foi ‘investimento’, mas, também, que, em todos os países regidos pelo direito, o Estado deve reparações pelos danos que ocasiona. A esses malefícios, que podem ser erros médicos ou balas perdidas em tempos democráticos, se agregam, nas ditaduras, desde prejuízos profissionais e materiais causados pela censura e pela repressão cultural a mortes e seqüelas físicas e mentais resultantes de tortura. 

Calcular o custo de uma carreira interrompida (a não ser nos casos de militares, diplomatas e outros funcionários públicos) é quase tão difícil quanto avaliar o preço de uma vida. Mais uma razão para que o nosso Estado jamais volte a ceder a tentações ditatoriais. Gera custos de reparação. Que os leitores zelosos com o erário público e com a destinação dos seus impostos também pensem nisso.

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Jornalista e escritor

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/04/2008 Feliep Faria

    o governo da Tchecoslováquia indenizou em alguns milhões de dólares (devolveu propriedade confiscada pelos comunistas) um conhecido meu que já faleceu. Se houve prejuizo, e parece que em alguns casos houve e em outros não, deve ser indenizado. O que eu gostaria de ver é esses jornalistas que recebem a dita bolsa defendendo os cubanos que tiveram que fugir de Castro, os venezuelanos que foram confiscados por Chaves e outras pessoas ao redor do mundo que foram massacradas pr seus respectivos governos, principalmente os que não respeitam os bens privados.

  2. Comentou em 25/04/2008 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Quando tinha 3 anos, em 1967 ou 1968, minha casa foi invadida a ponta-pés várias vezes pelos gorilas da Ditadura. Os tais queriam apanhar meu pai, que era comunista desde 1946 e já sido fichado pela polícia por ter participado de algumas pancadarias promovidas pelo Partido Comunista (como a promovida no Largo de São Francisco contra a campanha o petróleo é nosso, da qual o FHC correu não para a briga mas para longe dela -segundo dizia meu velho). Mesmo tendo direito, não quero o BOLSA DITADURA. Quero mesmo é que as Forças Armadas peçam desculpas formalmente pelos maltratos que foram impostos aos contribuintes (que pagavam os salários dos torturadores) e de seus filhos, que nem tinham condições de fazer qualquer opção política. Se os torturadores que ainda estão por aí (como o tal do Brilhante Ustra) fossem processados, condenados e executados (após serem devidamente torturados), também ficaria MUITO satisfeito.

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