Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CADERNO DA CIDADANIA > OI NA TV

A cobertura do golpe branco no Paraguai

Por Lilia Diniz em 06/07/2012 na edição 701

 

Faltando apenas nove meses para as eleições, o Senado paraguaio aprovou em menos de cinco minutos o impeachment do ex- presidente Fernando Lugo. Frederico Franco, vice-presidente e opositor de Lugo, assumiu o cargo. O ex-presidente foi comunicado do julgamento político menos de 24 horas antes da sessão no Congresso, e disse que não reagiu para evitar um banho de sangue. Pesa contra Lugo uma série de acusações, como má gestão das Forças Armadas; complacência com invasões de terra; fraca atuação no combate à violência; violação da Constituição com a assinatura de acordos regionais, além da morte de 17 pessoas durante a desocupação de uma fazenda.

O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (3/7) discutiu a postura da mídia neste episódio. Para o governo brasileiro, a destituição de Lugo representou uma “ruptura da ordem democrática”. A União das Nações Sul-Americanas (Unasul) fez uma série de apelos para tentar evitar a cassação. O Mercosul suspendeu o Paraguai até as eleições presidenciais do ano que vem, mas não impôs sanções econômicas ao país. Em uma decisão histórica interpretada como retaliação pela destituição de Lugo, a Venezuela foi incorporada ao Mercosul. O Congresso paraguaio era o mais forte opositor da adesão plena do país de Hugo Chávez.

A mídia brasileira manifestou-se em editoriais. A Folha de S.Paulo afirmou que nada justifica o “recurso açodado” do impeachment, mas destacou que o procedimento seguiu o previsto na Constituição. A Folha sublinhou ainda que Lugo foi inábil ao longo de todo o seu mandato e que a punição imposta pelo Mercosul foi excessiva. O Estado de S.Paulo considerou que qualquer retaliação ao Paraguai pelo bloco de países seria “uma aberração” e criticou a atuação da diplomacia brasileira. Para o jornal, nenhum dispositivo constitucional foi violado. O Globo criticou a rápida reação do governo brasileiro, que logo nos primeiros instantes foi contra o que classificou como um “golpe parlamentar”. O processo de afastamento do ex-presidente teria sido sumário e impedido a defesa de Lugo, mas não feriu a Constituição paraguaia.

Para debater este assunto, Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro o sociólogo uruguaio Bernardo Sorj. Sorj estudou Antropologia, História e Filosofia, escreveu 26 livros e mais de cem artigos científicos. O outro convidado no Rio foi o jornalista Mac Margolis, correspondente da revista norte-americana Newsweek no Brasil há mais de três décadas e articulista do jornal O Estado de S.Paulo. Margolis colaborou com The Washington Post e The Economist e recebeu o prêmio Maria Moors Cabot, da Universidade Columbia. Em São Paulo, o programa contou com a presença do jornalista Flávio Freire, que foi enviado pelo jornal a Assunção para acompanhar a crise no país vizinho.

Farsas e golpes

No editorial exibido antes do debate no estúdio, Alberto Dines avaliou que a destituição do ex-presidente “escancarou a fragilidade das convicções democráticas na América do Sul” [ver íntegra abaixo]. Para Dines, o episódio foi uma farsa parlamentar montada para manter as aparências. “Como resultado, um presidente eleito democraticamente foi escorraçado de forma sumária pela maioria oposicionista, nove meses antes de eleições onde seria julgado pelos eleitores”, criticou Dines. Para ele, a postura da imprensa brasileira e da portenha foi “contemplativa e acrítica”. Os jornais estranharam o rito sumário no Congresso, mas acabaram conformados com o acatamento pelo Judiciário do golpe parlamentar.

A reportagem exibida antes do debate no estúdio entrevistou o jornalista José Roberto Burnier, que esteve em Assunção pela TV Globo para cobrir os desdobramentos do impeachment, e o editor de Opinião do jornal O Globo, Aluizio Maranhão. Burnier contou que, no dia seguinte à derrubada, havia uma revolta dos manifestantes pró-Lugo em frente ao Congresso, mas que a movimentação logo foi desmantelada: “Para a minha surpresa, no dia seguinte Assunção estava como se nada tivesse acontecido. E a sensação que eu tive foi que os paraguaios – a gente usa um termo jornalístico – eles ‘entubaram’, ou seja, aceitaram aquela medida do Congresso”.

