Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

CADERNO DA CIDADANIA > CASO ELIZA SAMUDIO

A vítima julgada pela imprensa

Por Ligia Martins de Almeida em 06/07/2010 na edição 597

Eliza Samudio provavelmente vai fazer parte de uma estatística que coloca o Brasil acima do padrão internacional: o assassinato de mulheres (são dez por dia no nosso país) por motivos torpes. Elisa – por enquanto considerada desaparecida – é a ex-namorada (ou amante, como preferem alguns jornais e revistas) do goleiro Bruno, do Flamengo.


O estudo Mapa da Violência no Brasil 2010 mostra que as taxas de assassinatos femininos no Brasil são mais altas do que as da maioria dos países europeus, cujos índices não ultrapassam 0,5 casos por 100 mil habitantes, mas ficam abaixo das nações que lideram a lista, como África do Sul (25 mulheres em cada 100 mil). No Brasil são 4,2 mulheres por 100 mil habitantes: ‘Quanto mais machista a cultura local, maior tende a ser a violência contra a mulher’, diz a psicóloga Licursi Prates em matéria publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo (4/07/2010). Segundo o estudo, mulheres são mortas por questões domésticas: os assassinos são atuais ou antigos maridos, namorados ou companheiros. ‘Por serem ocorrências domésticas, às vezes a prevenção é mais difícil’, disse a delegada Elisabete Sato, chefe da divisão de Homicídios do DHPP, ao jornal.


O caso de Eliza Samudio poderia até não vir a ser parte das estatísticas de mulheres assassinadas, mas já figura entre os dados de agressão. Em outubro de 2009, ela foi entrevistada pelo jornal Extra, do Rio de Janeiro, depois de prestar queixa de agressão (por parte do goleiro Bruno). Na época, grávida de cinco meses, ela declarou ter sido drogada e espancada pelo goleiro, que teria feito ameaças de morte a ela – e suas amigas – caso fizesse denúncia de maus-tratos por parte dele (e seus amigos).


A notícia, então, não repercutiu. Afinal, tratava-se apenas de mais uma mulher agredida pelo companheiro. Nem o fato do agressor ser uma celebridade, tão ao gosto da mídia, causou repercussão maior.


Intimidação ‘de arma em punho’


A história de Eliza só virou manchete depois do seu desaparecimento e foi capa de Veja desta semana. Uma história sórdida, onde não há mocinhos. Ao falar da moça, a revista mostra Eliza como uma ‘maria chuteira’ (mulheres que estão sempre atrás de jogadores de futebol) e termina, por meio da análise de um psicólogo, dizendo que ela sofria (ou sofre) de um distúrbio chamado transtorno de personalidade dependente. Como explicou à Veja o psicólogo Antonio de Pádua Serafim, do Hospital das Clínicas de São Paulo, ‘a pessoa passa a ser dominada por pensamentos obsessivos pautados pela ameça de perda e tenta, a todo custo, reconquistar o objeto do desejo’. Dava a impressão de que era uma daquelas matérias em que a vítima era analisada, julgada e condenada. Como no tempo em que os homens matavam mulheres, alegavam legítima defesa da honra e saíam impunes do tribunal.


Mas, felizmente, a revista escapou dessa armadilha ao falar do goleiro Bruno. O goleiro, entrevistado pela revista, declarou ter conhecido Eliza numa orgia (‘Tinha mulher, homem, amigas dela, jogadores, uma p…. Essas festas são comuns no nosso meio.’) e disse: ‘Rezo para que Eliza apareça. Quando isso acontecer, se eu for o pai, vou brigar pela guarda, porque abandonar uma criança é coisa que não se faz.’ Concedido o direito de defesa, a revista fala do acesso de fúria do jogador quando Eliza ameaçou tornar púbica a gravidez e diz, no condicional, que ele ‘teria intimidado a ex-amante de arma em punho’.


Motivo torpe


Mas, de toda a matéria especial de Veja, talvez o melhor seja o box ‘Famosos acima da lei’. Logo no início, diz que ‘Bruno Fernandes é o terceiro jogador do rubro-negro a protagonizar um caso de polícia nos últimos meses’. Todos, segundo a revista, ‘tratados com a complacência habitualmente reservada aos jogadores famosos pegos em flagrante desvio de conduta’. Depois de citar os casos envolvendo jogadores, a revista conclui: ‘Diante de tanta naturalidade perante comportamentos que beiram o banditismo, parece natural que alguns craques ajam como vêm agindo – como se estivessem acima da lei.’


Talvez essa complacência policial explique por que a delegacia encarregada do exame toxicológico feito em Eliza em outubro (para saber se ela tinha sido forçada a ingerir medicamento abortivo) só agora tenha sido divulgado. Errou a polícia, mas errou também a imprensa, que não deu a menor importância à denúncia feita por Eliza quando ela dizia que tinha sido drogada pelo jogador que, segundo ela, se declarou capaz de matá-la e ficar impune ‘porque sou frio e calculista‘. Se Veja tivesse se dado ao trabalho de assistir à entrevista da moça ao jornal Extra, ainda hoje disponível no YouTube, o tom de toda a matéria poderia ter sido outro. Talvez a revista tivesse mostrado uma jovem assustada, e não apenas a moça promíscua que teve, como ponto alto de sua carreira, a participação em um filme pornô de título impublicável.


