Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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CADERNO DA CIDADANIA >

A firmeza da verdade

Por Deonisio da Silva em 15/07/2008 na edição 494

Jesus, personagem que data a era que vivemos e a que nos antecedeu, esta com o símbolo a.C., ensinou que a verdade deveria ser proclamada do alto dos telhados.

O ‘alto dos telhados’ hoje tem antenas de televisão! Mas o ‘alto dos telhados’ é muito mais eficaz e mais rápido quando entra pelas ondas do rádio (em rádio ou em internet), pelas linhas telefônicas ou por cabos. Se bem que nenhuma dessas rápidas informações substituem a análise dos jornais e das revistas. Sem contar que você pode guardar um recorte de imprensa e, anos depois, contemplar os tempos idos e vividos.

Aliás, a internet foi a grande estrela da semana passada. Nenhum jornal furou a equipe do portal Terra, que avisou a seus clientes que a Polícia Federal, com a operação Satiagraha, tinha prendido dezenas de graúdos.

A palavra da semana foi satiagraha, nome que o delegado da Polícia Federal deu à operação que comandou para desbaratar uma quadrilha de colarinho-branco que agia, nacional e internacionalmente, para roubar o Brasil, tendo como quartel-general o Banco Opportunity, de Daniel Valente Dantas.

Satiagraha, uma senha

O nome do delegado é Protógenes de Queiroz. Seu nome tem origem grega. Protógenes é semelhante a primogênito, o primeiro filho, mas Protógenes é também aquele que veio primeiro, pois designa elemento formado pela cristalização ou solidificação do magma fundido, não deriva de modificações de rochas preexistentes.

Quem escolheu este nome para ele é um sujeito culto, erudito, que sabe o significado do nome que deu ao filho. E, tendo o sobrenome Queiroz, fez par muito adequado, pois queiroz é sinônimo de urze, um arbusto de cujas raízes se fazem cachimbos. Em resumo, os étimos de seu nome e sobrenome dizem tratar-se de homem que agüenta qualquer tipo de fogo. Ninguém vai fritar o nosso Protógenes de Queiroz, visto como herói pela opinião pública, na semana passada.

E que nome ele escolheu para a operação que prendeu o banqueiro e mais dezenas de outros maiorais, entre os quais o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta, e o magnata das finanças Naji Nahas, este envolvido em onze de cada dez suspeitas de crimes financeiros?

Satiagraha, este o nome da operação, na verdade uma senha. A palavra veio do sânscrito, mas aparece também no hindi, como os ingleses, que colonizaram a Índia, escreveram o nome da língua que ouviam. É idioma de raiz indo-européia, do ramo indo-iraniano, sub-ramo indo-árico, vinculado ao grupo sânscrito.

Até a classe média aprovou

Não apenas as palavras, mas também os conceitos, usos e costumes desconcertaram os ingleses quando estes chegaram para colonizar a Índia, de que é exemplo, na cultura indiana, a viúva que se imolava em ritual na fogueira funerária do marido com o objetivo de provar seu amor conjugal e fidelidade.

A sinistra e funesta cerimônia foi abolida apenas em 1829, por decisão do governo inglês. E a mulher sati, sábia em hindi, como era conhecida tal viúva, não mais se imolou.

Palavras vindas do hindi e do sânscrito são invocadas muito raramente na mídia, mas no dia 8 de julho de 2008 o Brasil tomou conhecimento de uma operação da Polícia Federal chamada Satiagraha, expressão do sânscrito que junta duas palavras satya, verdade, e graha, firmeza.

O líder político indiano Mahatma Gandhi, nascido em 1869 e falecido em 1948, adotou a expressão para designar o movimento de resistência pacífica, por ele liderado, que objetivava a independência da Índia. Mohandas Karamchand, seu verdadeiro nome, era advogado e foi várias vezes preso pelos ingleses.

Setores da mídia, divididos, reprovaram ou aprovaram a prisão do banqueiro em sua residência. Mas o povo, este aplaudiu. E por quê? Porque esses mesmos setores da mídia só se mexem em defesa do Bem e da Lei quando se trata de ricos e poderosos. Quando os ofendidos são pobres e fracos, esses mesmos setores fingem que não é com eles!

A classe média, que paga juros de agiotagem, que chegam a ultrapassar taxas de 10% ao mês em cheques especiais e cartões de créditos, silenciosa, aprovou.

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Escritor, doutor em Letras pela USP, professor e vice-reitor de Pesquisa e Pós-graduação da Universidade Estácio de Sá (Rio de Janeiro) e autor, entre outros, dos romances Avante, Soldados: Para Trás (1992), Os Guerreiros do Campo (2000) e Goethe e Barrabás (2008)

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