Para Burnier, a postura do ex-presidente pode ter contribuído para minar a força dos protestos. “Assim que saiu o resultado, o Lugo veio – até sorridente – dar uma entrevista coletiva e aceitou o resultado. Tenho para mim que ele aceitou o resultado para evitar um banho de sangue, uma revolta muito grande no país, mas também o fato de ele ter aceitado tão prontamente, tão pacificamente, meio que desestimulou as manifestações a favor dele”, lembrou Burnier. O correspondente disse que muitos colegas estavam absolutamente surpresos e decepcionados com a atitude do Congresso e que postura de uma jornalista chamou a sua atenção:

“Me estranhou um comentário que uma colega paraguaia fez dentro do palácio presidencial, no sábado. Cheio de jornalistas dentro do palácio, e ela me disse assim: ‘Não estou entendendo por que vocês estão fazendo esse carnaval todo com esse caso’. Eu falei: ‘Como assim?’. Ela: ‘Não estou entendendo como isso ficou tão grande’. E eu ‘Como não? Onde você viu, no mundo, um presidente, em uma democracia, ser retirado em 24 horas que não seja um golpe de Estado?”

Polêmica nas Redações

Aluizio Maranhão contou que houve divergência entre os colunistas do jornal sobre o impeachment de Lugo: “Nós tivemos um primeiro editorial defendendo as intenções das instituições paraguaias para que não houvesse ruptura institucional. Em vinte e quatro horas, concluímos que não cabia a expulsão do Paraguai [do Mercosul] porque estava atendida a Constituição paraguaia, embora continuássemos a admitir e reconhecemos que, embora a legislação paraguaia seja omissa com relação a prazo, setenta e duas horas não é exatamente um prazo condizente com normas democráticas civilizadas. Porém, firmamos posição de que não havia sido golpe parlamentar”.

A cobertura do afastamento do ex-presidente Lugo pode ter sido afetada por deficiências estruturais da imprensa. Maranhão ponderou que a imprensa demorou para perceber a dimensão do episódio. “Eu acho que nós padecemos do velho problema do fim de semana. Porque isso surpreendeu a todos, não se estava acompanhando antes, não se acompanha a política interna paraguaia com grande atenção, falha nossa. Soube-se desse afastamento de quinta para sexta, de sexta para sábado. Então entramos numa espécie de ‘zona de sombra’, que os jornais padecem, que são as edições de fim de semana. Então, só na segunda-feira, de domingo para segunda, é que se foi perceber o que tinha ocorrido no Paraguai no fim de semana”, admitiu o editor.

No debate ao vivo, Dines comentou que, ao contrário da maior parte dos colunistas, Mac Margolis escreveu sobre a deposição de Lugo nos primeiros momentos após o impeachment. Margolis explicou que, por coincidência, o afastamento ocorreu no mesmo dia em que ele fecha a coluna. Naquele momento, a situação no Paraguai era confusa e, embora já houvesse rumores nas semanas anteriores, o julgamento político foi surpreendente. O jornalista disse que a velocidade do processo é discutível e “assustou todo o mundo”, mas foi constitucional. “Se isso é um golpe latino-americano, então o golpe latino-americano mudou, e muito”, comentou.

Rito sumário

Margolis destacou que não houve violência na transição de poder, a ordem constitucional foi mantida e nenhum direito foi suspenso. “Eu não acho que foi um golpe. Foi uma burrice política. Ao invés de esperar nove meses para que o presidente se extinguisse com seus próprios erros, deu argumentos ao outro lado. Deu argumentos fortes aos países que, sim, arranham todo santo dia as suas Constituições”, avaliou o colunista.

O que aconteceu no Paraguai, na avaliação de Flávio Freire, foi um rito sumário surpreendente. O repórter contou que o jornal O Globo decidiu enviar um correspondente para Assunção quando a Câmara paraguaia mostrou que iria levar o processo de impeachment adiante. Como a imprensa não estava acompanhando atentamente a política interna paraguaia, a presença do jornalista in loco foi essencial. “Assim que eu cheguei lá o que me deixou estarrecido foi, de fato, o Senado já todo visivelmente articulado para a derrocada do presidente Lugo. Isso era evidente, a gente percebia não só no Congresso, na movimentação dos senadores e deputados, mas a gente percebia também na rua”.

O jornalista explicou que, como a Constituição estava sendo respeitada, o foco das críticas passou a ser a velocidade com que Lugo foi retirado do poder, que teria dificultado a defesa do ex-presidente. “É uma ruptura da ordem democrática enorme e se deu a partir daí o grande equívoco do Congresso em relação à situação do ex-presidente Fernando Lugo”, disse Flávio Freire.