A revista também esqueceu de dizer que, seja qual for o comportamento, Eliza – ou qualquer outra pessoa – não poderia ser espancada ou morta por motivo torpe.

******

Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/07/2010 Emerson Mathias

    Marcia Coelho, como mulher nao queira avaliar a ‘conduta moral dela’, apenas se coloque no lugar de quem sofreu essa barbarie toda. Se não conseguirmos fazer essa reflexão, então estamos condenados a barbarie. Alias, é o que dizia Adorno após Auschwitz. Vivemos diante de varias Auschwitz, que toleramos diariamente. A midia, de certo modo, denuncia a nossa insensibilidade diante dessa violencia toda. Adorno nunca foi tão atual, infelizmente.

  2. Comentou em 08/07/2010 Márcia Coelho

    Emerson, não creio que a questão que esteja sendo levantaa acerca do caráter de Eliza resida no fato dela ser ‘modelo’, ou prostitura, ou coisa do gênero. A gestação da criança dentro do contexto da relação dos dois é que é moralmente questionável. Se, de um lado, o Bruno tinha a obrigação de acolher a criança, pois ele tem que saber onde bota o pinto, é também estranho que ela, curtidora de orgias, não estivesse protegida por nenhum método anticonceptivo. Então, da mesma forma que a articulista julgou o Bruno , há os que enxergam que a gravidez de Eliza não foi motivada por vocação à maternidade, mas como meio de abocanhar uma polpuda pensão para o filho, que ela também usufruiria. Com certeza, se Bruno for realmente o mandante do crime, o que ele fez é muito mais bárbaro do que o hipotético golpe da barriga aplicado por Eliza. Mas, como mulher, acho estranhíssima a luta dela para ter o filho, nas condições em que a criança foi gerada. E o fato é que, pra muitos, não dá para aliviar a conduta moral dela. Isso não alivie o crime que recai sobre os ombros de Bruno, mas pode atenuá-lo em função do inferno pessoal que hipotético golpe cria na vida de qualquer um. Se ficar provado que ela era vigarista, que a vigarice faça parte da memória dela, ora. Não é a verdade que se quer? E que o mandante e o assassino sejam duramente punidos pelo crime bárbaro que cometeram.

  3. Comentou em 08/07/2010 Patrícia Valiño

    E mais uma vez a jornalista despeja mais um de seus textos ultrafeministas. Agora a mulher é ‘coitadinha, vítima da violência contra a mulher’. Oras, faça-me o favor. Isso não foi caso de amor, isso foi uma orgia que deu muito, muito errado. Repito o que eu disse em comentário anterior: a jornalista trata o público leitor como idiota. Acha que nossa opinião é 100% formada ao ler uma matéria, e que ninguém é capaz de ler a veja e contestar, para si mesmo, os fatos apresentados. E neste artigo, acha que a moça é uma coitadinha incapaz, que não percebeu com quem se metia. Oras, tenho inteligência suficiente para saber que um rapaz que vive se metendo em orgias não vale nada. Tenho que saber o que estou fazendo se resolver me meter com ele, não? Elz deveria saber com o que estava se metendo também. Talvez apenas não fizesse idéia de que ele iria arrumar um jeito de liquidar com ela, talvez apenas achasse que iria ganhar pensão, como tantas ganham, mas ainda assim devia saber no que se meteu. E outra coisa: violência contra a mulher existe sim, e muita. Mas vamos parar de negar a existência da mulher vagabunda porque isso, minha cara, infelizmente também existe aos montes. Menos hipocrisia, por favor.

  4. Comentou em 07/07/2010 Márcia Coelho

    O fato de Eliza poder ter sido assassinada não significa que não se deve investigar outras hipóteses, além do ‘Bruno assassino’, pois parece-me plausivel que ela, ao querer gerar o filho, tenha sido movida por interesses outros e não só o da maternidade. Pode existir uma trama por detrás de tudo isso ainda não desvendada. Por isso, antes de julgar X e Y como vítimas ou criminosos, prefiro aguardar o andamento das investigãções e as provas materiais.

  5. Comentou em 07/07/2010 Márcia Coelho

    O fato de Eliza poder ter sido assassinada não significa que não se deve investigar outras hipóteses, além do ‘Bruno assassino’, pois parece-me plausivel que ela, ao querer gerar o filho, tenha sido movida por interesses outros e não só o da maternidade. Pode existir uma trama por detrás de tudo isso ainda não desvendada. Por isso, antes de julgar X e Y como vítimas ou criminosos, prefiro aguardar o andamento das investigãções e as provas materiais.

  6. Comentou em 07/07/2010 Claudia Magnólia Freitas

    Adorei o artigo, Lígia. Nada, absolutamente nada, justifica a violência contra a mulher (ou qualquer outro ser). Parabéns.

  7. Comentou em 02/12/2007 Ibsen Marques

    Tenho percebido que, com certa frequência, meus comentários não são publicados. Publico meus dados pessoais e email. Sempre faço críticas, ás vezes ácidas, mas nunca ofensivas. Não procederia a alegação do número dos comentários, pois sempre encontro artigos com maior número deles.
    Gostaria de ser informado dos motivos.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem