Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CADERNO DA CIDADANIA > OPERAÇÃO SATIAGRAHA

A firmeza da verdade

Por Deonisio da Silva em 15/07/2008 na edição 494

Jesus, personagem que data a era que vivemos e a que nos antecedeu, esta com o símbolo a.C., ensinou que a verdade deveria ser proclamada do alto dos telhados.

O ‘alto dos telhados’ hoje tem antenas de televisão! Mas o ‘alto dos telhados’ é muito mais eficaz e mais rápido quando entra pelas ondas do rádio (em rádio ou em internet), pelas linhas telefônicas ou por cabos. Se bem que nenhuma dessas rápidas informações substituem a análise dos jornais e das revistas. Sem contar que você pode guardar um recorte de imprensa e, anos depois, contemplar os tempos idos e vividos.

Aliás, a internet foi a grande estrela da semana passada. Nenhum jornal furou a equipe do portal Terra, que avisou a seus clientes que a Polícia Federal, com a operação Satiagraha, tinha prendido dezenas de graúdos.

A palavra da semana foi satiagraha, nome que o delegado da Polícia Federal deu à operação que comandou para desbaratar uma quadrilha de colarinho-branco que agia, nacional e internacionalmente, para roubar o Brasil, tendo como quartel-general o Banco Opportunity, de Daniel Valente Dantas.

Satiagraha, uma senha

O nome do delegado é Protógenes de Queiroz. Seu nome tem origem grega. Protógenes é semelhante a primogênito, o primeiro filho, mas Protógenes é também aquele que veio primeiro, pois designa elemento formado pela cristalização ou solidificação do magma fundido, não deriva de modificações de rochas preexistentes.

Quem escolheu este nome para ele é um sujeito culto, erudito, que sabe o significado do nome que deu ao filho. E, tendo o sobrenome Queiroz, fez par muito adequado, pois queiroz é sinônimo de urze, um arbusto de cujas raízes se fazem cachimbos. Em resumo, os étimos de seu nome e sobrenome dizem tratar-se de homem que agüenta qualquer tipo de fogo. Ninguém vai fritar o nosso Protógenes de Queiroz, visto como herói pela opinião pública, na semana passada.

E que nome ele escolheu para a operação que prendeu o banqueiro e mais dezenas de outros maiorais, entre os quais o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta, e o magnata das finanças Naji Nahas, este envolvido em onze de cada dez suspeitas de crimes financeiros?

Satiagraha, este o nome da operação, na verdade uma senha. A palavra veio do sânscrito, mas aparece também no hindi, como os ingleses, que colonizaram a Índia, escreveram o nome da língua que ouviam. É idioma de raiz indo-européia, do ramo indo-iraniano, sub-ramo indo-árico, vinculado ao grupo sânscrito.

Até a classe média aprovou

Não apenas as palavras, mas também os conceitos, usos e costumes desconcertaram os ingleses quando estes chegaram para colonizar a Índia, de que é exemplo, na cultura indiana, a viúva que se imolava em ritual na fogueira funerária do marido com o objetivo de provar seu amor conjugal e fidelidade.

A sinistra e funesta cerimônia foi abolida apenas em 1829, por decisão do governo inglês. E a mulher sati, sábia em hindi, como era conhecida tal viúva, não mais se imolou.

Palavras vindas do hindi e do sânscrito são invocadas muito raramente na mídia, mas no dia 8 de julho de 2008 o Brasil tomou conhecimento de uma operação da Polícia Federal chamada Satiagraha, expressão do sânscrito que junta duas palavras satya, verdade, e graha, firmeza.

O líder político indiano Mahatma Gandhi, nascido em 1869 e falecido em 1948, adotou a expressão para designar o movimento de resistência pacífica, por ele liderado, que objetivava a independência da Índia. Mohandas Karamchand, seu verdadeiro nome, era advogado e foi várias vezes preso pelos ingleses.

Setores da mídia, divididos, reprovaram ou aprovaram a prisão do banqueiro em sua residência. Mas o povo, este aplaudiu. E por quê? Porque esses mesmos setores da mídia só se mexem em defesa do Bem e da Lei quando se trata de ricos e poderosos. Quando os ofendidos são pobres e fracos, esses mesmos setores fingem que não é com eles!

A classe média, que paga juros de agiotagem, que chegam a ultrapassar taxas de 10% ao mês em cheques especiais e cartões de créditos, silenciosa, aprovou.

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Escritor, doutor em Letras pela USP, professor e vice-reitor de Pesquisa e Pós-graduação da Universidade Estácio de Sá (Rio de Janeiro) e autor, entre outros, dos romances Avante, Soldados: Para Trás (1992), Os Guerreiros do Campo (2000) e Goethe e Barrabás (2008)

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/07/2008 gilda piccolo

    Bom: 1- Reitero totalmente que confio plenamente na legalidade e não no tal direito achado na rua, de cuja existência soube apenas hoje , o qual é ministrado na Unb e é uma lástima. Representa um retrocesso de 2 mil anos, ou a volta à Lei de Talião. 2- O Ministro Gilmar Mendes foi absolutamente técnico e correto e todos os grandes juristas, unanimemente, disseram isto. 3- Dando uma ‘rasante ‘ en todas as seções do OI, verfiquei que o Sr Leite aparece somente para cotrariar, passando a imagem de militante xiita do PT dos anos 80, quando o partido era tido como a reserva moral do país. Hoje, depois de …., bom, de tudo que já assistimos, como mensalões, land rovers, dolares em cueca, digamos que o pt perdeu a virgindade. Mas os militantes de antanho aí estão nos blogs, na net, na mídia em geral, para retrucar sem base e promover o que sabiamente o emabixador amorim repetiu para uma judia: Goebels repetia tanto uma mentira até torná-la verdade. Voltando ao item, verfiquei que o tal sr Leite entra em todas as conversas, com ataques pessoais aos participantes, fazendo que o interesse do debate volte para sua pessoa. Bom, como isto é realmente desiteressante, venho dizer que gostei de participar, salvo dos contra ataques sem base e grosseiros ( como ja falaram dele aqui mesmo no OI)4- E o certo é : ‘habeas corpus’ e não como o sr Leite escreve. Estudar faz bem!

  2. Comentou em 22/07/2008 gilda piccolo

    E, professor, permita-me, com todo o respeito! Esta frase ‘pois o STF soltou o bruto, qua saiu sorrindo, como saem todos os endinheirados que consideram um bom negócio roubar muito e passar na cadeia tão pouco! O STF precisa mais do que filmes sobre o suborno de autoridades? ‘ pareceu-me preconceituosa. Porque todas as pessoas que são soltas, saem sorrindo, por óbvio! E o STF, ‘maxime’ o Ministro Gilmar Mendes, foi absolutamente correto! Absolutamente correto, repito! E foi magistral quando disse: A Suprema Côrte é quem acerta e quem erra por último! Isto é cumprir a estrita legalidade!Ou seja cunprir a Justiça!

  3. Comentou em 20/07/2008 gilda piccolo

    Bem o banqueiro, não é Mendes. Enfim…. o Ministro Gilmar é muito preparado jurídicamente e fundamentou muito bem os dois votos. Os votos foram publicados no Estadão, no dia 17.Li e reli e está absolutamente dentro da legalidade. Se o povo quer linchar o Dantas, isso é outra coisa. Mas não podemos deixar que a ordem constitucional seja invertida. Se foi concedido o habeas corpus, era para ser cumprido, porque a última decisão é a do STF , que é quem acerta ou erra por último. Não adianta vir o delegado evangélico e querer desafiar o Ministro, porque falta competência constitucional para tanto. O mesmo do Juiz Sanctis, que errou feio e depois conclama a juizada , bem despreparada, pra fazer passeata. Ora, juiz não faz passeata, não faz greve, não faz inversão de hierarquia. Se o juiz de piso prendeu e o STF soltou, é para cumprir. Aliás, as provas sequer foram apreciadas pelo juiz ! O caso grave, que vai dar trabalho para a defesa é o caso da tentativa de cooptar um delegado. Isso sim, vai dar trabalho e acredito q o Dantas seja condenado por isso. Talvez não ele, mas quem tentou, que foi outra pessoa. Do resto, aposto que não vai dar em nada, pq acabei de ler o inquerito do Proctógenes que é muito ruim, confuso,completamente apoiado em falatorio da imprensa e não em fatos. Vai ser mole cair fora.

  4. Comentou em 19/07/2008 Marco Antônio Leite

    Vale dizer que o brasileiro não teme quem quer que seja o que ocorre de fato são as informações que chegam distorcidas. Informações que privilegiam os coronéis dos três poderes, mais banqueiros, empresários mega-investidores do dinheiro alheio, atravessadores e pilantras de todo tipo e tamanho. A partir do momento que as instituições que representam os trabalhadores passar a levar a verdadeira verdade do que se passa nas esferas superiores e chamar o povo para grandes movimentos de massa, aposto que, a minoria ficará com medo do povão. Quem sabe com essa atitude conseguiremos reverter o jogo.

  5. Comentou em 16/07/2008 Marco Antônio Leite

    Cara Gilda, ‘DEUS’ existe somente na cabeça dos alienados, portanto o que você escreveu não deixa duvida quanto aos direitos somente dos ricos. O bandido miserável é recebido com toda a pompa pela polícia, ou seja, com uma saraivada de balas. Se não morre, são tratado como cachorro, os delicados polícias parte para os bofetes, colocam pulseiras de metal nos dois braços do marginal, joga-o no chiqueirinho do camburão e leva imediatamente para a cadeia. Segundo seu pensamento com o Daniel Dantas e seus amiguinhos essa conduta é espetacularização, não pode tratá-los com truculência. Abraços…

  6. Comentou em 15/07/2008 Edson Caetano

    Não entendi um comentário anterior.
    Quer dizer que a PF prendeu pessoas sem mandado de prisão?
    Se houve mandado a prisão foi legal.
    Poderíamos até discutir se foi correta, jamais se foi legal.
    Não me sinto nem um pouco ameaçado pelas esta operações da PF.
    Para mim qualquer pessoa que seja presa deve ser algemada, para segurança dos próprios policiais.
    Quando descobriram aquela menina no Pará presa com homens ou trabalhadores sendo descobertos em condições análogas a escravidão não vi o Presidente do STF ou estes senadores que hoje estão indignados se pronunciando.
    A verdade é que no Brasil as leis foram feitas para PPP (Pobre, Preto e Put…).
    No Brasil quem tem dinheiro não se preocupa em provar inocência e sim em protelar ao máximo possível o julgamento em ultima instância.
    Quando o crime prescrever sem julgamento final será a prova que o crime compensa ( Magalhães pinto – Banco Nacional, Calmon de Sá – Banco Econômico, Maluf e tantos outros)
    Até réu confesso consegue protelar sua prisão (se tiver dinheiro é claro e fizer parte da elite), vide Pimenta Neves.
    Graças a uma lei criada na ditadura para beneficiar um dos seus cúmplices que foi condenado por crimes comuns, a Lei Fleury, a elite sempre poderá se sentir segura de jamais ser mandada para a cadeia.

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