Cobertura pobre

Bernardo Sorj avaliou que a forma com que a mídia brasileira tratou do tema foi “pobre”. O sociólogo destacou que Lugo foi destituído pela incapacidade de costurar apoio no Congresso e que isso poderia acontecer em qualquer nação democrática. “No dia em que caiu o Lugo, a minha pergunta não era: ‘Foi constitucional ou não foi?’ Isso é uma pergunta mais normativa. Do ponto de vista jornalístico, a pergunta é: ‘E agora, José? Qual é a postura do Brasil e do Mercosul?’ Confesso que, lendo os editoriais, eu fico chocado com o nível de opinionismo e falta de investigação”, criticou Sorj.

O sociólogo ressaltou que o Brasil assinou o Protocolo de Ushuaia, que define claramente as regras o compromisso democrático no Mercosul. A mídia brasileira deveria ter estudado melhor esse protocolo para fazer uma cobertura mais completa. De acordo com as regras, os países signatários – além de discutir a possível expulsão de um dos membros – deveriam ouvir as explicações da nação que está sendo acusada de atitude antidemocrática.

Para Sorj, a entrada da Venezuela no Mercosul significou um golpe no povo paraguaio, que era contra a incorporação desse país, e a imprensa não avaliou de forma correta a gravidade dessa situação. Somente a partir do alerta dado pelo Uruguai é que a mídia passou a dar maior destaque ao assunto: “Agora, os jornais descobrem, graças ao Uruguai. Quem levantou o apito não foi nenhum jornalista, teve que ser o ministro das Relações Exteriores do Uruguai, que teve que dizer que as coisas estavam erradas”.

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O impeachment de Lugo

Alberto Dines # editorial do Observatorio da Imprensa na TV nº 646, exibido em 3/7/2012

O inesperado impeachment do presidente Fernando Lugo escancarou a fragilidade das convicções democráticas na América do Sul. Dentro e fora do Paraguai. Em Assunção, montou-se uma farsa parlamentar para atender as aparências e, como resultado, um presidente eleito democraticamente foi escorraçado de forma sumária pela maioria oposicionista, nove meses antes de eleições onde seria julgado pelos eleitores.

Nos poderosos vizinhos, Brasil e Argentina, o golpe parlamentar não foi aceito tão resignadamente. Os governos de Cristina Kirchner e Dilma Rousseff reclamaram contra a ilegalidade. Decepcionante – e mais do que isso, assustadora – foi a atitude contemplativa e acrítica da grande imprensa brasileira e portenha. Geralmente aguerridos e indignados quando percebem alguma ameaça às liberdades no continente, os três jornalões brasileiros e os dois argentinos foram indulgentes: estranharam o rito sumário no Congresso mas acabaram conformados com o acatamento pelo Judiciário do putsch parlamentar.

Se a imprensa argentina e brasileira estivessem mais comprometidas com a democracia, os respectivos governos teriam sido mais veementes em repudiar o golpe. Foi pífia a penalidade imposta ao Paraguai na reunião do Mercosul em Mendoza: suspender o Paraguai até as próximas eleições e substituí-lo pela Venezuela (que não chega a ser um pilar democrático). É um convite para que a América Latina volte ao regime do relativismo e das ambiguidades.

E tudo porque o golpe paraguaio aconteceu na véspera do fim de semana e os editorialistas brasileiros estavam sem ânimo para assumir o seu papel de defensores da democracia.

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A mídia na semana

>> A má vontade da mídia eletrônica americana com o presidente Barack Obama ficou patente na semana passada com a monumental barriga cometida pelos canais CNN e Foxnews. Enquanto a Corte Suprema dividia-se sobre a constitucionalidade do principal artigo da reforma da saúde e ainda faltava o voto de desempate do presidente da Corte, John Roberts, as duas redes não esperaram o fato e apostaram num factoide anunciando um grande revés para Barack Obama. O revés foi das duas redes apressadinhas e reacionárias. E de todos os que apostam as fichas no jornalismo das maquinetas e maquininhas.

>> A imprensa reapareceu na última quarta-feira na CPMI do Cachoeira na pessoa de um radialista/jornalista chamado Luiz Carlos Bordoni que durante 14 anos trabalhou nas campanhas eleitorais do governador goiano Marconi Perillo, do PSDB. Bordoni declarou que por um trabalho limpo foi pago com dinheiro sujo da contravenção. Mas é preciso lembrar a todos os que estão lidando com o caso que jornalista ou radialista não pode engajar-se profissionalmente em campanhas políticas, isso cabe aos assessores de imprensa, que exercem uma profissão oposta ao jornalismo. Jornalista é pago para apurar fatos, assessores são pagos para esconder fatos.

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[Lilia Diniz é jornalista]

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